Plano dos EUA e da Rússia pressiona Europa a propor condições alternativas

Versão inicial do acordo emergiu sem participação europeia, levando países a montar contraproposta para ajustar limites militares e cláusulas territoriais consideradas arriscadas

Donald Trump e Volodymyr Zelensky durante encontro às margens da Assembleia Geral da ONU, em Nova York, nesta terça-feira (23). Foto: Reprodução

A Europa se mobiliza para tentar reescrever partes essenciais do acordo preliminar que negociadores dos Estados Unidos e da Rússia costuraram para um possível fim da guerra na Ucrânia. 

A primeira versão do plano, revelada na última quinta-feira (20), tem 28 pontos, foi apresentada sem consulta às capitais europeias e passou a orientar as discussões diplomáticas nos últimos dias. 

A iniciativa aumentou a pressão sobre os governos do continente, que tentam agora modificar trechos considerados por eles sensíveis para a segurança regional e para a posição de Kiev no conflito.

As tratativas ganharam novo impulso neste domingo (23), quando autoridades norte-americanas e ucranianas anunciaram, em Genebra, a elaboração de uma “versão refinada” do documento. 

Apesar disso, nenhum detalhe oficial foi divulgado, e Moscou afirmou que ainda não recebeu o texto por canais formais. Para o Kremlin, mudanças noticiadas pela imprensa precisam ser verificadas antes de qualquer avaliação.

A movimentação repentina expôs o desalinhamento entre Washington, Moscou e os países europeus, que buscam recuperar espaço em um processo que se desenvolveu à margem dos principais aliados de Kiev. 

As reações refletem diferentes interesses sobre o desenho do pós-guerra e o ritmo das negociações, em meio a avanços militares russos e ao desgaste político do governo ucraniano.

Enquanto a diplomacia tenta se reorganizar, o terreno segue instável no fronte de guerra. Ataques com drones atingiram Kharkiv, no norte da Ucrânia, matando quatro pessoas no domingo. 

Ao mesmo tempo, a Rússia anunciou o controle de novas posições em Zaporíjia e Pokrovsk, reforçando a escalada militar paralela aos esforços por um acordo.

Acordo inicial EUA–Rússia orienta negociações e causa desconforto europeu

O plano original foi elaborado por Steve Witkoff, representante dos EUA, e Kirill Dmitriev, enviado russo, e emergiu na última quinta-feira (20) após vazamento na imprensa americana e ucraniana. 

O texto previa, entre outros pontos, limites rígidos para as Forças Armadas ucranianas, restrições à adesão de Kiev à Otan, reconhecimento de fato de áreas ocupadas pela Rússia e a criação de zonas desmilitarizadas em partes de Donetsk.

A versão inicial incluía ainda a repartição da energia gerada pela usina de Zaporizhzhia sob supervisão da AIEA e mecanismos de reintegração da Rússia a fóruns internacionais, como o G8. 

Segundo a imprensa russa, esses trechos foram bem recebidos por setores próximos ao Kremlin, que enxergaram no documento elementos de estabilização de longo prazo.

A divulgação pública do texto aumentou a pressão sobre o governo ucraniano. O presidente norte-americano Donald Trump estabeleceu prazo até esta quinta-feira (27) para que Volodimir Zelenski se manifeste sobre os termos propostos. 

Mais tarde, Trump indicou que a data poderia ser flexibilizada, dependendo do andamento das conversas.

Para os europeus, o desconforto se concentra no fato de que as negociações avançaram sem sua participação direta. Diplomatas relatam que o acordo chegou praticamente pronto aos aliados, e a reação foi imediata. Londres, Paris e Berlim iniciaram consultas emergenciais para responder ao documento.

Europeus montam contraproposta e afirmam não ter sido consultados

Para tentar recuperar protagonismo, França, Reino Unido e Alemanha elaboraram uma contraproposta formal, que modifica aspectos centrais do plano inicial. O texto europeu eleva o limite das Forças Armadas ucranianas para 800 mil militares e retira qualquer reconhecimento automático de territórios sob controle russo. 

No lugar disso, prevê que eventuais negociações partam da linha de contato atual.

A proposta europeia inclui também uma garantia de segurança dos Estados Unidos semelhante ao Artigo 5 da Otan, que estabeleceria resposta automática caso a Ucrânia fosse atacada novamente. 

O documento mantém a possibilidade de futura adesão ucraniana à aliança militar ocidental, o que contrariava diretamente o ponto original discutido entre EUA e Rússia.

O chanceler alemão Friedrich Merz afirmou, durante encontro paralelo à cúpula UE–União Africana em Luanda, que “a paz não acontecerá da noite para o dia”, mas reconheceu avanços iniciais nas conversas. 

