Pequim amplia ofensiva contra Japão após declaração de Takaichi sobre Taiwan

China acusa Tóquio de romper compromissos diplomáticos, ameaça contramedidas e descarta encontro no G20 após fala da premiê japonesa sobre autodefesa coletiva

O embaixador da China na ONU, Fu Cong, discursa na Assembleia Geral durante o debate sobre a reforma do Conselho de Segurança, em Nova York. Foto: Xinhua

A China ampliou sua ofensiva diplomática contra o governo da primeira-ministra Sanae Takaichi após as declarações da líder japonesa sobre Taiwan, desencadeando uma crise que passou a envolver protestos formais, advertências públicas, pressão na ONU e orientações de viagem que afetam setores econômicos dos dois países. 

A crise entre as potências do sul asiático ganhou novo patamar depois que Pequim acusou o governo de Sanae Takaichi de violar compromissos de 1972 e ameaçar a soberania chinesa.

A ofensiva começou após Takaichi declarar, no plenário da Dieta, que uma eventual ação chinesa contra Taiwan poderia configurar “situação ameaçadora à sobrevivência” e autorizar o acionamento do direito de autodefesa coletiva do Japão. 

A expressão, usada pelos militares japoneses nas décadas de 1930 e 1940 para justificar agressões externas, foi retomada pela líder conservadora como hipótese para eventual envolvimento japonês no caso de um bloqueio marítimo imposto por Pequim.

A porta-voz do ministério das Relações Exteriores chinês, Mao Ning, classificou nesta quarta-feira (19) as falas como “declarações errôneas” que minaram “fundamentalmente a base política das relações China–Japão” e advertiu que, caso Tóquio não recue, Pequim adotará “contramedidas rígidas e resolutas”. 

Segundo ela, todas as consequências “serão arcadas pelo lado japonês”.

Em Tóquio, o embaixador Wu Jianghao apresentou na última sexta-feira (14) protesto formal ao vice-ministro Takehiro Funakoshi. 

O diplomata afirmou que Takaichi “ameaçou com força, clamou por guerra e cruzou a linha vermelha da China”, recusando-se a se retratar mesmo após protestos oficiais. Para Wu, a postura representa violação do direito internacional, do princípio de Uma Só China e dos compromissos assinados nos documentos bilaterais de 1972, 1978, 1998 e 2008.

China aciona Conselho de Segurança e invoca ordem do pós-guerra para isolar Tóquio

A crise ganhou dimensão multilateral nesta terça-feira (18) quando o embaixador chinês na ONU, Fu Cong, afirmou que o Japão está “totalmente desqualificado” para buscar assento permanente no Conselho de Segurança. 

Em discurso na Assembleia Geral, ele acusou Takaichi de “afrontar a justiça internacional”, “prejudicar a ordem do pós-guerra” e “trilhar novamente o caminho do militarismo”.

Fu lembrou que os quatro documentos políticos que regem as relações bilaterais — a Declaração Conjunta de 1972, o Tratado de Paz e Amizade de 1978, a Declaração de Cooperação de 1998 e o acordo estratégico de 2008 — formam um conjunto de obrigações vinculantes que o Japão estaria rompendo ao aventar intervenção militar em Taiwan. 

Para Pequim, a segurança na ilha é questão doméstica e núcleo dos interesses centrais chineses.

O jornal Diário do Povo, órgão oficial do Partido Comunista da China, reforçou esse enquadramento histórico nesta quarta-feira ao afirmar que Tóquio deve “enfrentar as consequências” de suas ações.

O texto lembrou o 80º aniversário da derrota do militarismo japonês na Segunda Guerra e retomou o tema das atrocidades cometidas durante o domínio colonial de Taiwan.

Segundo o editorial, reviver retóricas militaristas viola o compromisso assumido pelo Japão ao normalizar relações com Pequim.

Em paralelo, a mídia estatal passou a apresentar Takaichi como líder que “invoca demônios militaristas”, numa referência direta a simbologias do período imperial japonês.

Alertas de viagem, impacto econômico e movimentos militares elevam tensão imediata entre os países

A deterioração política rapidamente se converteu em efeitos econômicos e de segurança. A China desaconselhou viagens de seus cidadãos ao Japão, levando mais de dez companhias aéreas chinesas — incluindo a Sichuan Airlines — a oferecer reembolsos integrais até o fim do ano e a suspender rotas. 

No Japão, ações de empresas dependentes do turismo chinês recuaram, e setores já calculam os prejuízos ligados à interrupção do fluxo de visitantes.

