Trump: a barbárie como estratégia

A humanidade não deve se desesperar, deve se preparar pra lutar, resistir e vencer. O futuro pertence às forças civilizatórias.

Donald Trump, presidente dos Estados Unidos | Foto: Chip Somodevilla / POOL

Em seu segundo mandato, Donald Trump já imprimiu pelo menos duas características salientes em sua gestão: sinceridade e improviso. A segunda vive colidindo com a primeira, fazendo o mandatário trocar com frequência uma sinceridade por outra. Com o Brasil foi esse o caso. Há quem veja método nisto. Não creio. Talvez seja só um vício de entretenimento.

Dois episódios em particular, neste quase um ano de mandato, fizeram os analistas de geopolítica se esforçarem ainda mais para entender qual é a estratégia de Trump e seu governo. Os ataques ao Irã e à Venezuela, neste último sequestrando o presidente Nicolas Maduro, foram suficientes para mostrar que não se deve duvidar das sinceridades de Trump e que seus improvisos podem ser levados às últimas consequências, mesmo sem saberem exatamente que consequências seriam essas. Detalhe: se o objetivo tático foi este, atingiram.

As motivações de Trump são já sabidas. A velha ordem mundial está de joelhos, com a falência do neoliberalismo e da unipolaridade sob hegemonia dos EUA, que marcou o mundo pós queda do Muro de Berlim. A questão em aberto é: essa gente que ocupou a Casa Branca tem mesmo um plano, com início, meio e fim, com controle de riscos?

Se sim, que plano seria este que envolveria além dos ataques diretos ao Irã e Venezuela, ameaças de anexação ao vizinho Canadá; escantear a União Europeia e seus membros das discussões estratégicas sobre os rumos econômicos e políticos, inclusive sobre a Ucrânia, humilhando-os publicamente; anexar retoricamente a Groenlândia, afrontando a Dinamarca e de novo a Europa; humilhar Zelensky ao vivo e a cores, selando a vitória da Rússia no conflito na Ucrânia; sobretaxar comercialmente aliados e adversários indistintamente, desorganizando o comércio mundial e uma delicada montagem de cadeias de suprimentos; e no ambiente interno, ir pra um tudo ou nada, assumindo poderes imperiais que nos fazem questionar se haverá eleições presidenciais pra valer em 2028 nos EUA. Até aqui, a consequência mais nítida disso tudo foi uma derrota acachapante no ambiente do Soft Power. A China e os BRICS agradecem.

Juntando as pontas soltas, pedaços de argumentos, sinceridades e blefes do governo Trump, e a sua Estratégia Nacional de Segurança, publicada em dezembro último, pode-se deduzir que seu MAGA e América Fisrt pretende dividir o mundo com a China. Já teriam entendido e até aceitado que a unipolaridade se foi para nunca mais voltar, mas a multipolaridade já seria demais pra Trump.

A doutrina Monroe 2.0 vai nesta direção. Trump quer tomar conta de forma cirúrgica do continente Americano, deixando as outras áreas do planeta sob controle compartilhado. Uma Guerra Fria 2.0, um novo Pacto de Yalta e Potsdan.

Se o plano for esse, como parece, trata-se de uma pretensão no quadrante do delírio. A China precisaria concordar em dar uma marcha ré no seu trem bala imparável, abrindo mão de suas relações e investimentos de longo prazo na América Latina e África também. E Taiwan, entraria como nesse “rolo”? E os BRICS, agora ampliados, seriam desativados?

Se o plano for este, faltaria também combinar com os Russos – sem trocadilho, que teriam que se contentar com a Ucrânia; com os países da Europa e até o Japão que deveriam se submeter a um papel menor, de subjugados. E o que fazer com o Irã? E não haverá resistência na América Latina? Os títulos da dívida pública dos EUA, na casa das dezenas de trilhões de Dólares, nas mãos de credores externos, fazem como? Calote?

O mundo como já está não se permitirá essa aventura. Uma outra ordem mundial ainda não está de pé, mas as marcações e posições geopolíticas multilaterais já estão bem alinhavadas.

Trump se reuniu com Xi Jinping em outubro de 25 na Coreia do Sul e anunciou avanços na seara comercial. Em abril próximo Trump vai a Pequim para uma nova rodada com Xi Jinping. Ainda em 26 está projetada uma visita do líder Chinês aos EUA. É indisfarçável que Trump quer levar para a mesa com o líder chinês uma conjuntura em que esteja provando sua disposição de usar seu aparato militar para “chutar o pau da barraca” e impor condições.

O plano de Trump é como o rugir de um leão velho e cansado, quase moribundo, mas que preserva presas afiadas, para tentar uma sobrevida. Ele e sua máquina de guerra podem causar muitos estragos, é verdade, mas nada superior ao que seria o retorno de um imperialismo decadente a uma posição protagonista. Seria a barbárie. Os ventos da civilização estão em sentido oposto às pretensões do trumpismo e seus asseclas. Sobrou-lhes a defesa descarada da pilhagem e do roubo da riqueza das nações.

A unidade global em defesa da soberania das nações e do multilateralismo ganha assim status de programa mínimo das forças civilizatórias contra a barbárie trumpista. A humanidade não deve se desesperar, deve se preparar pra lutar, resistir e vencer. O futuro pertence às forças civilizatórias.

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