Denúncias de violência digital contra mulheres quase triplicam em um ano
Casos registrados pelo Ligue 180 cresceram 188,6%; governo qualifica atendimento diante do avanço das agressões online
Publicado 23/06/2026 14:23 | Editado 23/06/2026 19:01
Em cinco meses, o Ligue 180 registrou 16.725 denúncias de violência digital contra mulheres. No mesmo período do ano passado, haviam sido 5.795. O crescimento de 188,6%, divulgado nesta segunda-feira (22) pelo Ministério das Mulheres, acompanha o avanço de práticas como perseguição virtual, ameaças, exposição de imagens íntimas sem consentimento, chantagens e ataques misóginos em plataformas digitais.
Os casos registrados em redes sociais, aplicativos de mensagens, jogos online e outros ambientes virtuais passaram da sétima para a quinta posição entre os contextos de violência denunciados ao serviço. Segundo o ministério, o aumento pode estar relacionado tanto à ampliação das ocorrências quanto à redução da subnotificação, impulsionada pela maior procura pelos canais de acolhimento.
Violência digital leva à reformulação do atendimento
A alta das denúncias levou o governo federal a atualizar os protocolos do Ligue 180 e capacitar cerca de 350 atendentes para o acolhimento de vítimas de violência digital. Além da formação das equipes, a central passou a adotar novos instrumentos de registro, com informações sobre as plataformas utilizadas, o emprego de inteligência artificial e as diferentes modalidades de agressão relatadas pelas mulheres.
As mudanças se inserem em um processo mais amplo de fortalecimento do serviço. Em fevereiro, o governo federal incorporou oficialmente a central ao Pacto Nacional Brasil contra o Feminicídio, ampliando suas atribuições e reforçando sua articulação com a rede de proteção às mulheres. A medida consolidou a central como um dos principais instrumentos de prevenção, acolhimento e encaminhamento de casos de violência de gênero.
A atualização ocorre em um momento de crescente preocupação com a circulação de conteúdos misóginos e com a atuação de grupos que utilizam as plataformas digitais para disseminar discursos de ódio, promover assédio e organizar ataques contra mulheres.
O avanço do ódio contra mulheres no ambiente digital
Durante participação no programa Entrelinhas Vermelhas, em março deste ano, a secretária nacional de Mulheres do PCdoB, Flávia Calé, chamou atenção para a presença desses grupos e para os impactos produzidos pela ausência de mecanismos mais eficazes de controle e responsabilização.
“Existe uma atuação subterrânea nessas redes: pedofilia organizada, comunidades redpill, propagação de ódio às mulheres”, afirmou. Na época, a dirigente defendeu a regulação das plataformas digitais como uma medida necessária para enfrentar a disseminação da violência e proteger a participação de mulheres nos espaços públicos e políticos. Para ela, trata-se de uma discussão “civilizatória”, diante da capacidade das redes de amplificar discursos extremistas e práticas de intimidação.
Os dados do Ministério das Mulheres indicam ainda que a violência digital reproduz desigualdades já observadas em outras formas de violência de gênero. Em 2025, quase metade das vítimas registradas pelo Ligue 180 eram mulheres negras, que representaram 48% dos casos. Mulheres brancas responderam por 34,2% das ocorrências.
A faixa etária de 35 a 44 anos concentrou o maior número de denúncias, com 21,6% do total. Considerando o grupo entre 25 e 49 anos, a participação chega a 50,8%. O levantamento também aponta que quase metade das vítimas não possui renda ou vive com até um salário mínimo.
Embora se manifeste por meios distintos, a violência digital mantém as mesmas estruturas de poder que sustentam a violência de gênero fora das telas. A diferença é que, nas plataformas digitais, a velocidade de circulação, o alcance dos conteúdos e a possibilidade de anonimato ampliam o potencial de dano e dificultam a interrupção das agressões.