O Maracanazo e a dissecação da alma do brasileiro

Entre memória, futebol e identidade nacional, o texto revisita a derrota de 1950 como trauma coletivo que moldou gerações e inspirou a redenção de 1958.

Ghiggia comemora o gol do Uruguai sobre o Brasil em 1950 | Foto: Divulgação/Conmebol

Uma das coisas que eu mais admiro em uma pessoa é a capacidade de cumprir com a palavra dada. Pois, se a palavra tem poder, se a palavra pode se tornar mágica e cumprir com profecias não escritas — aquelas que são muito maiores do que as do papel e do traço —, é porque elas se cumprem aos sons dos ventos e passam a ser grafadas no calor das passagens das horas. E é por isso que eu admiro o Pelé, porque ele foi capaz de cumprir a sua promessa falada ao seu pai: uma promessa que fez quando tinha apenas nove anos, em 1950! A de lhe dar uma taça de campeão do mundo, uma Copa, um sobrenome.

E foi com essa marca de uma criança, que queria consolar o desespero sentido de seu pai diante da derrota mais humilhante da vida, que fomos campeões pela primeira vez, em 1958. Graças a Deus, o pai do Pelé falou o que estava sentindo e por que estava sentindo aquilo para o filho. Imagina se o Dondinho resolve ficar quieto, guardar seus sentimentos para não ferir o menino e engolir o seu choro, o soluço e sua melancolia? Não seríamos campeões em 1958, porque aquela vitória teve o gosto da redenção, não apenas de Dondinho pelo seu garoto, mas de todo um povo, de toda uma nação. Eu suspeito dizer que foi o nosso título mais importante, dado pelo maior time de todos os tempos.

Naquele momento em que o pai do menino Edson quebrou totalmente as regras da masculinidade cafona brasileira de que homem não chora, o Brasil estava sofrendo o pior revés de sua história, só superado décadas e décadas depois pelo 7×1 para a Alemanha em 2014, também em solo pátrio. Aliás, se algo teve de bom na derrota humilhante, acachapante, estrondosa, vergonhosa e patrona do golpe de 2016, foi a libertação do goleiro Barbosa e de sua equipe como um todo. Depois dessa derrota, eles puderam descansar em paz no além, porque agora ninguém mais os associaria ao Olimpo dos perdedores. Eles não teriam mais que carregar a cruz da frustração de um povo colonizado e subjugado, oprimido e sem total preparo educacional — um povo que nunca ganhou um Nobel, vira-lata, subdesenvolvido, com um país feito de eterna fazenda do mundo, em que reina uma estrutura medieval colossal e careta.

Ah, Copa de 1950! Nossa chaga mais pura e estranha! Tínhamos o melhor time, a melhor equipe e toda a torcida! Estávamos fazendo uma Copa tão linda, o povo sorria, as bandeiras festejavam nossos delírios, enquanto a Europa ainda tentava renascer da Segunda Guerra Mundial e enterrar as dores profundas que os nazistas arranharam no chão daquela terra. Aqui tudo parecia festa, um povo contente; o sol aquecia os corações quentes e o mito da igualdade racial prosperava. Finalmente mostraríamos para o mundo o que éramos: um povo acolhedor, de braços abertos em um país que se dizia ser o paraíso no planeta, sem guerras e sem violência contra as etnias minoritárias. É claro que escondíamos as prisões, perseguições, censuras e opressões feitas pelo regime Vargas em apoio aos fascistas na Europa. O importante era o colorido que tomava as ruas e a imaginação que se formava de um povo e de um país através do futebol.

Mas no futebol nem sempre os melhores vencem, e é por isso que esse esporte é tão significativo e maravilhoso: o feio, o pobre, o fraco, o derrotado, o menor, o humilhado, enfim, todos os perdedores podem vencer e gravar o seu nome nos anais da história. No caso aqui, o menor era o Uruguai, que chegava quietinho e desacreditado para a final. O futebol não perdoa os que se dão por vencedores antes do apito final, antes dos 90 minutos se findarem. Essa é a grande lição desse esporte: quem acredita que já está ganho, geralmente quebra com gosto a cara! Infelizmente foi o que aconteceu com o Brasil — não necessariamente os jogadores, coitados, porque esses foram arrastados pela onda delirante que tomava as ruas, as arquibancadas, as mansões e as favelas, os bares, as praças, a mídia barata e principalmente os políticos: todo mundo acreditava que o Brasil já era vencedor! Os jornais estampavam que só não sabiam de quanto seria a vitória, os deputados prometiam horrores aos jogadores (carro, apartamento, casa na praia) e os dirigentes os tratavam como heróis de um destino que depois se mostrou abortado.

