O Agente Secreto, o Oscar e o cinema brasileiro
Indicado a quatro categorias no Oscar 2026, filme de Kleber Mendonça Filho reacende debate sobre memória da ditadura, mercado audiovisual e a necessidade de fortalecer o cinema nacional.
Publicado 13/03/2026 13:50
A cerimônia de entrega do Oscar 2026 acontece neste domingo (15). O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho, disputa quatro prêmios (Melhor filme, filme internacional, seleção de elenco e ator, com o gigante Wagner Moura).
Um efeito interessante para a mais famosa premiação do cinema mundial. De qualquer forma, O Agente Secreto é uma obra que já está na história do cinema.
E vejam que não regionalizei. Porque essa obra expõe toda a criatividade e inventividade de Kleber Mendonça e se apresenta como um dos mais importantes filmes feitos no ano passado. Mostra uma faceta trágica e importante da história do país com enfoque em Recife, o que já é uma mudança de visão, tirando o eixo Rio-São Paulo do centro das atenções.
O filme se passa em 1977 e retrata as atrocidades cometidas por agentes da ditadura acobertados pelos generais no poder com cumplicidade de grande parte da mídia submissa aos interesses do capital e à ditadura. E vai além ao denunciar a censura como cortina de fumaça para impedir a verdade de aparecer.
O destaque de O Agente Secreto é tamanho que até a revista New Yorker o classificou como o melhor filme de 2025. O filme beira a perfeição com direção, roteiro e encadeamento que conquistam público e crítica com o mesmo fervor. Com elenco afinado e de muita qualidade e com interpretações naturalistas, com destaque para Tânia Maria, que chamou a atenção de todo mundo.
Importante reforçar a memória de uma época ao mesmo tempo trágica e vigorosa na resistência aos anos de chumbo. O filme desmente a máxima de que o povo brasileiro não tem memória, porque essa falta de memória foi fabricada para engabelar e impedir a identificação com a luta popular por mudanças mais profundas na sociedade. Até porque como diz Santo Agostinho, “sem memória não há alma”.
A obra traz esperança quando remonta ao presente no necessário e intenso combate à extrema-direita e seus aliados, inclusive na mídia do capital. Basta ver a cobertura pseudo jornalística das guerras, seja em Gaza, no Irã ou na Ucrânia.
Com mais de 2,5 milhões de espectadores no país, o filme chega ao streaming Netflix com garantias de conquistar ainda mais público. Fatores importantes para seu impulsionamento rumo ao Oscar. Pode ganhar, pode não ganhar, mas já conquistou corações e mentes no mundo todo.
É mito bom ver o cinema brasileiro com tanto destaque. Mas sem qualquer ufanismo como numa postagem no Instagram, de uma militante de esquerda, afirmando que o “pior” filme brasileiro é “melhor” que o melhor filme de Hollywood.
Visão bem exagerada porque o ufanismo mais atrapalha do que ajuda na valorização do audiovisual brasileiro, que tem especialista entendendo o momento como uma “onda” do cinema brasileiro. Então, a nossa luta deve ser para que se avance mais ainda e essa onda deixe der ser uma onda, que vai e vem, e permaneça no pico definitivamente.
Para isso, é necessário fiscalizar a reserva de mercado para o cinema nacional porque colocam os filmes brasileiros em cartaz em horários nada “nobres”, com poucas salas e, mesmo em filmes candidatos ao Oscar, as produções nacionais têm menos espaço que filmes estadunidenses, que dominam o mercado com ampla divulgação e distribuição.
A cultura precisa de mais e mais financiamento até porque como mostra o filme do Tim Robbins, Cradle Will Rock (O Poder Vai Dançar), que conta a montagem do musical de Marc Blitzstein em 1937, comentando a relação da arte com o poder nos anos 30, quando o presidente Roosevelt (1933-1945) investe pesadamente na indústria cultural (inspirado nas ideias do Keynes) no esforço para recuperar a economia americana quebrada pela crise de 1929. E o cinema estadunidense tornou-se essa potência que é por ter investimento em cultura.
Além da reserva de mercado para os filmes brasileiros, é necessário diversificar os filmes estrangeiros. Quanto tempo não se vêm em cartaz um filme cubano, ou russo, ou mexicano, ou chinês? Mesmo produção indianas, que são numerosas, dificilmente chegam, ao cinema comercial, imaginem obras iranianas, nigerianas, sul-africanas e até europeias. Por exemplo, quantos filmes portugueses se vê em cartaz?
Em streamings até se encontra obras de diversos países, mas em salas de exibição, dificilmente. Até porque o Brasil conta com poucas salas de cinema, que se concentram nos grandes centros, invariavelmente em shoppings.
A índia e a China possuem uma produção cinematográfica potente por investem massivamente em cultura há anos. Porque além de tudo, o cinema, o teatro, a música, a literatura e as artes em geral, geram milhares de empregos e movimentam bilhões na economia.
Que O Agente Secreto nos redima e vença todas as categorias que disputa no Oscar. Mas se não vencer, sem problemas, já elevou o protagonismo do cinema brasileiro o bastante. O importante em tudo isso é entender-se a necessidade de menos Marvel e mais agentes secretos e diversidade. Para o bem da cultura e do país.
*Colaboração de Antônio Carlos Queiroz, o ACQ