Crise humanitária no Haiti é a mais grave do Ocidente, alerta ONU

Mais da metade da população haitiana depende de ajuda humanitária para sobreviver, enquanto a violência de gangues já deslocou 1,5 milhão de pessoas e paralisa serviços básicos

António Guterres visita base da força multinacional apoiada pela ONU durante passagem por Porto Príncipe; missão busca conter o avanço das gangues armadas no Haiti. Foto: Reprodução

O secretário-geral da ONU, António Guterres, afirmou que o Haiti enfrenta uma crise humanitária de grandes proporções impulsionada pela insegurança e pelo avanço das gangues armadas. 

Após visitar Porto Príncipe na terça-feira (16), Guterres descreveu a situação como uma das mais graves do mundo e alertou para as dificuldades crescentes de acesso às populações que necessitam de assistência.

Segundo o chefe das Nações Unidas, a violência compromete o funcionamento da economia, do sistema educacional e das operações de ajuda humanitária. 

Em publicação nas redes sociais, ele afirmou que presenciou uma crise em larga escala e destacou que o serviço aéreo humanitário operado pelo Programa Mundial de Alimentos (PMA) tornou-se uma “linha de vida” para diversas regiões do país.

A visita ocorreu em meio ao agravamento dos indicadores humanitários. 

Veículos da nova força multinacional posicionados em Porto Príncipe; ONU tenta reforçar a segurança diante da escalada da violência e do deslocamento em massa da população haitiana. Foto: ONU

Dados divulgados pela ONU apontam que mais de 2.300 pessoas foram mortas no Haiti desde o início de 2026, enquanto outras 100 foram sequestradas. O número de deslocados internos chegou a 1,5 milhão de pessoas — mais de um em cada dez habitantes do país.

Além disso, cerca de 5,7 milhões de haitianos, quase metade da população, enfrentam insegurança alimentar aguda.

A situação é particularmente grave na capital, Porto Príncipe, onde a expansão das gangues forçou centenas de milhares de pessoas a abandonar suas casas. Somente na região metropolitana, mais de 300 mil moradores foram deslocados pelos confrontos armados. 

Em maio, mais de 18 mil pessoas fugiram do bairro de Cité Soleil após uma nova onda de violência.

Adolescentes armados circulam por rua de Porto Príncipe em meio à escalada da violência que aprofundou a crise humanitária e o deslocamento de milhares de haitianos. Foto: Hector Adolfo Quintanar Perez/ZUMA Press

Durante a visita, Guterres percorreu áreas devastadas pelos confrontos e visitou um abrigo improvisado instalado em uma antiga escola. O local abriga mais de 1.200 pessoas que vivem em salas de aula adaptadas, onde famílias inteiras dividem espaços reduzidos e recebem apenas uma refeição por dia.

Moradores relataram falta de privacidade, insegurança e ausência de perspectivas de retorno às comunidades de origem. Muitos vivem em situação de deslocamento há anos. “Queremos voltar para casa”, disseram moradores ao secretário-geral durante a visita.

Gangues controlam grande parte da capital

A deterioração da segurança continua sendo o principal fator da crise. A coalizão Viv Ansanm controla aproximadamente 70% de Porto Príncipe, segundo estimativas citadas por organismos internacionais.

A ofensiva das gangues provocou o colapso de serviços públicos, o fechamento de escolas, a interrupção de atividades econômicas e o deslocamento em massa da população. 

Organizações humanitárias alertam ainda para o aumento da violência sexual, do recrutamento de menores e da dificuldade de acesso a alimentos, água e assistência médica.

ONU busca reforçar missão internacional

Guterres também visitou a sede da nova força multinacional de combate às gangues aprovada pelo Conselho de Segurança da ONU. O contingente substituirá a missão anteriormente liderada pelo Quênia, que enfrentou dificuldades devido à falta de recursos e efetivos.

Até o momento, tropas de Jamaica, Chade, El Salvador e Guatemala já foram enviadas para compor a nova força, que deverá iniciar operações nas próximas semanas em coordenação com a Polícia Nacional Haitiana.

Em carta divulgada antes da visita, a organização Human Rights Watch pediu que a ONU amplie seu envolvimento no país e adote medidas que enfrentem não apenas a violência armada, mas também suas causas estruturais. 

Segundo a entidade, uma resposta baseada exclusivamente em ações de segurança não será suficiente para conter a crise.

Atualmente, mais da metade da população haitiana depende de algum tipo de assistência humanitária para garantir alimentação, abrigo e acesso a serviços básicos, cenário que levou a ONU a classificar a situação do país como a mais grave crise humanitária do hemisfério ocidental.

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