Colômbia decide entre projeto popular e punitivismo fascista
Segundo turno põe Iván Cepeda, símbolo da luta por direitos humanos, diante de Abelardo de la Espriella, advogado de extrema direita, expoente do punitivismo e candidato de Uribe
Publicado 03/06/2026 11:06 | Editado 03/06/2026 11:17
A eleição presidencial da Colômbia entrou em sua fase decisiva com a definição de um segundo turno que contrapõe dois projetos políticos radicalmente diferentes.
O senador Iván Cepeda, do Pacto Histórico, tenta prolongar o ciclo progressista iniciado por Gustavo Petro em 2022, defendendo reformas sociais, fortalecimento do papel do Estado, ampliação da participação popular e continuidade das negociações de paz com grupos armados.
Já o advogado Abelardo de la Espriella representa uma extrema direita ultraconservadora, punitivista e fortemente inspirada em lideranças como Donald Trump, Nayib Bukele e Javier Milei, defendendo estados de exceção, endurecimento penal e forte concentração de poder presidencial.
O segundo turno será realizado em 21 de junho, após De la Espriella terminar a primeira rodada com 44% dos votos, contra 41% de Cepeda.
O resultado consolidou uma polarização entre o campo de esquerda ligado aos movimentos sociais e uma nova direita que combina discurso antipolítica, conservadorismo religioso e defesa de medidas autoritárias.
Iván Cepeda chega à disputa presidencial após décadas atuando em movimentos de direitos humanos, memória histórica e negociações de paz.
Filho do senador comunista Manuel Cepeda Vargas, assassinado em 1994 em um crime atribuído a paramilitares com participação de agentes do Estado, construiu sua trajetória política ligada à denúncia da violência política contra a esquerda colombiana.
Formado em filosofia na Bulgária e posteriormente especializado em Direito Internacional Humanitário na França, Cepeda se tornou uma das principais figuras da defesa das vítimas do conflito armado colombiano.
Atuou nos diálogos de paz com as Farc, participou de negociações com o ELN e se consolidou como um dos parlamentares mais identificados com a agenda de direitos humanos no país.
Sua projeção nacional cresceu especialmente após o longo embate judicial contra o ex-presidente Álvaro Uribe, líder máximo da extrema direita colombiana.
Cepeda foi vítima e testemunha no processo que resultou, em primeira instância, na condenação de Uribe por fraude processual e suborno de testemunhas. A decisão fortaleceu sua imagem entre setores progressistas e impulsionou pedidos para que assumisse a candidatura presidencial.
Politicamente, Cepeda representa uma continuidade moderada do governo Petro. Defende ampliação do papel do Estado na economia, reformas sociais, fortalecimento da participação popular e continuidade das negociações de paz.
Também apoia a convocação de uma Assembleia Constituinte, proposta defendida pelo atual governo e criticada pela oposição conservadora.
Embora adversários tentem apresentá-lo como figura “mais radical que Petro”, aliados o descrevem como um dirigente menos confrontativo e mais conciliador. Sua campanha aposta em forte presença territorial, diálogo com movimentos populares e defesa das regiões historicamente marginalizadas da Colômbia.
A escolha da líder indígena Aida Quilcué como vice reforçou essa estratégia de aproximação com setores sociais historicamente excluídos do poder colombiano.
Do outro lado está Abelardo de la Espriella, advogado criminalista que transformou sua notoriedade midiática em candidatura presidencial.
Conhecido por defender empresários investigados, aliados do uribismo envolvidos em escândalos de paramilitarismo e personagens ligados a grandes casos de corrupção e fraudes financeiras, De la Espriella construiu uma imagem pública baseada na ostentação, no discurso agressivo e na defesa de soluções de força.
Sua campanha gira em torno da figura do “tigre”, símbolo que aparece em jingles, vídeos e atos políticos marcados por estética militarizada, forte apelo emocional e retórica antipolítica.
O candidato promete governar por meio de estados de exceção, reduzir drasticamente o funcionalismo público, ampliar o poder das forças de segurança e adotar políticas inspiradas no modelo repressivo de Bukele em El Salvador.
Ao longo da carreira, De la Espriella atuou na defesa de personagens centrais de alguns dos maiores escândalos políticos e financeiros da Colômbia e da Venezuela.
O candidato ganhou notoriedade ao defender empresários ligados ao escândalo DMG, pirâmide financeira que movimentou bilhões de pesos na Colômbia nos anos 2000 e terminou acusada de lavagem de dinheiro e captação ilegal de recursos de milhares de colombianos.
Outro eixo de sua trajetória foi a defesa de políticos envolvidos na chamada “parapolítica”, nome dado ao escândalo que revelou vínculos entre parlamentares, governadores e setores da direita colombiana com grupos paramilitares responsáveis por massacres, narcotráfico e perseguição a movimentos sociais e lideranças de esquerda.
Além disso, De la Espriella manteve proximidade política com setores do uribismo, corrente ligada ao ex-presidente Álvaro Uribe, marcada historicamente por denúncias de relações entre aliados regionais e estruturas paramilitares associadas ao narcotráfico durante o auge do conflito armado colombiano.
Também manteve relações próximas com setores paramilitares durante os anos das negociações entre o governo Álvaro Uribe e as Autodefesas Unidas da Colômbia.
Embora nunca tenha sido condenado judicialmente, sua trajetória é marcada por controvérsias envolvendo lobby, relações com empresários investigados e campanhas de intimidação judicial contra jornalistas.
A candidatura também se apoia fortemente em igrejas evangélicas e grupos conservadores.
De la Espriella passou a apresentar sua trajetória política como resultado de uma “conversão religiosa” e utiliza linguagem fortemente moralista em sua campanha. Defende o chamado valores tradicionais, combate ao que chama de “progressismo cultural” e uma política de segurança baseada em endurecimento penal e ampliação do poder presidencial.
Analistas colombianos observam que seu crescimento expressa não apenas o antipetrismo, mas também um desgaste profundo das instituições políticas tradicionais e uma demanda por soluções rápidas diante da violência e da insegurança.
Sua campanha mistura elementos do bolsonarismo, do trumpismo e do estilo confrontacional de Milei, combinando discurso antiestablishment com forte proximidade de setores empresariais e elites regionais.
A disputa entre Cepeda e De la Espriella sintetiza uma divisão política mais ampla que atravessa a América Latina.
De um lado, forças progressistas que tentam preservar agendas sociais e ampliar participação popular; do outro, o avanço de uma direita radical que aposta em militarização, conservadorismo moral e concentração de poder como resposta às crises sociais e econômicas da região.
O segundo turno colombiano será acompanhado de perto por governos da região e pelas principais potências internacionais. A eleição ocorre em meio ao avanço de forças conservadoras na América Latina, à pressão dos Estados Unidos sobre governos progressistas e à disputa regional em torno de temas como segurança pública, papel do Estado, integração latino-americana e soberania econômica.