República aos 95 anos reacende memória e disputa política na Espanha

Mobilizações, memória histórica e disputa política recolocam a Terceira República no centro do debate na Espanha contemporânea

Foto: Tiago Alves

Madrid voltou às ruas nos últimos dias em torno de uma data que permanece viva na história e na política espanhola. Às vésperas dos 95 anos da proclamação da Segunda República, manifestações ocorreram de norte a sul do país, não apenas em Madrid, além de atos políticos e atividades culturais que marcaram a agenda republicana, reafirmando o 14 de abril como um momento de memória, disputa e projeto político.

Na capital, a principal mobilização de rua ocorreu no dia 12 de abril, no domingo anterior à efeméride, reunindo cerca de três mil pessoas em um percurso pelo centro de Madrid até a Puerta del Sol, local histórico das celebrações populares de 1931. A antecipação da manifestação, comum no calendário político espanhol, buscou ampliar a participação ao coincidir com o fim de semana.

Sob lemas como “Por los derechos sociales. ¡Ni guerra, ni OTAN, ni bases! Por la III República”, os manifestantes articularam a memória republicana com as disputas contemporâneas, conectando a luta institucional à agenda social, à defesa da soberania e à oposição à militarização. A presença de organizações políticas, coletivos republicanos, juventudes e movimentos sociais evidenciou o caráter plural e unitário das mobilizações.

Bandeiras tricolores vermelho, amarelo e roxo voltaram a ocupar o espaço público em Madrid. Símbolo oficial da Segunda República, a tricolor expressa historicamente a incorporação do povo ao projeto nacional. Hoje, seu uso mantém forte significado político, representando a defesa de um modelo de Estado baseado na soberania popular, na ampliação de direitos e na superação das estruturas herdadas da monarquia restaurada no período pós-franquista.

Essa presença não se limita às manifestações. Em diversos bairros da cidade, sacadas de pequenos prédios exibem a bandeira tricolor, enquanto outras ostentam a bandeira oficial da monarquia espanhola. A convivência desses símbolos no cotidiano urbano evidencia que, apesar do tempo transcorrido, a divisão em torno da forma de Estado permanece profundamente enraizada na sociedade espanhola.

O próprio percurso das mobilizações revela a geografia política da República na cidade. Madrid se converte em um verdadeiro mapa histórico, no qual a Puerta del Sol permanece como epicentro das celebrações populares em 1931, enquanto espaços como Cibeles, Alcalá e Gran Vía seguem sendo eixos de visibilidade política.

Proclamada em 14 de abril de 1931, a Segunda República representou uma ruptura profunda com a monarquia e inaugurou um período de reformas avançadas. Sua Constituição estabeleceu princípios como o Estado laico, o voto feminino, a ampliação de direitos civis e o fortalecimento da educação pública.

O processo republicano também foi marcado por contradições e pela evolução das forças políticas. Como afirma Sergio Mesa, da Secretaría de Comunicación del Partido Comunista de España, em entrevista ao Portal Vermelho, “nuestro Partido cayó en graves errores sectarios, de modo que mantuvo una posición agresiva ante la proclamación de la II República”, em referência à postura inicial da organização nos primeiros momentos do novo regime.

Com o avanço das tensões políticas e sociais, o papel do PCE se transformou, especialmente na defesa da legalidade republicana diante das forças reacionárias. Como destaca a Secretaría de Memoria Democrática del Partido Comunista de España, “El PCE fue el partido político que insistió en la necesidad de armar al pueblo y la creación de un ejército regular con mando único, un ejército que se forma con mandos leales a la república y con jefes militares ligados al pueblo. Un ejército forjado en la lucha contra el fascismo y contra el invasor extranjero (…) La implicación del PCE en defensa de la II República fue clara y nítida.”

Mesmo com sua relevância histórica, o 14 de abril não é reconhecido como feriado nacional na Espanha, o que expressa as continuidades do período posterior à derrota republicana. A ausência da data no calendário oficial é frequentemente apontada como parte de uma herança política e simbólica que remonta ao franquismo e que ainda se projeta sobre as instituições e a organização do Estado espanhol.

