A poesia de Evilásio Júnior atravessa memórias, ancestralidade e resistência, evocando vozes negras e populares que afirmam identidade, espiritualidade e liberdade em versos intensos e simbólicos.
Publicado 13/11/2025 15:54 | Editado 13/11/2025 15:55
Evilásio Júnior, nascido em Santa Inês, município do Maranhão, é poeta e professor. Graduou-se em Letras pela Universidade Estadual do Maranhão, é especialista em Literatura e Ensino e cursa Filosofia na mesma universidade. Tem participação em diversas antologias publicadas no Brasil, entre elas Novas vozes da poesia brasileira, publicada em 2024 pela editora Arribaçã. É autor dos livros de poesia Pulsões de vida e morte (2019) e Quando os tambores ancestrais pulsam nas retinas da noite (2025).
PANTERA
Sou da terra onde a pantera
Delineia com as unhas
O rugido na carne trêmula das invasões.
Sem medos nas garras,
Não me deixo prender.
As mandíbulas trazem as presas
De muitas gerações
Triturando os ossos
De quem invade meus domínios.
A língua áspera sente a superfície lisa
Da tua agonia
Derramando pelos poros calafrios.
Não sou animal de estimação.
Sinto a fragrância que grita
Ao longo de tua espinha
E libera fraquezas alojadas
Na medula.
As tuas armas não me abatem,
Quanto mais me ferem,
Mais forte eu fico.
ABRE CAMINHOS
O senhor dos caminhos
Abriu encruzilhadas
Em mim.
Ele me conduz
Por vales e vielas.
Passo sem ser visto
Aos olhos do inimigo.
O senhor dos caminhos
Fechou meu corpo,
Mas abriu meu espírito
Ao brilho do mistério.
É a chama vermelha da vela
Dançando nas madrugadas.
O senhor dos caminhos
Anda comigo
Sem ninguém ver.
UM CÂNTICO DIASPÓRICO PARA ACALENTAR AS TEMPESTADES
Da minha pele
os séculos não apagaram a cor
que as garras do esquecimento
tentaram arrancar.
As pegadas ancestrais redesenharam,
nesta geografia de silêncios,
o ritmo dos pés
na dança nômade do tempo.
Sou filho das travessias
que deixaram as noites suspensas
nos terreiros da memória,
feito os tambores da Casa das Minas
rufando, na insônia das retinas,
o movimento das horas em transe.
Trago, na garganta,
este cântico longínquo que afaga
o transatlântico afogado nos lábios,
enquanto o peito, cheio de inquietudes,
amansa as tempestades
antes que se transformem em naufrágios.
Escavo, na pele de ébano,
a diáspora que veste
o mapa da minha nudez
e transpira a febre dos dias
nas cores que vibram
no crepúsculo que brilha
no escuro dos meus olhos.
SENZALA
À penumbra dos fatos,
uma imagem esvanecida,
sem rosto,
me espreita.
Eu ainda transpiro,
respiro,
deliro.
Na carne,
um vendaval
de vozes
rege um cardume
de palavras
com o verbo
que não se calou.
O meu canto
não acalenta
os ouvidos
do sossego;
provoca abalos sísmicos
são os atávicos batuques
dos atabaques
a fazer a noite tremer.
Não é tarde
para lembrar
que labaredas pretéritas
queimam
na língua
o que de fato
não se aboliu.
Do calendário envelhecido,
nas folhas
das efemérides,
novas datas celebram
a luta que ainda não findou.
EM NEGRO SER
A tua subjetividade imposta
Não me refletirá
No espelho que esconde
A tua deformidade.
Tiro a pele do colonialismo
Com a lâmina secular
Guardada nas garras
De um guepardo.
Aquilombo o jeito de ser
Abrindo sendas
No coração da mata fechada.
Invento a existência
Em outros territórios
Sem esquecer a identidade.
Tiro do rosto
A persona do esquecimento
Enegreço.