Cultura Viva Comunitária: da palavra ao território, um projeto latino-americano em movimento

Da palavra que circula ao corpo que ocupa as ruas, um movimento que reinventa a política a partir da cultura e do território

Foto: divulgação

Da escuta ao corpo, da memória ao futuro, da cultura à política. O 7º Congresso Latino-Americano e Caribenho de Cultura Viva Comunitária, realizado na Colômbia, revelou mais do que um encontro cultural. Demonstra que há um projeto político-cultural em curso no continente latino-americano, a partir da cultura, em uma perspectiva de transformação social.

Reunindo cerca de 400 representantes de 23 países, o congresso percorreu territórios como Nariño, Putumayo, Valle del Cauca, Cáli e Medellín, conectando experiências comunitárias, redes culturais e políticas públicas em uma jornada que sintetiza mais de duas décadas de construção coletiva.

“Chegar até este Congresso foi uma trajetória que já leva mais de duas décadas, em que a Política Nacional de Cultura Viva e os Pontos de Cultura do Brasil inspiraram organizações culturais comunitárias, governos locais e movimentos culturais em diversos países”, afirma Alexandre Santini, atual presidente da Fundação Casa de Rui Barbosa, vinculada ao Ministério da Cultura, e militante histórico do movimento latino-americano de Cultura Viva Comunitária, tendo participado de todas as edições do encontro.

 A fala foi registrada durante um dos painéis do congresso, em um espaço de debate coletivo que reúne representantes de diferentes países. Para ele, o momento atual exige posicionamento político claro. “Num momento em que a América Latina está sob ataque e forte ofensiva, afirmar a cultura como ferramenta potente de transformação social e construção de novas utopias é possível e necessário”, completa (https://www.instagram.com/reel/DXZTlpbjfYo/).

A escolha da Colômbia como sede não é casual. O país ocupa uma posição de vanguarda na formulação de políticas públicas de cultura comunitária na América Latina, com experiências que articulam território, participação e ação estatal. Em Medellín,  a cultura se consolidou como eixo estratégico de política pública, com impacto direto na organização social e na redução de desigualdades. Esse acúmulo dialoga diretamente com a trajetória do próprio movimento, que se estrutura desde 2011, a partir da Plataforma Puente, em Medellín, e ganha dimensão continental no primeiro congresso realizado em La Paz, em 2013.

Desde então, a Cultura Viva Comunitária se expandiu como rede, articulando iniciativas de base comunitária em diferentes países e consolidando-se como uma das principais experiências de organização cultural do continente. Em Cáli, o seminário CaminAndar, a palavra em movimento, evidenciou o método que sustenta esse processo, baseado na escuta, na troca de experiências e na participação direta, reunindo representantes de diversos países em debates que partem das práticas concretas dos territórios.

Essa dinâmica se aprofunda nos Círculos da Palavra e na atuação da Rede Educativa IberCultura Viva, que conecta universidades, coletivos e saberes populares. “Os saberes comunitários nos ensinam que o mais importante nem sempre está nos protocolos, mas na experiência viva dos povos”, afirmou João Pontes, Diretor da Política Nacional de Cultura Viva do Ministério da Cultura, ao destacar que é nos territórios que a política cultural ganha consistência e capacidade de transformação.

Na etapa final, Medellín reuniu atividades de articulação política e expressões culturais nas ruas, conectando o debate institucional com práticas culturais vivas. O congresso também revisitou sua trajetória e consolidou seus acúmulos. A exibição do documentário “Fantasma Vestido de Palhaço, da cineasta Alessandra Stropp, recuperou a origem do movimento a partir das experiências dos Pontos de Cultura e está disponível em linha (https://youtu.be/pCTOb8zbFuY?si=eShVhmjwO7C5s7if). Já o lançamento do livro dos 10 anos do IberCultura Viva reuniu dados, análises e experiências que sistematizam uma década de políticas culturais comunitárias no continente, transformando esse acúmulo em referência para novas formulações.

A Assembleia geral do Congresso aprovou, ainda, documentos de solidariedade e apoio à Cuba e Venezuela. Os textos aprovados afirmam que  “la soberanía es nuestra obra maestra colectiva”, e denunciam as intervenções externas nos países latino-americanos,  reforçando que “la cultura no puede ser neutral. El arte que no denuncia es cómplice”. Ao tratar da Venezuela, o texto aponta que “no es una herida solo en suelo venezolano; es una herida en el corazón de todo el continente”, situando o episódio como parte de uma disputa geopolítica mais ampla.

Sobre Cuba, o documento assume um tom ainda mais direto ao classificar o bloqueio como “um genocídio silencioso disfarçado de sanções” e afirmar que “Cuba no está sola, porque Cuba es la reserva moral de la humanidad”. Esse cenário foi detalhado pela delegação cubana presente no Congresso, com relatos sobre escassez de alimentos, falta de combustível, dificuldades de acesso a medicamentos e limitações à circulação cultural, impactando diretamente o funcionamento das comunidades e de seus projetos.

Mesmo diante dessas condições, a Cultura Viva Comunitária compreende a celebração e o encontro como formas de organização e resistência. Nesse contexto, a Plenária final do 7º Congresso, realizada no Teatro Popular Comandante Camilo Torres, na Universidade de Antioquia, em Medellín, ratificou a proposta da realização do próximo Congresso Latino-Americano de Cultura Viva Comunitária em Cuba, no ano de 2028. A realização do Congresso em Cuba representa uma aposta no futuro do país, e sua construção será fruto de um processo cooperativo e solidário por parte do Movimento de Cultura Viva Comunitária.

Da mesma forma, foi acolhida a   proposta apresentada pelo Brasil para sediar o 9º Congresso em 2030. O país que inspirou o continente latino-americano com o Cultura Viva e os Pontos de Cultura será pela primeira vez o anfitrião do encontro continental.

Ao longo de sua trajetória, o Movimento Latino-Americano de Cultura Viva Comunitária consolidou uma forma própria de articulação entre cultura, política e território, estruturada a partir de experiências concretas e da cooperação entre diferentes atores. O Congresso realizado na Colômbia reafirma esse caminho ao evidenciar que a Cultura Viva Comunitária não opera apenas como política cultural, mas como instrumento de organização social que compreende a cultura como um elemento estratégico para a construção de alternativas civilizatórias e de transformação social no continente latino-americano.