30 de Outubro de 2017 - 10h01

Bolsa Família e a teoria motivacional de Temer

Luciano Rezende *

Recebo pelo WhatsApp uma daquelas mensagens que instantaneamente nos leva à reflexão.


De um lado, 24 bilhões de reais para atender 14 milhões de famílias beneficiadas pelo Bolsa Família. Do outro, 24 bilhões (na verdade, os números atualizados chegam a 34 bi) para beneficiar apenas uma pessoa: Temer.

Mas o mais intrigante é que milhões de brasileiros que em um passado recente denunciavam o Bolsa Família como um projeto de poder que visava a compra de votos dos mais humildes, se calam agora quando Temer compra duas centenas de deputados para se manter na Presidência.

Ao contrário do Bolsa Família em que toda a sociedade era beneficiada com o aquecimento da economia, quem se beneficia com a manutenção de Temer no poder é apenas uma ínfima parcela da elite rentista.

Essas são algumas entre várias outras contradições do pensamento conservador que parte expressiva da população brasileira incorporou e parece ser refratária a uma reflexão mais imparcial.

Certo dia me deparei com um velho amigo que se formou no curso de Administração de Empresas e já nos primeiros instantes veio com o velho mantra de que o Bolsa Família acomodava as pessoas. Retruquei lembrando outro mantra da própria Administração de Empresas: a teoria motivacional de Maslow.

Essa teoria é ensinada como sendo uma verdade absoluta e, grosso modo, é simbolizada por uma pirâmide onde sua base representa as chamadas necessidades fisiológicas, ou seja, as necessidades que todos temos de saciar nossa fome e sede, de dormir o mínimo necessário, de respirar um ar sem tóxicos, etc.

Uma vez atendidas essas necessidades, o trabalhador em geral vai buscar atender uma outra categoria de necessidades: as de segurança. Esse nível da pirâmide de Maslow representa a luta por moradia digna, por estabilidade no emprego, por um plano de saúde privado, entre outros.

Mais uma vez conquistados esses direitos, o cidadão vai buscando outros elementos tais como um ambiente de trabalho com bom relacionamento, o respeito e a valorização pelo seu trabalho até chegar ao ápice que seria a plena realização pessoal e profissional.

Desta forma, de acordo com a teoria motivacional de Maslow, em geral, ninguém se contenta a trabalhar recebendo uma quantia similar ao Bolsa Família. Pelo contrário, é despertada a querer sempre a subir mais nos degraus da pirâmide imaginária formulada por este autor.

Mas quando o assunto é política pública voltada para os mais miseráveis, toda e qualquer convicção acadêmica, por mais rasteira que seja, sai de cena para dar lugar aos preconceitos movidos pelo senso comum.

Enquanto isso, uma outra pirâmide imaginária pode nos ajudar a entender o que motiva Temer continuar no poder: na sua base, uma quadrilha que se vende em troca de seus interesses fisiológicos, passando pela segurança de não serem atingidos pela Lava Jato, até a realização pessoal de se figurar no topo de uma aristocracia movida pelos valores mais torpes e imorais desta nova fase do capitalismo rentista, parasitário e improdutivo.

* Diretor de Temas Ecológicos e Ambientais da Fundação Maurício Grabois
É professor na Universidade Federal de Viçosa, campus Florestal.

* Opiniões aqui expressas não refletem necessariamente as opiniões do site.


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