Israel rompe cessar-fogo e mata mais de 100 palestinos
Netanyahu acusa Hamas de violar trégua e ordena “ataques poderosos” com aval dos EUA; grupo nega envolvimento e países árabes denunciam violação do acordo
Publicado 29/10/2025 11:46 | Editado 30/10/2025 11:45
Menos de três semanas após o início do cessar-fogo mediado pelos Estados Unidos, o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, rompeu a trégua e ordenou uma nova série de ataques aéreos contra a Faixa de Gaza, matando mais de 100 pessoas, entre elas 46 crianças e 20 mulheres, segundo o Ministério da Saúde do enclave.
Os bombardeios, lançados na noite de terça-feira (28), atingiram Khan Yunis, no sul, e a Cidade de Gaza, no norte, em uma das noites mais letais desde o início da trégua, em 10 de outubro. A Defesa Civil de Gaza confirmou que equipes de resgate recuperaram dezenas de corpos em meio a destroços.
Israel afirmou que a operação foi uma resposta à morte de um soldado em suposto ataque de militantes palestinos no sul da Faixa. Após os bombardeios, o Exército declarou que “retomaria a aplicação do cessar-fogo” e que reagiria “com firmeza a qualquer violação”.
Na prática, o governo rompeu a trégua e, no dia seguinte, voltou a afirmar que “mantém o cessar-fogo”. O episódio foi descrito por diplomatas internacionais como o colapso efetivo do acordo mediado por Washington, Egito e Catar.
O Hamas negou qualquer envolvimento no ataque relatado por Israel e afirmou que “permanece comprometido com o cessar-fogo”. “Negamos responsabilidade sobre o episódio e reafirmamos nosso compromisso com o acordo”, declarou o grupo em comunicado divulgado nesta terça-feira (28).
A ação em Rafah, segundo as forças israelenses, envolveu tiros de atiradores de elite e um projétil antitanque contra soldados que atuavam em “operações de engenharia” dentro da chamada “linha amarela”, zona de segurança definida pelo acordo.
O Hamas classificou a justificativa como “falsa e fabricada” e acusou o premiê Netanyahu de “buscar desculpas para escapar de suas obrigações políticas”.
“O governo israelense tenta manipular a verdade e encontrar pretextos para retomar os massacres”, disse um porta-voz do grupo.
A ofensiva israelense também foi precedida por acusações sobre a entrega de corpos de reféns. O gabinete de Netanyahu afirmou que o Hamas devolveu restos mortais de Ofir Tzarfati, um dos sequestrados durante o festival Nova, cujo corpo já havia sido parcialmente recuperado pelo Exército. O primeiro-ministro acusou a facção de “forjar a recuperação dos restos” e anunciou que “responderia com força”.
“O Hamas violou os termos do cessar-fogo ao não devolver todos os corpos dos reféns israelenses”, declarou Netanyahu.
O grupo palestino rebateu, afirmando que parte dos corpos ainda está sob escombros e que o governo israelense “usa o sofrimento das famílias para justificar novos bombardeios”.
Países árabes condenam o rompimento da trégua
O Egito, o Catar, a Turquia, a Arábia Saudita e a Jordânia condenaram as ações israelenses e pediram respeito aos civis e manutenção da trégua.
O ministério das Relações Exteriores do Egito classificou os bombardeios como “grave violação do acordo” e cobrou investigações imediatas. O Catar, que participou das mediações, declarou que “não há justificativa plausível para retomar ataques em meio a negociações”.
A Arábia Saudita expressou “profunda preocupação com as mortes de civis e o descumprimento do cessar-fogo”, enquanto a Turquia afirmou que “as ações de Israel comprometem qualquer perspectiva de paz”.
Apesar das reações regionais, Netanyahu manteve o tom de confronto. “Ordenei ataques poderosos contra alvos do Hamas em Gaza”, disse o premiê, em comunicado divulgado por seu gabinete.
EUA legitimam ofensiva israelense
Enquanto as bombas caíam sobre Gaza, Washington adotou o papel de avalista. O secretário de Estado, Marco Rubio, afirmou que os Estados Unidos “não veem violação do cessar-fogo” nas ações israelenses.
“Israel não abriu mão do direito à autodefesa. Eles têm o direito de agir se houver uma ameaça iminente, e todos os mediadores concordam com isso”, declarou Rubio a bordo do Air Force One.
O presidente Donald Trump, em viagem pela Ásia, reforçou a justificativa. “Eles mataram um soldado israelense, então os israelenses revidaram — e devem revidar. Nada vai comprometer o cessar-fogo”. disse.
Já o vice-presidente J.D. Vance afirmou que “o cessar-fogo está de pé” e que “pequenos confrontos podem acontecer”, acrescentando que o “acordo de paz do presidente vai resistir”.
As declarações foram interpretadas por observadores diplomáticos como um endosso explícito à ofensiva, conferindo legitimidade política às ações militares e transformando a trégua em instrumento de controle estratégico, não de proteção humanitária.
Crise humanitária se agrava com ataques e bloqueios
Os ataques aéreos desta semana agravaram a situação humanitária em Gaza, que já sofre com o bloqueio total imposto por Israel desde 2023. Segundo a Defesa Civil de Gaza, tendas de deslocados, residências e hospitais foram atingidos. O porta-voz Mahmoud Bassal afirmou que a situação é “catastrófica e aterrorizante”.
“Os ataques atingiram tendas de deslocados e áreas próximas a hospitais. É uma violação clara e flagrante do cessar-fogo”, disse Bassal.
Imagens verificadas pela Reuters mostram corpos de mulheres e crianças sendo transportados em funerais improvisados. Hospitais relatam colapso na capacidade de atendimento, falta de energia e escassez crítica de medicamentos.
Fontes diplomáticas ouvidas pela Reuters e pela Al Jazeera confirmam que Israel passou a controlar a entrada de equipes humanitárias e de imprensa em Gaza, exigindo aprovação prévia de nomes e nacionalidades. A medida restringe a atuação de organizações internacionais e impede a documentação independente dos ataques.
Desde o início da guerra, em 7 de outubro de 2023, mais de 68 mil palestinos foram mortos, segundo dados do Ministério da Saúde local. Entre eles, milhares continuam sob escombros.