Para o premiê polonês, Donald Tusk, qualquer acordo deve evitar “enfraquecer a Ucrânia ou a Europa”.

A participação de observadores britânicos, franceses e alemães em Genebra indica a tentativa europeia de evitar que o processo avance sem sua influência. Ainda assim, líderes do continente admitem que o eixo Washington–Moscou segue conduzindo os pontos mais estruturais do debate.

Zelenski tenta evitar perdas e reabrir diálogo direto com Trump

Dentro da Ucrânia, o presidente Volodimir Zelenski enfrenta um cenário político delicado. Nas últimas semanas, dois ministros foram afastados após escândalos de corrupção, e o país registra avanços russos em áreas estratégicas do leste e do sul. 

O desgaste interno limita a margem de manobra do governo ucraniano nas negociações.

Em videoconferência com aliados europeus, Zelenski afirmou: “Continuamos trabalhando com nossos parceiros, em especial os Estados Unidos, para buscar soluções de compromisso que nos fortaleçam, mas que não nos enfraqueçam”. A declaração indica resistência a concessões profundas previstas no texto original.

Apesar do recuo de alguns pontos após as reuniões em Genebra, há ceticismo na sociedade ucraniana. Reportagens na capital registram críticas de cidadãos à proposta inicial. 

Fontes norte-americanas e europeias indicam que Zelenski poderá viajar aos Estados Unidos para discutir pessoalmente com Trump os termos mais sensíveis do acordo, caso as conversas avancem nos próximos dias.

Rússia aguarda versão oficial e observa divisão ocidental

Na manhã desta segunda-feira (24), o porta-voz do Kremlin, Dmitri Peskov, afirmou que Moscou ainda não recebeu formalmente a nova versão do acordo e que só se pronunciará após analisar o texto completo. “É algo muito importante para se guiar só por reportagens”, declarou. Segundo ele, alterações citadas pela imprensa exigem confirmação.

Veículos norte-americanos e ucranianos apontam que ao menos três pontos teriam sido modificados: aumento do limite das forças ucranianas para 800 mil, retirada do veto absoluto à entrada na Otan e eliminação do reconhecimento automático de áreas ocupadas como russas. 

Peskov, no entanto, reiterou que apenas documentos oficiais podem orientar a posição do Kremlin.

A postura russa reflete também disputas internas. A ala mais dura do governo vê o avanço militar no campo de batalha como elemento para fortalecer sua posição nas negociações. Relatos indicam que essa corrente busca evitar concessões antes que Moscou consolide novas posições no leste e no sul da Ucrânia.

No domingo, a Rússia anunciou o controle de novos setores em Pokrovsk, região logística central em Donetsk, e a captura de uma vila em Zaporíjia. Já em Kharkiv, um ataque com drones deixou quatro mortos, segundo autoridades locais.

Trump aumenta pressão e acusa Ucrânia de “falta de gratidão”

O presidente Donald Trump, que tem conduzido o processo diplomático diretamente, voltou a pressionar o governo ucraniano nesta segunda-feira (24). Em publicações na rede Truth Social, afirmou que a liderança ucraniana demonstrou “zero gratidão” e criticou países europeus por continuarem comprando energia russa.

Após o encontro em Genebra, o secretário de Estado Marco Rubio classificou as discussões como “a melhor reunião até agora” e disse estar otimista com a possibilidade de um acordo “em tempo razoável”. 

Rubio afirmou que norte-americanos e ucranianos trabalharam ponto a ponto no documento para tentar reduzir divergências.

A imprensa norte-americana registrou, no fim de semana, que senadores foram informados de que o texto inicial seria uma “lista de desejos dos russos”, mas o Departamento de Estado negou a informação. Rubio também rejeitou a caracterização e enfatizou que o plano foi elaborado pelo governo dos EUA.

Próximos passos

Ucrânia e Estados Unidos afirmaram que continuarão “trabalhando intensamente” na consolidação de um texto conjunto ao longo da semana. Líderes europeus dizem esperar que suas sugestões sejam incorporadas nas próximas versões.

Outros países tentam se inserir no processo. O presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, afirmou que conversará com Vladimir Putin sobre as negociações. Já o presidente francês, Emmanuel Macron, indicou que uma nova rodada de reuniões com Reino Unido, Canadá e outros líderes deve ocorrer na terça-feira.

A expectativa é que a resposta formal de Kiev ao plano seja apresentada ainda nesta semana, embora não haja garantias de que o prazo inicial será mantido. Enquanto isso, a Rússia continua aguardando a versão oficial do documento para posicionar-se sobre o andamento das tratativas.

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