Em Madri, vigília por Palestina expõe força da solidariedade internacional

Mobilização reúne sindicatos, coletivos e movimentos sociais após prisão de Thiago Ávila e Saif Abu Keshek em missão humanitária rumo a Gaza

Foto: Reprodução

Ao final das tardes, o entorno do Ministério de Assuntos Exteriores da Espanha, no centro de Madrid, começa a mudar de atmosfera. Bandeiras palestinas ocupam a fachada, poemas são lidos em voz alta, artistas realizam intervenções culturais improvisadas e pequenos grupos se reúnem para discutir política internacional, Gaza e o papel da Europa diante da crise humanitária palestina.

Não se trata exatamente de um grande ato isolado, mas de uma vigília permanente organizada por coletivos como o “Madrid con Palestina”, redes internacionalistas, sindicatos, organizações políticas, estudantes e movimentos sociais que, há dias, transformaram o espaço diante da chancelaria espanhola em um ponto contínuo de solidariedade à Palestina.

Em meio às leituras públicas, cartazes e falas políticas, dois nomes aparecem repetidamente, o brasileiro Thiago Ávila e o ativista espanhol-palestino Saif Abu Keshek, integrantes da flotilha humanitária internacional interceptada por Israel em águas internacionais enquanto tentava chegar a Gaza. A mobilização em Madrid ganhou ainda mais força após a repercussão internacional da detenção dos dois ativistas. Na manhã deste sábado (9), veículos da imprensa internacional começaram a informar a libertação de Thiago Ávila e o anúncio da libertação de Saif Abu Keshek por parte das autoridades israelenses. Ambos permanecem sob procedimentos migratórios relacionados à deportação.

Segundo informações divulgadas pelas equipes jurídicas e por organizações de direitos humanos, Thiago Ávila e Saif Abu Keshek permaneceram em isolamento durante o período de detenção. Ambos iniciaram greve de fome, enquanto Saif Abu Keshek também teria suspendido a ingestão de água durante parte da prisão, segundo relatos da defesa. As denúncias sobre as condições da detenção ampliaram a pressão diplomática internacional e ajudaram a transformar o caso em tema político tanto no Brasil quanto na Espanha.

Para um observador brasileiro em Madrid, chama atenção como a questão palestina ocupa hoje um espaço político e moral muito mais profundo na sociedade espanhola do que costuma aparecer na cobertura internacional tradicional. A solidariedade à Palestina na Espanha não surge apenas como pauta humanitária circunstancial. Ela aparece ligada à memória antifascista, ao internacionalismo histórico da esquerda espanhola e às redes de solidariedade construídas entre sindicatos, coletivos culturais, universidades e movimentos sociais.

Ao longo da vigília, um dos temas mais recorrentes é justamente o tratamento dado pela grande imprensa internacional à situação palestina. Participantes criticam aquilo que consideram uma cobertura insuficiente e parcial, frequentemente centrada apenas na dimensão militar e diplomática do conflito, sem a mesma atenção à crise humanitária em Gaza, às iniciativas civis de solidariedade internacional ou à própria interceptação das embarcações em águas internacionais.

Entre os presentes, também aparece a percepção de que o sequestro e a detenção de Thiago Ávila, Saif Abu Keshek e dos demais integrantes da missão internacional não receberam o mesmo espaço nem a mesma intensidade de cobertura nos grandes jornais espanhóis ou na televisão tradicional do país. Para muitos militantes presentes na vigília, a repercussão internacional do caso só ganhou maior dimensão graças à atuação de redes independentes de comunicação, movimentos digitais e veículos alternativos.

A prisão de Thiago Ávila e Saif Abu Keshek acabou produzindo também uma convergência diplomática entre Brasil e Espanha. Nos últimos meses, o governo espanhol já vinha assumindo uma das posições mais críticas da União Europeia em relação às ações israelenses em Gaza, defendendo o reconhecimento do Estado palestino e elevando o tom diplomático contra Israel. No Brasil, o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva também ampliou as críticas à ofensiva israelense e passou a atuar diplomaticamente pela libertação de Thiago Ávila.

A situação ganhou dimensão ainda maior após a divulgação de uma nota conjunta entre Brasil e Espanha condenando a interceptação da flotilha e a detenção dos dois ativistas. Os governos dos dois países classificaram a ação israelense como “flagrantemente ilegal” e denunciaram o sequestro de seus cidadãos em águas internacionais, exigindo garantias de segurança, acesso consular e a libertação imediata de Thiago Ávila e Saif Abu Keshek. A nota elevou significativamente o peso diplomático do caso e ajudou a transformar a situação da flotilha em tema de repercussão internacional.

Segundo relatos das equipes jurídicas e das organizações envolvidas na missão, a flotilha humanitária foi interceptada por forças israelenses em águas internacionais enquanto tentava seguir em direção a Gaza. Após a operação, ativistas estrangeiros foram detidos e transferidos para custódia israelense.

Thiago Ávila e Saif Abu Keshek não foram liberados junto ao restante dos participantes da missão e acabaram transferidos para Israel, onde permaneceram detidos em isolamento. As denúncias sobre o caso passaram a mobilizar organizações internacionais de direitos humanos, redes jurídicas e organismos multilaterais, ampliando a pressão internacional sobre o governo israelense.

A atual missão também recolocou em evidência a crescente articulação internacional das chamadas flotilhas humanitárias. Nos últimos anos, essas iniciativas passaram a conectar organizações da América Latina, Europa e Oriente Médio em ações de solidariedade contra bloqueios econômicos, guerras e crises humanitárias.

Ao longo de 2025, diferentes “Flotilhas da Liberdade” partiram de cidades como Barcelona e da Sicília em direção a Gaza. Em uma das maiores operações do período, dezenas de embarcações internacionais foram interceptadas pela marinha israelense em águas internacionais, resultando em detenções, denúncias de violência e forte repercussão internacional.

Relatos de participantes dessas missões anteriores apontaram uso de canhões de água, abordagens agressivas e detenções de ativistas estrangeiros. As ações ajudaram a ampliar internacionalmente a denúncia contra o bloqueio imposto à Faixa de Gaza e fortaleceram as redes de solidariedade internacional à Palestina.

Em março deste ano, Thiago Ávila participou da missão “Nuestra América”, organizada pela Progressive International, que levou cerca de 30 toneladas de alimentos, medicamentos e painéis solares a Havana, em Cuba. A flotilha saiu do México como forma de solidariedade à ilha diante da grave crise energética agravada pelo bloqueio econômico imposto pelos Estados Unidos.

A atual missão da Global Sumud tornou-se uma das mais emblemáticas dessa nova etapa das mobilizações internacionalistas em defesa da Palestina.

O crescimento das mobilizações pró-Palestina tornou-se um dos elementos mais visíveis do atual cenário político espanhol. Madrid, Barcelona, Bilbao, Santiago de Compostela e outras cidades passaram a registrar atos frequentes articulando partidos de esquerda, sindicatos, movimentos sociais e coletivos culturais.

Em Madrid, a vigília permanente diante do Ministério das Relações Exteriores espanhol transformou-se em algo maior do que um simples protesto. Ali, a Palestina aparece como questão política cotidiana. Entre poemas, cartazes, intervenções culturais e debates improvisados, o espaço público madrilenho converteu-se em um ponto contínuo de encontro entre cultura, internacionalismo e denúncia da crise humanitária em Gaza.

Mesmo após o anúncio da libertação de Thiago Ávila e Saif Abu Keshek, a luta e a solidariedade internacional à Palestina seguem mobilizando movimentos sociais e redes internacionalistas em diferentes partes da Espanha e do mundo.

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