Em tom poético, crônica retrata procissão popular que reúne gerações, símbolos de resistência e o sonho persistente de igualdade social.
Publicado 12/02/2026 15:54 | Editado 12/02/2026 15:55
Uma multidão tomava as ruas. Tambores, adereços e faixas ganhavam vozes. O homem de uma perna e oito décadas seguia em procissão no eixo da rua, como se abrisse caminhos. Como se fosse o próprio caminho a ser seguido.
Apoiado em uma muleta, o homem de uma perna empunhava uma bandeira e fazia dela uma dançarina. A bandeira se contorcia como se estendesse braços e pernas para tocar os céus. Seguíamos em procissão.
O menino deveria ter uns nove anos, tinha uma mecha loira no cabelo, quase imperceptível. Apareceu sozinho, como se estivesse me procurando. Segurava um tambor que mais parecia uma bolsa canguru. Caminhamos lado a lado.
Uma senhora de pouca carne e pouco tamanho, muito atenta, seguia em procissão. Lembro dela falando do que não sabia, mas que ensinava muito: “é aquele povo que defende a igualdade”, referindo-se aos comunistas. Empunhava um sorriso — daqueles que a gente leva para o travesseiro.
Eram quase seis horas da manhã quando acordei. A procissão estava desfeita. Os sonhos continuavam presentes. O homem de uma perna, o menino de nove anos e a senhora que empunhava sorrisos seguiam comigo.