UBM aciona ator Juliano Cazarré na Justiça contra discurso misógino

Ator mantém realização do encontro sobre masculinidade “O Farol e A Forja”, após divulgar desinformação em debate na GloboNews

Imagen: UBM/Reprodução O Farol e a Forja

A União Brasileira de Mulheres (UBM) pediu a interpelação judicial do ator Juliano Cazarré e do UNI Ítalo (Centro Universitário Católico Ítalo Brasileiro) por conta da realização do Summit “O Farol e A Forja”, programado para acontecer no final de julho.

“A nossa expectativa é de que a justiça acolha a nossa solicitação e chame tanto o Juliano Cazarré quanto a universidade para se explicar em relação ao evento”, afirma Vanja Andréa, presidenta da UBM.

De acordo com a entidade, a interpelação visa prevenir a “propagação de discursos discriminatórios, misóginos ou atentatórios à dignidade das mulheres”. Como destaca o documento enviado à Justiça, o evento é amplamente divulgado nas redes sociais e plataformas digitais como “o maior encontro de homens do Brasil”, com o lema “o mundo precisa de homens que assumam seu papel”.

Segundo a UBM, é preciso que sejam resguardados “os princípios constitucionais da dignidade da pessoa humana, da igualdade de gênero e da não discriminação”.

Leia mais: Evento gera polêmica e reacende debate sobre masculinidade

Assim, é pedido que o ator, organizador do evento, preste esclarecimentos formais sobre as condutas adotadas no Summit e abstenha-se de “proferir, incentivar, tolerar, promover ou disseminar, direta ou indiretamente, discursos de ódio, conteúdos misóginos, falas discriminatórias ou quaisquer manifestações que impliquem inferiorização, desqualificação, violência simbólica, física, social ou psicológica, bem como discriminação de gênero no âmbito do referido evento”.

O UNI Ítalo, localizado em São Paulo, também faz parte do requerimento, uma vez que abrigará o encontro. Para o Centro Universitário, a UBM pede que se “adote todas as medidas necessárias para assegurar que as atividades realizadas em suas dependências observem os princípios constitucionais da dignidade da pessoa humana, da igualdade de gênero, do respeito aos direitos humanos e da vedação a práticas discriminatórias”.

Sobre o Centro Universitário, Vanja espera que averiguem antecipadamente a programação do evento para observar se existe algo que atente contra os direitos humanos e a igualdade de gênero. Caso algum material proposto nesse sentido seja confirmado, o local deve advertir os organizadores e até mesmo impedir o encontro, sob pena de a universidade responder conjuntamente a um processo, uma vez que a atuação no ensino é autorizada pelo Ministério da Educação (MEC), que é signatário do Pacto Nacional Brasil Contra o Feminicídio.

MEC

A União Brasileira de Mulheres ainda pretende dialogar com o Ministério da Educação (MEC) sobre a situação da universidade para saber o que pensam sobre a instituição abrigar tal encontro e sobre formas de prevenir que discursos de ódio aconteçam em ambientes de ensino.

“O MEC vai ser um canal que vai ser buscado. Em São Paulo, também vamos tentar buscar a própria universidade para ver se a gente pode abrir um canal de diálogo. Nós queremos dialogar com a universidade, com o MEC, porque acreditamos muito que o diálogo pode evitar uma série de situações que pretendemos resolver antes que aconteça, portanto, tudo isso tem caráter preventivo”, diz a presidenta da UBM.

Preocupação

O documento da interpelação destaca que a participação de Cazarré em um programa da GloboNews, exibido em 12 de maio, causa preocupação. Conforme a entidade, o ator, ao comentar os índices de violência no Brasil e dizer que “mais mulheres mataram homens do que homens mataram mulheres” expôs desinformação.

“A referida declaração, além de descontextualizada, ignora deliberadamente a natureza estrutural e sistemática da violência de gênero no Brasil, produzindo desinformação acerca do fenômeno do feminicídio e obscurecendo dados amplamente reconhecidos por instituições nacionais e internacionais sobre a violência praticada contra mulheres em razão de seu gênero […] Falas dessa natureza possuem elevado potencial de fomentar percepções sociais distorcidas sobre a violência de gênero, especialmente quando reproduzidas por figuras públicas de grande alcance midiático e em ambientes de formação coletiva, como o evento ora questionado”, traz o documento protocolado na Justiça do Rio de Janeiro.

Nesse contexto, a União Brasileira de Mulheres pede que os interpelados sejam questionados se reconhecem que manifestações públicas que minimizam a violência contra as mulheres contribuem para perpetuar discriminações históricas.

Leia mais: Congresso da UBM mobiliza mulheres em defesa da democracia

Na visão da presidenta da UBM, não houve responsabilidade da emissora ao realizar o debate, uma vez que o ator não é especialista em nenhuma área abordada e o conteúdo veiculado não agregou em nada para a promoção da democracia.

Para Vanja, o debate propagou a visão pessoal de Cazarré, “uma ideia atrasada sobre as mulheres e os homens”. Nesse sentido, ela lembra que a emissora é uma concessão pública e deve ter responsabilidade extrema com o conteúdo divulgado.

“A GloboNews fez a opção por um show. No centro desse show esteve presente a misoginia e dados sobre violência contra a mulher que ele [Cazarré] contestou. Ele está indo na contramão da informação, está servindo para a desinformação da população brasileira”, critica.

Acompanhamento

A entidade das mulheres acompanha os materiais divulgados e as confirmações de palestrantes para eventualmente acionar na Justiça os participantes em razão do conteúdo que pretendem apresentar no Summit.

“Pretendemos colocar a cada uma dessas pessoas a responsabilidade com a verdade, com a justiça, com a paz, com os direitos das mulheres e com a democracia”, destaca Vanja.

Ela ainda explica a necessidade dessas ações em proteção às mulheres: “Estamos em tempos muito difíceis, estamos lutando contra os assassinatos de mulheres, que acontecem de forma estúpida todos os dias. É um que passa o carro por cima, é um que joga do precipício, é o outro que esquarteja. Esses são assassinatos e violências que vemos. E aquelas que não vemos? As violências silenciosas, de tortura psicológica, de tortura emocional e de violência financeira que não saem no jornal?”, explica a presidenta da UBM, ao defender as ações da entidade.

Autor