Nada pode se assemelhar à tristeza daquele 16 de julho de 1950; talvez se compare a esse dia a morte de Ayrton Senna. Sim, senhores, a tristeza daquele dia foi tão violenta que ganhou até um nome próprio: Maracanazo. Imagina uma final que levou uma cidade de 200 mil habitantes para dentro de um estádio, uma equipe que goleou todo mundo com a vantagem de um empate, e essa equipe ainda faz o primeiro gol! Puxa, nada poderia abalar a chama final e heroica daquela tarde. Nem quatro minutos seriam suficientes para o desespero. Pois bem, o Uruguai acreditou antes de tudo em si mesmo e não deu ouvidos aos burburinhos felizes que envolviam toda aquela parafernália teatralizada feita para carregar nos braços os filhos da terra. Porque o jogo só acaba quando termina. Porque o futebol é dos que não desistem. É dos que guerreiam até o fim e não dos que se deslumbram com o blablablá.

Obdulio Varela, Ghiggia e Gambetta comandaram a virada desde o meio de campo. A bola foi rasteira, Ghiggia passou por Bigode e jogou no canto; Barbosa não chegou nela e decretou o seu próprio enterro para a vida, sem que merecesse isso. A cidade de 200 mil habitantes de repente parou. Olhou incrédula: não era possível, já éramos campeões! Naquele instante houve uma parada no movimento de rotação do planeta Terra, e o que era uma festa interminável se transformou num imenso velório: gigante, denso e eterno. Num primeiro momento, não houve choro, mas olhares totalmente descompassados. Onde estávamos? O que fazíamos ali? A boca entrava mosquito ou caía de queixo nas mãos que tentavam tapá-la do desatino. Como poderíamos? Não, não, isso não estava acontecendo, o Brasil tinha o melhor time, tinha goleado todos, já tinha vencido exatamente esse mesmo Uruguai na competição, tinha a vantagem do empate… Não conseguimos mais jogar depois do gol de Ghiggia. O terror tomou conta de todos, os jogadores ali intuíram que o apito final decretou não apenas a derrota, mas o próprio fim de todos para o futebol, para a vida e, o pior, para a história.

Quando o apito encerrou a partida, não se viu nenhuma festa dos campeões do mundo; nem eles conseguiram comemorar, porque o que se desencadeou ali foi um grito coletivo de desespero. Todos choravam, muitos se jogavam das marquises, outros se debatiam e alguns se olhavam totalmente perdidos, como se não entendessem o que ali ocorria. A taça daquela Copa do Mundo foi entregue ao Uruguai com total constrangimento, de modo que até os jogadores dessa seleção ficaram sem reação. Ao saírem do estádio, o velório e o choro lancinante continuavam nas ruas e nas esquinas. Os jogadores do Uruguai se recolheram silenciosamente em seus aposentos, sem saber o que fazer com aquele prêmio que agora parecia uma maldição.

Ficaram quietos pelo resto do dia, como se esperassem a dor coletiva acabar. Foi quando Obdulio Varela, o capitão, resolveu sair um pouco para espairecer e dar uma volta. Parou em um bar para tomar uma quando viu um homem extremamente triste, chorando como um menino. Mais uma vez o futebol foi capaz de quebrar essa regra indigesta do Patriarcado, pois, pelo futebol, o homem chora e chora com devoção. O homem gritava: “Aquele Obdulio acabou conosco! Buáaa!”. O dono do bar não titubeou: “Olha, o Obdulio está aqui, olha ele aqui!”. O capitão daquela virada subitamente gelou. O que aquele homem faria consigo ao descobrir que estava de frente para o seu carrasco, para o carrasco de sua dor? Ele gelou de corpo inteiro. Poderia sair morto. Poderia sair dali bastante machucado ou pisoteado, xingado por todos os instantes. Mas não: foi quando esse brasileiro triste, solitário e ferido fez o gesto mais lindo de todo o mundial e talvez de todas as Copas — ele abraçou o Obdulio com todo o amor e, ali os dois choraram juntos, numa sinfonia compartilhada em que a vitória e a derrota pareciam se tocar na face como o abismo se olhando no espelho.

Anos mais tarde, Ghiggia diria que, se pudesse voltar atrás, faria um gol contra. Eu, se pudesse, levaria Ghiggia ao Maracanã para ele fazer esse gol contra diante de 200 mil pessoas novamente, enquanto Barbosa aplaudiria e sorriria finalmente, e todos os homens tristes da Terra pudessem se abraçar e abraçar os seus inimigos sem nenhuma promessa a ser cumprida, apenas celebrar um jogo como uma criança.