23 de Agosto de 2017 - 9h13

Lula e a esperança

Urariano Mota *

A maior liderança popular do Brasil – mais de um brasileiro diria que de toda América Latina, e mais de um latino diria que de todas Américas, e mais de um pernambucano diria que de todo o mundo -, ou em resumo com modéstia, o ex e futuro presidente Lula está de volta ao Recife. De volta, é só um modo de dizer. Ninguém reencontra o mesmo rio, mas me refiro a outro sentido também.


Quero dizer, Lula encontra um Pernambuco devastado, numa decadência profunda que é bem o retrato do Brasil. Aqui, em matéria de desgraça humana e material, Pernambuco reflete todos os lugares brasileiros. E acompanha, quando não lidera, as consequências do golpe que sofremos, de anulação de todos os direitos e garantias.

É nesta cidade do Recife que Lula vai ao comício hoje à noite. É nesta terra, onde por felicidade e fado suportamos a tempestade do desgoverno Temer, que Lula procurará dividir conosco o recomeço de um novo tempo. E no entanto é curioso o quanto alguns intelectuais, na pureza das mais puras concepções, não veem a urgência desta empreitada. Eu me refiro, entre outros, a Vladimir Safatle, que tem feito um trabalho de plantar urtigas no mato a ser limpo. Hoje, no artigo “Não haverá 2018”, ele nos ensina do alto do posto de filósofo acadêmico: “Neste sentido, pautar todo debate político atual a partir do que fazer em 2018 é simplesmente uma armadilha para nos prender em uma batalha que não ocorrerá, para nos obrigar a naturalizar mais uma vez uma forma de fazer política, com seus ‘banhos de Realpolitik’, razão mesma do fracasso da Nova República e dos consórcios de poder que a geriram.

Melhor seria se estivéssemos envolvidos em um luta clara pela recusa dos modelos de ‘governabilidade’ que nos destruíram”.

Antes, ele havia sido mais claro ou menos cauteloso:

“ Como se fosse apenas um acaso, no dia seguinte à aprovação da reforma trabalhista o Brasil viu o artífice deste reformismo conciliatório, Luiz Inácio Lula da Silva, ser condenado a nove anos de prisão por corrupção....”

Nesta semana, em vídeo ele se estendeu mais aqui 



Nele, podemos concluir que o filósofo é arrogante. Como podemos descartar a bandeira que é a volta de Lula? È no mínimo um erro achar que do interior do nosso complexíssimo saber poderemos pautar a realidade. Por um lado, Safatle fala da esquerda como se fosse o "grilo falante", a consciência moral e última da esquerda. Mas de fora, à parte, numa gauche lunar. Isso enquanto cita de passagem Tocqueville. Por outro lado, é tão pretensioso, que vaticina, profetiza que não haverá 2018. Ele quer parar o tempo? Não seria mais prudente conhecer Alceu Valença na composição Embolada do Tempo?



Era bom e de melhor filosofia que o intelectual circulasse na periferia de São Paulo, nos grupos de poetas da periferia, no seio dos movimentos sociais que não desceram suas bandeiras. E, naturalmente, que voltasse à leitura da poesia, do romance, para não se conformar à perspectiva da nossa derrota como um destino.

Enfim, queiram os iluminados ou não, Lula está de volta. E seja o que o povo quiser.

* Jornalista do Recife. Autor dos romances “Soledad no Recife”, “O filho renegado de Deus” e “A mais longa juventude”.

* Opiniões aqui expressas não refletem necessariamente as opiniões do site.


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