Israel bate recorde com acordos bilionários sobre os escombros de Gaza
Enquanto lucra bilhões com gás, tecnologia e armas “testadas em combate” na Palestina, o Estado israelense avança no genocídio em Gaza — com o silêncio cúmplice de parceiros comerciais como Alemanha, EUA e Egito
Publicado 15/01/2026 08:33 | Editado 15/01/2026 16:38
Em dezembro de 2025, enquanto os bombardeios em Gaza não davam trégua e mais de 68 mil palestinos já haviam sido mortos, o governo de Benjamin Netanyahu assinou o maior contrato da história de Israel: US$ 35 bilhões para exportar gás do campo de Leviatã ao Egito até 2040. O anúncio foi celebrado como um marco de prosperidade. Mas por trás dos números, há uma realidade brutal: esse gás é extraído de um mar onde pescadores palestinos são impedidos de navegar, e seu lucro sustenta uma máquina de guerra que transforma hospitais, escolas e campos de refugiados em alvos.
O contrato prevê o fornecimento de até US$ 35 bilhões em gás natural ao Egito até 2040, a partir do campo offshore de Leviatã, no Mediterrâneo. O acordo aprofunda a dependência energética egípcia em relação a Israel num momento de crise no setor e consolida Israel como ator central no mercado energético regional.
Reportagem da Aljazira fez um amplo levantamento sobre os acordos comerciais fechados entre Israel e seus parceiros econômicos, apesar da indignação internacional com o genocídio. Além do Egito, Alemanha e EUA se consolidaram em 2025 como principais parceiros do país, com projetos estruturais e industriais de impacto global.
O Egito, apesar de sua população majoritariamente solidária à causa palestina, insiste que o pacto é “puramente comercial”, sem “dimensões políticas”. Trata-se de uma farsa diplomática. Ao consolidar sua dependência energética de Israel em pleno genocídio, o Cairo não apenas normaliza a ocupação, mas financia indiretamente a continuidade da violência. Não há neutralidade comercial diante do extermínio. A transação é vista como um reforço tácito da normalização das relações entre os dois países desde o tratado de paz de 1979 — agora ancorada em interesses econômicos estratégicos.
Dados de comércio entre 2019 e 2023 mostram que mais da metade das trocas comerciais de Israel se concentra em apenas dez países. Os Estados Unidos lideram, com quase 19% do comércio total, seguidos por China (11,6%), Alemanha (5,5%) e Turquia (4,8%), Suíça e
Holanda (3,1% cada). Essa concentração ajuda a explicar a recorrência desses países nos maiores acordos assinados em 2025.
Tecnologia do apartheid: startups que lucram com a vigilância e a destruição
Israel também bateu recordes no setor tecnológico em 2025 — mas poucos questionam de onde vem essa “inovação”. Israel registrou em 2025 uma onda de aquisições e investimentos no setor tecnológico. A Alphabet, controladora do Google, anunciou a compra da empresa israelense de cibersegurança Wiz por US$ 32 bilhões, uma das maiores transações da história do país, ainda sob análise da Comissão Europeia.
A Wiz desenvolve sistemas usados em operações de espionagem contra ativistas palestinos. A Nvidia, ao investir US$ 1,5 bilhão num centro de IA próximo a Haifa, instala sua infraestrutura em território ocupado, beneficiando-se de incentivos fiscais pagos com o sangue de civis bombardeados.
O investimento da Nvidia vai construir, ao sul de Haifa, o maior centro de dados de inteligência artificial da empresa fora dos Estados Unidos. O complexo deverá abrigar os processadores de IA Blackwell e reforça o papel de Israel como polo global de tecnologia avançada.
Outros meganegócios incluem a compra da CyberArk pela Palo Alto Networks por US$ 25 bilhões e a aquisição da fintech Melio pela neozelandesa Xero por US$ 3 bilhões — esta última, a maior compra internacional já feita pela Nova Zelândia.