No setor cultural, a China suspendeu as estreias de filmes japoneses, medida que a CCTV classificou como “prudente” devido ao ambiente diplomático adverso. Tóquio, por sua vez, orientou cidadãos residentes na China a terem cautela, evitando aglomerações e interações fora de ambientes conhecidos.

No front militar, a disputa ganhou nova camada após o Japão mobilizar caças F-15 para monitorar aeronave chinesa J-11 e anunciar a presença de um drone TB-001 próximo à ilha de Yonaguni. 

A guarda costeira chinesa intensificou patrulhas nas ilhas Diaoyu/Senkaku, enquanto Tóquio relatou a passagem de embarcação de mísseis da Marinha chinesa perto de suas águas.

A combinação de alertas, movimentações navais e troca de acusações elevou a percepção de risco de incidente não planejado — especialmente em áreas onde Japão e Estados Unidos realizam exercícios conjuntos.

Críticas internas crescem no Japão e expõem isolamento de Takaichi

O endurecimento retórico da premiê japonesa não passou sem contestação dentro do próprio país. Em entrevista à Xinhua, o pesquisador Yuki Izumikawa, da Universidade de Okinawa, classificou as declarações como “extremamente prejudiciais” e “seriamente perigosas”. 

Para ele, a fala rompeu um consenso histórico. “Nenhum governo anterior afirmou oficialmente que o Estreito de Taiwan poderia acionar o direito de autodefesa coletiva, disse

Izumikawa ressaltou que Okinawa e ilhas próximas seriam “campos de batalha” caso o Japão se envolvesse militarmente na região. “Não seria o Japão arrastado para a guerra — seria o Japão entrando ativamente nela”, afirmou.

A posição ecoa críticas publicadas no Tokyo Shimbun, que classificou a fala de Takaichi como “imprudente e descuidada”. Grupos da sociedade civil organizaram protestos e internautas japoneses passaram a questionar a “competência diplomática” da premiê.

O histórico colonial japonês em Taiwan — iniciado com o Tratado de Shimonoseki, em 1895 — é mencionado como fator que intensifica a sensibilidade da população chinesa a qualquer declaração japonesa sobre a ilha. 

Para setores progressistas japoneses, a postura de Takaichi deteriora a posição internacional do país e amplia vulnerabilidades, especialmente em regiões como Okinawa, sede de bases americanas e alvo provável em caso de conflito.

Tentativa japonesa de aliviar crise encontra resistência firme de Pequim

Buscando conter os danos, o Japão enviou Masaaki Kanai, diretor-geral do Departamento de Assuntos Asiáticos e Oceânicos, para uma reunião com o diplomata chinês Liu Jinsong em Pequim. A conversa, porém, não produziu avanços. “A atmosfera foi solene”, afirmou Liu, que reiterou a exigência de que o Japão “retire declarações equivocadas e pare de criar incidentes”.

Pequim também descartou qualquer possibilidade de encontro entre Li Qiang e Takaichi na cúpula do G20. 

A decisão aprofunda o isolamento diplomático japonês em um momento em que a China busca ampliar sua influência geopolítica e reiterar o princípio de que a questão de Taiwan é “tema exclusivo do povo chinês”.

No eixo Washington–Tóquio, o governo dos Estados Unidos reafirmou que defenderá o Japão em caso de ataque às ilhas Senkaku, o que Pequim classificou como “espetáculo político com motivos ocultos”.

Memória histórica, disputa estratégica e risco de incidente militar definem novo estágio da crise

O conjunto de declarações, protestos diplomáticos, ameaças explícitas e pressões econômicas revela que a disputa já não é pontual. A China a enquadra como violação direta da ordem do pós-guerra e como ruptura japonesa de compromissos legais firmados há meio século.

Para Pequim, Tóquio rompeu um pacto que sustentou a estabilidade bilateral desde 1972: reconhecer que Taiwan é parte da China e se abster de qualquer ação que possa ser interpretada como ingerência. Para Takaichi, ao contrário, a “crise de sobrevivência” coloca o Japão ao lado dos Estados Unidos em um hipotético conflito no Estreito.

No centro da disputa está um dilema estratégico: até onde o Japão pode avançar na flexibilização de sua Constituição pacifista sem ser acusado de reviver o militarismo do século XX — e até onde a China está disposta a ir para impedir esse movimento.

Com tensões simultaneamente diplomáticas, militares, históricas e econômicas, o conflito entra em estágio de risco ampliado. Uma mensagem se sobressai em cada uma das declarações de Pequim: “A China de hoje não é a China do passado”.

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