A ofensiva da extrema direita trumpista e o ataque à soberania na América Latina

Guerra no Irã distrai o avanço de sanções e intervenções na região sob a nova doutrina de submissão de Washington e o cerco aos recursos naturais

Foto: arquivo/Granma

Enquanto o foco global se volta para a escalada bélica dos Estados Unidos e Israel contra o Irã, a Casa Branca de Donald Trump intensifica uma ofensiva de proporções históricas na América Latina. A estratégia busca perpetuar a hegemonia norte-americana frente à multipolaridade, utilizando o conflito no Oriente Médio como uma “cortina de fumaça” para operações de limpeza ideológica e controle de recursos naturais no hemisfério ocidental.

O sequestro de Maduro e o cerco energético

O cenário de hostilidade atingiu seu ápice em 3 de janeiro de 2026, com o sequestro de Nicolás Maduro e de sua esposa, Cilia Flores, na Venezuela. O episódio não é isolado, mas parte de uma engrenagem que visa o controle absoluto das reservas de petróleo mundiais. Jorge Oliveira Rodrigues, pesquisador do Instituto Tricontinental e do Gedes, alerta que o imperialismo utiliza meios variados para minar as soberanias. “O ponto de convergência é o governo Trump; tanto o fascismo quanto o imperialismo se sustentam a partir da expansão e da exploração de regiões periféricas”, analisa.

Cuba é o exemplo mais cruel da ação de Trump. Em 29 de janeiro de 2026, o presidente norte-americano assinou uma ordem executiva declarando emergência nacional, autorizando tarifas punitivas contra qualquer país que forneça óleo a Havana. O Ministério das Relações Exteriores de Cuba denunciou a medida como uma violação flagrante do direito internacional, que já mergulhou a ilha em apagões de até 20 horas diárias, gerando uma crise humanitária sem precedentes, com grave escassez de alimentos e medicamentos.

Equador e o alinhamento de submissão

A política de submissão manifestou-se de forma drástica no Equador. Na última quarta-feira, (4), o governo de Daniel Noboa declarou todos os diplomatas cubanos persona non grata, expulsando-os sem justificativa formal. Em nota, o Ministério das Relações Exteriores equatoriano selou o rompimento de laços históricos, uma decisão que analistas veem como um gesto de subserviência para facilitar exercícios militares como o UNITAS e garantir favores políticos de Washington.

Impactos econômicos e o neoliberalismo autoritário

A guerra no Irã já impacta severamente a economia regional. O preço do barril de petróleo subiu mais de 10%, pressionando importadores latino-americanos com inflação e desvalorização cambial. No Brasil, a petrobras ainda resiste à volatilidade dos preços, mas as pressões para acompanhar o preço internacional só aumentam. Além disso, parte das tarifas de 50% impostas por Trump ainda vigora, funcionando como uma ferramenta de coação política. 

Articulado com lideranças locais da extrema-direita, o modelo autoritário de Trump se espalha. Na Argentina, Javier Milei promove uma desregulamentação selvagem; no Peru, o território torna-se base para exercícios militares americanos; na Bolívia de Rodrigo Paz, o lítio foi entregue a Washington, rompendo com a China; e o Chile de José Antonio Kast ascende com a promessa de um “governo de emergência” focado na repressão.

A soberania popular como antídoto

A frente ampla para isolar a extrema direita é resolução política do PCdoB para enfrentar as eleições deste ano, visando reconduzir Lula à presidência da República pela quarta vez.  

Para Jorge Oliveira Rodrigues, este é um dos momentos em se deve qualificar a soberania, que “não é o discurso leviano dos patriotas subservientes. Sem os nossos vizinhos, não temos condição de fazer frente às violências do império. A soberania popular é o único freio real ao fascismo ascendente, capaz de responder às vulnerabilidades sociais, econômicas e climáticas”, conclui.