Essas empresas não operam em vácuo. Elas fazem parte de um ecossistema estatal-militar-industrial que transforma a opressão em produto exportável. A “nação startup” é, na verdade, uma “nação de ocupação”, cuja engenhosidade é posta a serviço do controle, da segregação e da eliminação sistemática de um povo inteiro.
Armas “testadas em combate”: o comércio da carnificina
Nada simboliza melhor a banalização do horror do que a expressão “testadas em combate” — eufemismo usado por empresas israelenses para vender drones, sistemas de vigilância e mísseis interceptores a governos ao redor do mundo. Em 2025, o maior contrato militar da história de Israel foi fechado com a Alemanha: US$ 6,5 bilhões pelo sistema Arrow 3.
Berlim, que se apresenta como guardiã dos direitos humanos na Europa, financia assim a mesma indústria que fornece as armas usadas para matar crianças em Khan Younis e Rafah. Desenvolvido em parceria com os EUA, o sistema é capaz de interceptar mísseis balísticos de longo alcance e representa um marco na cooperação de defesa entre Berlim e Tel Aviv.
Empresas como Elbit Systems e Rafael têm lucrado com a demanda global por equipamentos de vigilância, drones e sistemas de combate urbano — tecnologias frequentemente descritas como “testadas em combate” na Faixa de Gaza e em operações regionais. Essa reputação prática, aliada à inovação técnica, tornou Israel o quarto maior exportador de armas do mundo.
Essas vendas reforçam o peso da indústria bélica na economia israelense, mesmo sob críticas internacionais ao uso desses sistemas em conflitos recentes. Enquanto isso, a indústria bélica israelense floresce: cada morte em Gaza é um dado para um novo algoritmo, um novo protótipo, um novo contrato.
Importações, exportações e setores estratégicos
Os números impressionam: US$ 91,5 bilhões em importações, US$ 61,7 bilhões em exportações, acordos bilionários com Google, Nvidia, Palo Alto Networks. Mas esses indicadores escondem uma verdade incômoda: a economia israelense contemporânea é profundamente dependente da manutenção do conflito. A ocupação não é um “problema secundário” — é o próprio motor do capitalismo de fronteira que Israel construiu nas últimas décadas.
Máquinas, eletrônicos, veículos e produtos químicos dominam as importações, enquanto eletrônicos, farmacêuticos e equipamentos médicos lideram as exportações. Diamantes lapidados em Tel Aviv brilham nos mercados globais, enquanto em Gaza falta água potável, eletricidade e oxigênio nos hospitais de campanha.
A economia exportadora é impulsionada por setores estratégicos como eletrônica avançada, indústria farmacêutica e o comércio global de diamantes, no qual Israel permanece como um dos principais polos mundiais. Em 2024, Israel exportou US$ 61,7 bilhões em bens eletrônicos, produtos farmacêuticos (liderados pela Teva Pharmaceuticals), diamantes lapidados e equipamentos médicos. As importações somaram US$ 91,5 bilhões, majoritariamente em máquinas, veículos e petróleo.
Apesar do déficit comercial, o país mantém forte atratividade para investimentos estrangeiros, graças a seu ecossistema de inovação, mão de obra altamente qualificada e infraestrutura digital avançada.
Silêncio: o preço da cumplicidade global

O genocídio em Gaza não é apenas obra de Israel. É possível graças à conivência ativa de Estados que compram seu gás, financiam sua tecnologia e importam suas armas. A União Europeia, que ainda debate a ratificação do acordo UE-Mercosul por “preocupações ambientais”, fecha os olhos para os crimes de guerra cometidos por um de seus principais parceiros comerciais.
Enquanto isso, a comunidade internacional prefere falar de “equilíbrio” e “diálogo”, como se fosse possível negociar com quem está sendo apagado do mapa. Não há neutralidade. Quem negocia com Israel em 2025 — especialmente em setores estratégicos — torna-se parte da arquitetura do genocídio.