Apesar de seus avanços, a República enfrentou resistências intensas de setores conservadores, elites econômicas e parte das forças armadas, além de tensões internas entre as forças progressistas. Esse cenário acabou por interromper a experiência republicana, abrindo caminho para sua derrota e para décadas de ditadura.

Ainda assim, seu legado resistiu e continua sendo reativado nas ruas e nas disputas políticas contemporâneas. Segundo Sergio Mesa, “mujeres y hombres decidieron que para progresar resultaba imprescindible liberarse del lastre corrupto de la monarquía”, inaugurando uma etapa de avanços sociais sem precedentes no país.

Nas últimas décadas, a questão republicana passou por uma transformação significativa. Após anos fora da agenda política, a reivindicação da Terceira República voltou a ganhar centralidade. “La reivindicación de la III República (…) regresó a la agenda de la mayoría de las fuerzas de la clase trabajadora y de las fuerzas de izquierdas”, afirma Sergio Mesa.

Esse processo se expressa também nas mobilizações recentes. Centenas de atos são realizados em todo o país ao longo do mês de abril, além da consolidação de uma marcha estatal republicana em Madrid, que deve voltar a ocorrer em junho, reforçando a presença do tema no debate público.

A leitura das forças comunistas espanholas aponta para uma mudança de sentido histórico. A República deixa de ser apenas memória e passa a ser projeto. Como destaca José Manuel García, Secretário da República do PCE, a construção da Terceira República se afirma como alternativa concreta às necessidades da maioria social, vinculada a um processo de transformação política, econômica e social mais amplo.

A proposta republicana contemporânea está diretamente associada à defesa de direitos concretos. Emprego estável, salários dignos, moradia, serviços públicos e proteção social aparecem como pilares de um novo modelo de país.

O tema da moradia, em particular, tem ocupado um lugar central nesse debate. Como afirma a nota do Partido Comunista da Espanha divulgada por ocasião do 14 de abril, “o capitalismo transformou um direito, o da moradia, em um negócio. Ter um teto decente e adequado sobre a cabeça é um direito humano fundamental para viver com dignidade, segurança e saúde”.

No cenário internacional, a defesa da República também se conecta à luta pela paz e à oposição ao militarismo. Nesse sentido, o republicanismo contemporâneo se apresenta como um projeto anti-imperialista, vinculado à soberania nacional e à cooperação entre os povos.

No contexto atual de avanço da extrema direita, a luta republicana adquire novo significado. Para Sergio Mesa, trata-se de “instaurar una democracia plena, participativa, íntegra, transparente y laica”, capaz de garantir direitos e enfrentar o crescimento de forças autoritárias.

Nesse contexto, a leitura sobre o momento atual da disputa política na Espanha também se beneficia de um olhar externo, ainda que profundamente conectado à realidade do país. Integrante do Comitê Central do Partido Comunista do Uruguai e residente em Madrid há mais de uma década, Gustavo Alvarez acompanha de perto a dinâmica política espanhola e afirma que “para a esquerda atual, a ideia de uma ‘Espanha Republicana’ vai muito além da substituição de um chefe de Estado. Trata-se de um projeto de transformação política, econômica e social, que também funciona como elemento de mobilização e unidade diante da fragmentação das forças de esquerda.”

A construção dessa alternativa passa pela formação de uma ampla unidade popular e pela abertura de um novo processo constituinte. A República aparece, assim, como horizonte político que articula democracia, justiça social e transformação estrutural.

Noventa e cinco anos depois, a República Espanhola permanece como uma experiência histórica que não se encerrou completamente. Sua memória segue sendo reativada nas ruas, nos debates políticos e nas expressões culturais. Em Madrid, entre bandeiras tricolores e manifestações populares, o 14 de abril reafirma seu caráter como um momento de disputa sobre o futuro.

A República, nesse sentido, não aparece apenas como lembrança de um passado interrompido, mas como horizonte político que continua mobilizando gerações em torno da ideia de democracia, justiça social e emancipação.