Crise na Alemanha evoca resistência contra a extrema direita neonazista

Tragédia em Magdeburgo intensifica debate sobre a influência da AfD e expõe divisões políticas, enquanto sociedade civil reage para fortalecer o cordão sanitário

A recente crise política na Alemanha e o crescimento da extrema direita estão provocando uma série de reações e movimentações de partidos, movimentos anti-fascitas e outros grupos organizados da sociedade civil, que buscam fortalecer o “cordão sanitário” contra o neonazismo.

A tragédia em Magdeburgo, onde um ataque a uma feira de Natal deixou cinco mortos e dezenas de feridos, intensificou os debates sobre o avanço da Alternativa para a Alemanha (AfD) no cenário político.

O episódio não apenas evidenciou a exploração política de uma tragédia pelo partido de Alice Weidel, mas também catalisou reações da sociedade civil e de forças democráticas que buscam isolar o partido de ideologia nazista.

Em um comício em Magdeburgo, a líder da AfD rapidamente associou o atentado às políticas de imigração, reforçando sua retórica de ódio e exclusão contra grupos minoritários no país.

No discurso, Weidel utilizou o episódio como ferramenta para angariar apoio em meio à campanha eleitoral de fevereiro, que já se desenha como uma das mais polarizadas na história recente do país.

Ela afirmou que “o atentado é uma evidência do colapso das políticas de imigração na Alemanha” e que o país precisa “recuperar o controle sobre quem entra e permanece em nosso território.”

Investigações após o atentado revelaram, no entanto, que o autor do crime, Taleb al Abdulmohsen, um psiquiatra saudita de 50 anos, demonstrava simpatia pelas políticas anti-imigração da AfD. Embora não fosse membro oficial do partido, suas declarações públicas e atividades na internet indicavam alinhamento com as ideias de Alice Weidel.

Residente na Alemanha desde 2006, Al Abdulmohsen era conhecido por suas posições islamofóbicas e críticas ao Islã, tendo se declarado ex-muçulmano.

Cinicamente, a AfD negou qualquer vínculo com o autor do atentado e repudiou suas ações. No entanto, o incidente gerou debates sobre a retórica do partido e seu potencial impacto na radicalização de indivíduos com visões extremistas.

CDU em um dilema histórico

Enquanto a tragédia em Magdeburgo acendeu o alerta sobre o crescimento da extrema direita na Alemanha, o comportamento do União Democrata-Cristã (CDU) revelou divisões internas do partido favorito para vencer as eleições de fevereiro e um caminho para um possível enfraquecimento do “cordão sanitário” contra a AfD.

Friedrich Merz, líder da CDU, alimentou a polêmica ao defender mudanças legislativas para endurecer o combate a crimes como o ocorrido em Magdeburgo. Em declaração publicada nas redes sociais, Merz afirmou que “as imagens de Magdeburgo não saem da minha cabeça” e defendeu mudanças legislativas para lidar com “indivíduos considerados perigosos”.

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A imprensa alemã interpreta a fala como um aceno ao eleitorado da AfD, especialmente em meio à campanha para as eleições parlamentares de fevereiro.

O partido da ex-chanceler Angela Merkel é o líder nas pesquisas de intenção de voto e vem já há algum tempo discutindo a aproximação com a AfD.

Merkel faz parte da ala que rejeita qualquer diálogo com a extrema direita, mas tem visto correligionários abraçarem o discurso de que as forças políticas institucionalizadas precisam ter relações normalizadas com a AfD, uma vez que representam uma grande fatia do eleitorado alemão. Essa divisão ameaça corroer a barreira histórica que tem isolado o partido de extrema direita do mainstream político alemão.

Pesquisas indicam crescimento da AfD, ainda que insuficiente

A Alemanha atravessa um crise política depois que a coalizão do chanceler social-democrata Olaf Scholz (SPD, na sigla em alemão) ruiu e o mandatário perdeu o voto de confiança na Bundestag, a Câmara baixa do país.

O presidente da Alemanha, Frank-Walter Steinmeier, dissolveu na última sexta o Bundestag, e convocou eleições antecipadas para 23 de fevereiro de 2025.

As pesquisas indicam que a oposição liderada por Friedrich Merz, da CDU, está à frente, enquanto o Partido Social Democrata (SPD), de Scholz, ocupa o terceiro lugar, atrás da AfD.Segundo um agregador de pesquisa do Politico, a CDU pontua com 30%, a AfD com 19% e o SPD com 17%.

A luta pela democracia

Enquanto partidos democráticos, como o SPD e os Verdes, reforçam o compromisso de manter a AfD isolada, o cenário atual expõe os desafios de uma democracia pressionada por tensões sociais, econômicas e ideológicas. Em resposta, a sociedade alemã busca articular uma resistência ampla, desde protestos nas ruas até debates no parlamento, para preservar os valores democráticos conquistados após a Segunda Guerra Mundial.

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O atentado em Magdeburgo e seus desdobramentos são um lembrete de que a luta contra o extremismo não é apenas uma questão histórica, mas uma batalha constante no presente. A Alemanha, mais uma vez, está diante de uma escolha: ceder ao medo ou reafirmar o compromisso com a democracia.

E existem bons sinais disso: um dia após o atentado em Magdeburgo, em uma partida de futebol jogada entre Rot-Weiss Essen e Stuttgart II, válido pela terceira divisão nacional, uma reação neonazista durante o minuto de silêncio em homenagem as vítimas foi abruptamente combatida.

Uma imensa parte da torcida irrompeu com gritos “Nazistas fora!” e transformaram o estádio em um espaço de repúdio à extrema direita após um torcedor gritar “Alemanha para os Alemães”, em claro lema nazista. O torcedor foi expulso e banido para sempre dos jogos do Rot-Weiss. O clube emitiu nota repudiando a atitude do neonazista.

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