UE acelera debate sobre acordo com Mercosul após tarifaço de Trump
Em reação às tarifas dos EUA, bloco europeu cogita reforçar parceria com países do Sul. França admite pressão, mas mantém reservas quanto à ratificação
Publicado 03/04/2025 15:39 | Editado 04/04/2025 09:59

A União Europeia iniciou tratativas para acelerar o acordo comercial com o Mercosul após a imposição de tarifas generalizadas pelos Estados Unidos. A medida foi apontada por autoridades do bloco como fator de pressão adicional para que a Europa busque novos parceiros estratégicos em meio ao agravamento das tensões comerciais globais.
O presidente dos EUA, Donald Trump, anunciou na quarta-feira (2) a aplicação de tarifas de até 25% sobre produtos europeus, incluindo automóveis, e uma sobretaxa linear de 20% sobre exportações do bloco.
Em reação, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, afirmou que “as consequências serão terríveis para milhões de pessoas em todo o mundo”, incluindo países vulneráveis que agora enfrentam tarifas mais altas.
“Isso será sentido imediatamente. Milhões de cidadãos enfrentarão contas de supermercado mais altas. Os medicamentos custarão mais caro, assim como o transporte. A inflação aumentará”, declarou.
Von der Leyen anunciou que Bruxelas finaliza um primeiro pacote de contramedidas e que outras estão em estudo. Uma das frentes citadas por autoridades europeias é a agilização dos acordos comerciais pendentes, incluindo o tratado com o Mercosul, assinado em dezembro de 2024 e ainda não ratificado.
O presidente do Conselho Europeu, António Costa, defendeu a aceleração de tratados já firmados. A reação também partiu de representantes nacionais. O ministro da Economia da França, Eric Lombard, afirmou que as tarifas “aceleram as discussões” sobre o acordo com o Mercosul, embora tenha reiterado que Paris ainda se opõe à ratificação nas condições atuais.
“Devemos encontrar as vias e formas de um acordo. Nos falta, para concluí-lo, um certo número de ajustes, que envolvem em especial as questões de pegada ecológica, na área industrial, e alguns assuntos relativos à agricultura”, declarou.
Ao lado de Lombard, durante visita oficial a Paris, na última terça-feira (1), o ministro da Fazenda do Brasil, Fernando Haddad, reforçou o interesse brasileiro no tratado.
“O Brasil é entusiasta do acordo e o presidente Lula liderou pessoalmente as negociações”, afirmou. Para Haddad, a parceria vai além da economia e representa “uma resposta política importante, na direção correta de impedir que o mundo volte a uma situação bipolar que, a essa altura, não interessa a ninguém”.
O clima de urgência também alcançou setores produtivos. O consórcio de produtores de vinhos de Chianti, na Itália, defendeu publicamente o avanço do acordo com o Mercosul após a sobretaxa de 20% imposta pelos EUA aos produtos europeus.
“É o momento de reforçar a nossa presença em novos mercados, a começar pela América do Sul”, disse o presidente da entidade, Giovanni Busi. A Confederação Italiana de Agricultores também recomendou o foco em mercados emergentes, como Mercosul, Índia e Norte da África, em uma lógica de diversificação.
Apesar das pressões, a França mantém posição cautelosa. Lombard afirmou que “as condições hoje não estão postas” para a ratificação. O tema deve ser abordado durante a visita de Estado do presidente Lula à França, prevista para o início de junho.