A fome, o agronegócio, o meio-ambiente e o capital

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Apesar de grande produtor de alimentos, o Brasil vê a fome voltar

 Continuo na Europa a pedir encarecidamente para que se compre os meus livros, ainda que por caridade. Uso o argumento insuperável de que o produto da compra dos livros reverterá no aumento do consumo do vinho e, por consequência, em benefício do povo. No meu esperançoso, ingênuo e beato raciocínio de poeta, toda atividade econômica deveria reverter necessariamente para o bem-estar das gentes. De fato, de que vale a prosperidade e a riqueza de uns poucos às expensas da miséria, da fome, da desgraça e da desesperança dos muitos? O tema me veio à mente pelas notícias recentes de que a Organização das Nações Unidas (ONU) e diversos de seus organismos alertaram pelo retorno do Brasil ao infame mapa da fome no final de 2020.

Trata-se de mais uma tragédia imposta pelo abominável governo do Execrável Medonho ao povo brasileiro. Que tristeza. Que frustração. Em vez de resolver os problemas que se apresentam, agentes diplomáticos do fascismo brasileiro realizam seminários no exterior a promover a desinformação sobre o agronegócio no Brasil. Procuram os apologistas da devastação total demonstrar apenas um lado idiossincrático da equação econômica, sem tratar dos custos humanos, sociais e ambientais. É verdade que o Brasil tem hoje um rebanho bovino de 232 milhões de cabeças, 60 milhões de suínos e ovinos, centenas de milhões de frangos, e é o maior produtor mundial per capita de soja e milho, além de inúmeras outras mercadorias agrícolas. Como então explicar a fome?

 Ocorre que os produtos nacionais são direcionados ao comércio exterior. O Brasil fascista adota para o seu povo a mesma impiedosa e draconiana política que o Império Britânico praticava para a Índia, sua colônia até 1947: a eliminação de áreas produtoras de alimentos para o povo em detrimento do cultivo do ópio, destinado à exportação e contrabando para outros países, notadamente à China subjugada pela tanto brutal quanto desmedida força das armas e pelos tratados desiguais.

Assim, ganha a coligação dos fatores do agronegócio, a começar pelo Tesouro, que encaixa os ganhos cambiais das exportações e dos tributos; seguido pelo capital bancário, o qual financia as atividades; acompanhado pelas empresas de comércio exterior, ditas trading companies; dos fabricantes dos agrotóxicos; investidores rentistas e acionistas diversos; e pelos proprietários de terras. São igualmente responsáveis brasileiros e estrangeiros.

 No lado perdedor da equação, encontra-se o povo brasileiro, que tem dificuldades, agravadas pela pandemia e pela crise econômica de um governo tanto insensível quanto incompetente, irresponsável e inconsequente, ao ponto de não poder comprar arroz! Para o favorecimento pecuniário dos responsáveis nacionais e estrangeiros por tamanho descalabro, também são destruídas as florestas, são mortos os indígenas, acaba-se com a fauna, são mortas as abelhas, envenenam-se os rios.

O capital furiosamente ensandecido pelos putrefatos ventos do lucro incendeia o presente e inflama o futuro do Brasil. Tudo em nome do novo ópio: as mercadorias agrícolas exportáveis e os vários minérios, ditas commodities. Atrás da fétida e repugnante figura diabólica do Nefando Tinhoso, e das nuvens de enxofre que o acompanham, escondem-se muitos bancos e empresas multinacionais, igualmente responsáveis pelo crime que se comete no Brasil.

 Perguntam-me as minhas muito infiéis fãs e multidões de admiradoras arrependidas quando voltarei ao Brasil. Sinceramente, não sei. Enquanto meu editor, aquele velhaco sovina, pagar minha pensão e perdurarem os estoques de vinho na Europa, irei ficando por aqui. Hoje, chegará a Lisboa o meu amigo cantautor, cozinheiro e bon-vivant,  Beppe Molisano, acompanhado nesta ocasião de sua ficante oficiosa, Gigi Dell’Amore, a caminho a Itália, onde votarão pelo “NO” em o referendo constitucional inspirado pelas forças fascistas.

Beppe Molisano irá cantar na festa de aniversário do pai de seu amigo, Andrea Antonazzo, em Taranto, na Puglia, e conseguiu cobrar um cachê digno de Peppino di Capri. (Tanti auguri). Estas coisas só não acontecem comigo! De qualquer maneira, Beppe e Gigi me convidaram a ir com eles, por sua conta, naturalmente. Felizmente, o Beppe Molisano tem o bondoso coração de putanheiro e não aquele perverso do banqueiro, o cafetão do capital. Não perderei a boquinha.

Pedirei à grande chef, Carla Santos, da formidável Taberna dos Sabores, de Lisboa, que me prepare um farnel com suas insuperáveis pataniscas de bacalhau, para a viagem. Desta vez, irei com relutância dispensar o tradicional e generoso presente das garrafas de vinho do Douro, devido às conhecidas restrições de embarque aéreo. Buscarei o bálsamo noutras fontes, apelando à generosidade (?) da TAP.

 Ciao Italia, sono in arrivo!

Avanti o popolo! Alla riscossa! Bandiera rossa la trionferà!

Il fascismo non è una opinione, è un crimine!

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