Trump ameaça autorizar ataques no México a pretexto de combater tráfico

Declaração ocorre em meio à maior mobilização militar dos EUA no Caribe em décadas, com 22 ataques a embarcações e tensões crescentes com México, Colômbia e Venezuela

Foto: Reprodução

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou nesta segunda-feira (17) que estaria “OK” em autorizar ataques militares em território mexicano para conter o narcotráfico, numa declaração que aprofunda a tensão diplomática com o governo de Claudia Sheinbaum e ocorre em paralelo à maior mobilização militar norte-americana no Caribe em mais de meio século. 

O republicano disse que os EUA farão “o que for preciso para parar drogas”, em mais uma demonstração de terror psicológico na região.

Em conversa com repórteres no Salão Oval, Trump abriu a possibilidade de uma intervenção direta ao ser questionado se considerava ataques em solo mexicano ou o envio de tropas ao país. 

“Lançar ataques no México para parar drogas? OK para mim, o que quer que tenhamos de fazer para parar drogas. Olhei para a Cidade do México no fim de semana, há alguns grandes problemas por lá”, afirmou. 

O presidente também se recusou a responder se só atacaria com o aval do governo mexicano, dizendo que “não vai responder a essa pergunta” e que já vem conversando com o país, que “sabe qual é sua posição”.

Trump disse ainda que os EUA conhecem “todas as rotas” e “os endereços de cada chefão das drogas”, chamando a situação de “uma guerra”. 

Em outro momento, ampliou o escopo da ameaça ao mencionar que ficaria “orgulhoso” de desmantelar laboratórios de cocaína na Colômbia. “A Colômbia tem fábricas de cocaína. Eu derrubaria essas fábricas? Teria orgulho de fazer isso pessoalmente”, afirmou. A embaixada colombiana em Washington não comentou as declarações.

As falas representam uma nova etapa da campanha militar que Washington intensificou nos últimos meses. 

Dados veiculados pela imprensa dos EUA indicam que as Forças Armadas norte-americanas já realizaram 22 ataques com mísseis contra embarcações que, segundo o Pentágono, seriam usadas no transporte de drogas a partir da Venezuela, resultando em mais de 80 mortos — entre eles cidadãos colombianos.

Desde a última quinta-feira (13), a operação “Lança do Sul” deslocou entre 12 mil e 15 mil militares para o Caribe e colocou em ação o porta-aviões Gerald Ford, o maior e mais moderno da frota. 

Trata-se da maior presença militar dos EUA na região em 35 a 60 anos, a depender do levantamento considerado.

A ofensiva reacendeu especulações sobre os objetivos reais da operação, especialmente após o Departamento de Estado designar o cartel venezuelano dos Soles — que Washington afirma ser comandado por Nicolás Maduro — como organização terrorista estrangeira, o que abre caminho legal para ataques em solo venezuelano. 

Em resposta, o presidente da Venezuela afirmou que busca “paz” e chegou a cantar trechos de Imagine, de John Lennon, durante um discurso neste domingo (16).

No México, as declarações de Trump ampliaram o desconforto com a nova política de segurança dos EUA. A presidente Claudia Sheinbaum reiterou na semana passada que não permitirá que tropas norte-americanas atuem em seu território. 

“Jamais colocaremos nossa soberania em risco, jamais colocaremos a independência do México em risco. Nunca permitiremos que o Exército dos EUA coloque os pés em território mexicano”, afirmou.

O governo mexicano também já havia rejeitado reportagens da NBC News que apontavam o início de um planejamento de Washington para enviar tropas e agentes de inteligência ao país com o objetivo de atacar cartéis.

A tensão regional, no entanto, ganhou uma inflexão inesperada. No domingo, Trump disse que considera abrir negociações com Nicolás Maduro, mesmo após meses de escalada militar e novos ataques no Caribe. 

“Podemos ter algumas discussões com Maduro e veremos como isso vai acabar”, declarou o presidente a repórteres, antes de retornar a Washington. Questionado sobre o que significaria essa disposição para conversar, Trump disse não saber, mas acrescentou que “converso com qualquer um”.

Apesar da abertura retórica, o republicano reafirmou que não descarta nenhuma opção sobre uma eventual intervenção militar na Venezuela. “Eu não descarto nada. Apenas precisamos cuidar da Venezuela”, disse. 

Com a concentração de forças navais no Caribe e as ameaças simultâneas ao México, à Colômbia e à Venezuela, cresce o receio de governos latino-americanos de que Washington abra uma nova fase de intervenções unilaterais na região sob o pretexto do combate ao narcotráfico. 

Para o México, o debate tem peso particular, porque além da proximidade geográfica o país carrega a memória de invasões norte-americanas e mantém uma tradição diplomática baseada na defesa da soberania e da não intervenção — princípios reiterados por Sheinbaum diante da pressão de Washington.

Autor