Israel intercepta flotilha de Gaza e sequestra três brasileiras

Vídeo de ministro de ultradireita israelense Itamar Ben Gvir humilhando ativistas presos provocaram reação da Itália. Itamaraty também divulga nota

Militares israelenses abordam embarcação da flotilha Global Sumud em águas internacionais durante operação que terminou com a detenção de centenas de ativistas pró-Palestina rumo a Gaza. Foto: Reprodução

As brasileiras Ariadne Telles, Thainara Rogério e Beatriz Moreira de Oliveira foram detidas e sequestradas nesta segunda-feira (18) por militares israelenses após a interceptação da flotilha humanitária Global Sumud, que seguia em direção à Faixa de Gaza com dezenas de embarcações e centenas de ativistas internacionais. 

A operação ocorreu em águas internacionais e provocou reações diplomáticas de diversos países, além de críticas após a divulgação de vídeos mostrando o ministro supremacista da Segurança Nacional de Israel, Itamar Ben-Gvir, humilhando os presos da missão.

Segundo os organizadores da Global Sumud Flotilla, ao menos 430 ativistas de 44 países foram levados por Israel para seu território após a interceptação dos barcos. 

A coalizão afirma que a missão tinha como objetivo romper o bloqueio naval imposto à Gaza desde 2007 e abrir um corredor humanitário para entrega de alimentos, medicamentos e suprimentos básicos à população palestina.

Entre os brasileiros detidos estão Ariadne Telles, advogada popular ligada à Associação Brasileira dos Advogados do Povo Gabriel Pimenta (Abrapo) e coordenadora da Global Sumud Brasil; Thainara Rogério, que também possui cidadania espanhola; e Beatriz Moreira de Oliveira, militante do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB). 

Outra fonte ligada à missão cita também a detenção de um médico pediatra brasileiro identificado apenas como Cássio.

A Global Sumud afirmou que os barcos foram abordados por navios militares israelenses durante a madrugada de segunda-feira, em uma operação descrita pelo movimento como “ilegal e violenta”. 

Em nota, os organizadores disseram ter “sérias e imediatas preocupações” com a integridade física dos detidos, lembrando denúncias anteriores de tortura, violência física e abuso psicológico contra ativistas presos em missões anteriores.

Vídeo de Ben Gvir amplia crise diplomática

A repercussão internacional aumentou após a divulgação, pelo próprio Ben Gvir, de vídeos mostrando ativistas ajoelhados, com as mãos amarradas, enquanto eram provocados pelo ministro israelense no porto de Ashdod. 

As imagens geraram forte reação do governo italiano, que classificou o episódio como “inaceitável”.

A primeira-ministra da Itália, Giorgia Meloni, e o chanceler Antonio Tajani anunciaram a convocação do embaixador israelense para exigir explicações formais sobre o tratamento dado aos ativistas, entre eles cidadãos italianos.

“É inaceitável que esses manifestantes sejam submetidos a um tratamento que viola sua dignidade humana”, afirmaram Meloni e Tajani em comunicado conjunto. O governo italiano também exigiu um pedido formal de desculpas de Israel.

O episódio gerou ainda divisões dentro do próprio governo israelense. O ministro das Relações Exteriores de Israel, Gideon Sa’ar, criticou publicamente Ben Gvir após a divulgação das imagens. 

Em publicação nas redes sociais, Sa’ar afirmou que o colega havia causado “danos conscientes ao Estado de Israel” e classificou o vídeo como um “espetáculo vergonhoso”.

Itamaraty cobra libertação e cita direito internacional

O governo brasileiro divulgou uma nota conjunta com Bangladesh, Colômbia, Espanha, Indonésia, Jordânia, Líbia, Maldivas, Paquistão e Turquia condenando a interceptação israelense e classificando a detenção dos ativistas como arbitrária.

Os países afirmaram que os ataques contra missões humanitárias pacíficas representam violações do direito internacional e do direito internacional humanitário. O texto também cobra a libertação imediata dos participantes e pede proteção internacional às missões civis que tentam levar ajuda humanitária à Faixa de Gaza.

A Irlanda também reagiu ao episódio após a detenção de Margaret Connolly, irmã da presidenta irlandesa Catherine Connolly. O ministério das Relações Exteriores irlandês informou que está atuando junto à embaixada em Israel para exigir a libertação dos cidadãos envolvidos.

Greve de fome e denúncias de abuso

A rede Al Jazeera informou que ao menos 87 ativistas iniciaram greve de fome em protesto contra a detenção. 

Segundo os organizadores da flotilha, os participantes protestam contra o que chamam de “abdução ilegal” em águas internacionais e manifestam solidariedade aos mais de 9,5 mil palestinos presos em cárceres israelenses.

Os organizadores também acusam as forças israelenses de terem usado balas de borracha durante as abordagens aos barcos. De forma cíncica, o ministério das Relações Exteriores de Israel, por sua vez, descreveu a flotilha como uma “ação publicitária a serviço do Hamas”.

O governo dos Estados Unidos anunciou sanções contra quatro ativistas ligados à organização da flotilha, acusando-os, sem apresentar provas públicas, de atuarem em apoio ao Hamas.

Missões anteriores já haviam denunciado tortura

A nova interceptação ocorre poucas semanas após outro episódio envolvendo a mesma coalizão. 

No fim de abril, o ativista brasileiro Thiago Ávila foi preso por forças israelenses durante uma missão semelhante em águas internacionais próximas à ilha grega de Creta.

Após retornar ao Brasil, Ávila denunciou agressões físicas e psicológicas durante a custódia israelense. Segundo relatos divulgados por sua defesa e por organizações ligadas à flotilha, ele teria sofrido espancamentos, isolamento, privação de assistência médica e ameaças envolvendo familiares.

A Global Sumud afirma que as sucessivas interceptações demonstram a continuidade da política israelense de impedir missões civis que tentam romper o bloqueio imposto à Faixa de Gaza, território que enfrenta colapso humanitário após quase dois anos de ofensiva militar israelense.c

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