Brasil

11 de setembro de 2017 - 18h04

Cenas explícitas de luta de classes


   
Obviamente, ao decretar o fim da história, Fukuyama estava, ao lado dos vencedores, declarando a vitória e supremacia do Império perante os povos explorados e os trabalhadores de todo o mundo. Batia de frente com as concepções marxistas que apontavam a luta de classes como motor da história.

Além dele e da direita neoliberal de todo o mundo, partidos de esquerda também passaram a desacreditar num futuro justo para a humanidade e, a partir daí, concepções niilistas, individualistas, pós-modernas e multiculturalistas foram tomadas - mas todas partindo de um princípio: fomos derrotados no que de mais profundo poderia existir, que era uma transformação do modelo econômico-social de desenvolvimento do mundo.

Essas concepções nos tornaram cada vez mais reféns de disputas no seio da sociedade de cunho liberal - direitos às individualidades, aos costumes e ao consumo - em detrimento da luta de classes, que nunca foi praticada de maneira escamoteada, pelo contrário, sempre precisou derrubar símbolos (como o Muro de Berlim), derramar sangue e castigar os derrotados.

Quando Zumbi dos Palmares foi assassinado, em 20 de novembro de 1695, como exemplo para os outros escravos, exibiram sua cabeça em plena praça pública, para que ninguém mais ousasse levantar-se contra os desmandos da Coroa. Assim também aconteceu quando a burguesia ascendeu ao poder na França, decapitando do imperador Luís XVI.

Esses exemplos servem apenas para ilustrar que luta de classes, embora também atue no seu modo soft através dos aparelhos ideológicos não é feita com subterfúgios; quando se tem força para executar os seus objetivos, a classe hegemônica não titubeia.

Aqui no Brasil, portanto, a luta de classes nos últimos tempos tem se dado da maneira mais explícita possível. Quem achava que o impeachment fraudulento da presidenta Dilma representava uma troca de governantes apenas, ou que era um golpe contra o PT, ou até mesmo para acabar com a corrupção, deve(ria) passar a perceber os verdadeiros objetivos do golpe.

Em um ano de governo ilegítimo - patrocinado pela mídia golpista e setores de corporações do estado - várias já foram as ações que desnudam o caráter de classe impresso nesse processo de ruptura democrática pelo que o Brasil passa. De um ano pra cá, uma quadrilha apeou o poder da República para tentar executar o que o "mercado" lhe delegou: entregar o Brasil de bandeja e novamente inseri-lo na cadeia capitalista de maneira subalterna, umbilicalmente ligado aos interesses do decadente império estadunidense. As medidas que acabam com direitos do trabalhador tais como a Reforma Trabalhista, a Reforma da Previdência e Terceirização são medidas de tamanha violência - real e simbólica - que nem a Ditadura Militar foi capaz de fazer e, obviamente, para dar durabilidade a essas medidas é preciso acabar, tal qual as estátuas de Lênin ou de Stálin, com os nossos símbolos e com a esperança do povo brasileiro de retomar o crescimento soberano e justo.

As mais recentes investidas contra Lula são provas de que na luta de classes não se brinca. E é preciso dizer: não se combate a luta de classes no nível de radicalização em que ela se encontra com cirandas e dinâmicas de grupo; se combate com politica, política como arte, política como guerra, como guerra de trincheiras, buscando espaço, tentando dividir o inimigo e sobretudo acumulando forças para o ataque que por mais que queiramos não tem nenhuma condição de ser dado agora.

O golpe, por mais que atrapalhe essas políticas, não é homofóbico ou racista por si só. O golpe é classista e nos passa uma mensagem: nunca mais ousem governar esse país. Por isso, é preciso acabar com qualquer chance de a esquerda voltar. Daí ser tão explícitas as medidas que fazem contra Lula e a venda do nosso patrimônio, marcas profundas de gado no lombo do nosso país, com o selo bem grande dos EUA.

Quisera eu que também pudéssemos ter impresso a nossa marca com maior profundidade. Infelizmente, o caminho de distribuição de renda apenas, ou da "questão social" sem tocar na estrutura do estado e no caminho da soberania nacional tendo e vistas o socialismo possibilitou que nossas mudanças fossem leves como o vento. Aos poucos, iremos nos desfazendo de todas elas. O Brasil já voltou ao mapa da fome e é cada vez mais crescente o número de trabalhadores informais e moradores de rua nas cidades de nosso país.

Por isso, em tempos difíceis como este em que vivemos - tempos de cenas explícitas de luta classes, que é vivida em tabuleiro internacional - é preciso atuar explicitamente também. Fazer luta de classes no parlamento, nas ruas e onde mais puder ser. Sem essa perspectiva bradaremos incansavelmente nossas consciências e nosso radicalismo sem adentrar no cerne da questão: como transpor o regime golpista?

Pra mim, só ultrapassaremos esse estágio da luta de classes com muita amplitude, trazendo para o lado de cá quem puder trazer. Ao longo desse caminho, ficaremos alguns, eliminaremos outros, mas só uma grande frente nacionalista, desenvolvimentista e consciente da árdua missão que nos cabe poderá superar a ignomínia a que submetem o nosso país dia a dia.

Vamos à luta!


*Nilson Vellazquez é professor da rede pública e secretário de formação do PCdoB de Pernambuco.




 Fonte: Blog Verbalize

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