Guerra de Trump gera custo bilionário e um conflito sem saída estratégica
A escalada de EUA e Israel contra o Irã traz prejuízos recordes, une a população iraniana e ameaça a estabilidade energética de todo o planeta e a economia global
Publicado 12/03/2026 14:09 | Editado 13/03/2026 16:33
Desde o início da ofensiva conjunta de Estados Unidos e Israel contra o território iraniano, em fevereiro (28), o cenário geopolítico no Oriente Médio sofre uma transformação radical que vai além da destruição de infraestrutura. O que Washington e Tel Aviv planejaram como uma operação de “coerção estratégica” para forçar uma mudança de regime – culminando no ataque que vitimou o líder supremo Ali Khamenei – resultou em um fenômeno não calculado pelos estrategistas ocidentais: o recuo da oposição interna e o fortalecimento de uma união nacional iraniana. A agressão externa não apenas ampliou o apoio ao governo em Teerã, como gerou uma onda de repúdio mesmo entre as parcelas da população e da chamada diáspora iraniana que historicamente se opunham ao sistema teocrático.
Pesquisas realizadas junto à comunidade iraniana na Europa e na Turquia e dentro dos EUA mostram que embora os migrantes sejam críticos às políticas internas de seu país, a maioria é contrária aos ataques estrangeiros. O sentimento predominante é de que a soberania nacional e a integridade do povo estão acima de divergências políticas. Essa “unidade na dor” responde diretamente ao que é percebido como uma agressão imperialista que atinge alvos civis, conforme denunciado pelo chanceler Abbas Araghchi. O resultado prático é o fortalecimento de uma resiliência social que torna a estratégia de mudança de regime via bombardeio um erro de cálculo histórico das potências ocidentais.
Neutralidade forçada dos países do Oriente Médio
Enquanto acumula forças internamente, Teerã tem utilizado o Estreito de Ormuz como alavanca diplomática. O Irã tem promovido a liberação seletiva de cargueiros e petroleiros destinados aos países do bloco BRICS, como China e Índia. Rotas alternativas de envio de petróleo tem favorecido a Turquia.
Já os agressores começam a enfrentar a desconfiança dos parceiros tradicionais. Damasco, sob pressão intensa e ameaças de expansão do conflito para o próprio território, mantém uma neutralidade forçada, servindo como termômetro da cautela regional. A Turquia, por sua vez, negou apoio logístico ou uso de seu espaço aéreo, enfatizando que não será parte de um conflito que desestabilize o equilíbrio regional. O governo em Ancara manifesta contrariedade com a postura dos Estados Unidos de favorecer grupos dissidentes e milícias que ameaçam a integridade das fronteiras e a paz na região.
Países como Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos também demonstram descontentamento. Relatos diplomáticos indicam uma sensação de “abandono”, com a percepção de que a operação foi desenhada apenas para proteger interesses de Israel e das tropas norte-americanas, deixando os vizinhos expostos a retaliações. A falta de aviso prévio sobre a data do ataque inicial e o esgotamento rápido dos estoques de interceptores antimísseis locais criaram uma crise de confiança profunda entre Washington e aliados históricos do Golfo.
Choque energético e o impacto na economia doméstica norte-americana
O mercado de petróleo reflete a gravidade da situação. O preço do barril de Brent registrou picos de US$ 120 e agora encontrou uma frágil estabilização na faixa US$ 85-90. A contenção veio após a Agência Internacional de Energia (AIE) coordenar a liberação emergencial de 400 milhões de barris de reservas estratégicas. No entanto, analistas alertam que esta é uma solução precária.
A análise financeira revela uma disparidade profunda nas prioridades do governo Donald Trump. Ao completar a segunda semana, a fatura dos gastos militares já supera os US$ 11,3 bilhões. Os EUA gastaram em apenas 7 dias de guerra, por exemplo, o equivalente a todo o orçamento anual de pesquisa contra o câncer (US$ 7,4 bilhões) ou o equivalente ao financiamento a programas de nutrição infantil.
Este gasto ocorre num momento de inflação crescente, em que o preço da gasolina nos EUA subiu 17%. Caso Trump arraste a guerra até o final do ano, o impacto econômico total para a economia norte-americana é estimado em até US$ 215 bilhões. Perto de 1% do PIB dos EUA
O fracasso da vitória rápida
A expectativa de uma “guerra rápida”, planejada por setores da direita e da extrema direita em Washington e Tel Aviv, provou-se uma ilusão. O Irã não apenas sobreviveu ao golpe inicial, como passou a deter a iniciativa em diversas frentes, com o uso combinado de tropas e milícias integradas a estruturas no Iraque e Líbano. O que garante que, mesmo sob bombardeio intenso, o poder de dissuasão iraniano permaneça ativo e capaz de causar danos colaterais severos à frota naval e bases norte-americanas na Jordânia e no Bahrein.
Sem um objetivo político alcançável e com custos que crescem à razão de quase um bilhão de dólares por dia, o alinhamento imperialista de Trump e Netanyahu corre o risco de enfrentar não apenas uma derrota estratégica no Oriente Médio, mas de provocar uma crise econômica global. A insistência no uso da força, em detrimento da diplomacia, revela-se como um erro cujas consequências o mundo inteiro já começa a sentir.