Ênio Silveira, o editor de O Capital no Brasil

Há 145 anos, no dia 17 de julho de 1867, Karl Marx publicou sua principal obra, O Capital, cujo objetivo era “descobrir a lei econômica do movimento da sociedade moderna”, conforme ele escreve no Prefácio. Mas, no Brasil, a obra só chegou no século passado.

Por Carlos Pompe*

Ênio Silveira

Trechos do livro fizeram parte de seleções de textos de Marx até que, nos anos 1960, Ênio Silveira publicou não apenas o livro I, mas também os volumes II e III, preparados por Friedrich Engels, e IV (Teorias da Mais Valia), preparado por Karl Kautsky. Todos com tradução do baiano Reginaldo Lemos de Sant'Anna.

A saga editorial dO Capital em terras brasileiras foi curiosa. Justamente sob o regime mais obscurantista da república, a ditadura terrorista que sufocou o país de 1964 a 1985, o livro magno de Marx foi publicado na íntegra pela primeira vez. E sua segunda tradução, coordenada por Paul Singer, foi distribuída às bancas de revista de todo do país, integrando a coleção Os economistas, da Editora Abril, quando era lembrado o centenário de morte do autor. Os rascunhos da obra, conhecidos como Grundisse, só ganharam edição brasileira, vertidos ao português por Mario Duayer, em 2011 (Boitempo Editorial).

A coragem editorial de Ênio Silveira, que era filiado ao Partido Comunista (ficou com o PCB, de Prestes) merece ser lembrada, nestes períodos em que o país tenta recuperar sua memória história. Ênio nasceu em 18 de novembro de 1925. Assumiu a direção da Editora Civilização Brasileira em 1948. Entre 1964 e 1969, foi preso sete vezes. Os militares golpistas ainda bloquearam seu acesso aos bancos. Mesmo assim, continuou publicando pensadores marxistas e oposicionistas. Não se limitava à edição de obras políticas. Publicou artistas como Dalton Trevisan e Domingos Pellegrini Jr; bancou a tradução de Ulisses, de James Joyce, por Antonio Houaiss.

Várias de suas edições foram apreendidas pela ditadura, causando-lhe prejuízos financeiros irreparáveis e prejudicando (na verdade, uma tentativa de impedir) a inteligência nacional. Trouxe ao Brasil obras de Antonio Gramsci, Bertolt Brecht, György Lukács, Júlio Cortazar, F. Scott Fitzgerald, Manuel Scorza, Franz Kafka, William Faulkner. Publicou também Nelson Werneck Sodré, Carlos Nelson Coutinho, Leandro Konder… Dentre as coleções que a Civilização Brasileira lançou, marcaram época os Cadernos do Povo Brasileiro e o Violão de Rua, onde saiu o poema de Vinícius de Morais, o Operário em construção.

Para ter uma gama tão grande de títulos, fazia também seus truques. Artur José Poerner conta, sobre a publicação de seu O poder jovem, história da participação política dos estudantes brasileiros, em 1968: “Em 28 de março, o assassinato do estudante paraense Edson Luís de Lima Souto, numa invasão policial do restaurante do Calabouço, me obrigou a escrever uma Nota Complementar ao livro. E o Ênio, sem qualquer ressalva aos originais, me comunicou que, com o agravamento da situação, o livro, já com o prefácio escrito por outro querido amigo, o dicionarista Antonio Houaiss, precisaria de mais um texto, uma espécie de salvo-conduto que garantisse a sua circulação. Rejeitei os nomes inicialmente aventados para um segundo prefácio, dos governadores de Minas Gerais, Magalhães Pinto, e de São Paulo, Abreu Sodré. Acuado, acabei solicitando o texto ao general nacionalista Pery Constant Bevilaqua, que, pelos seus votos liberais, acabaria punido pelo Ato Institucional nº 5. O prefácio de Houaiss virou apresentação”.

Ao longo de sua vida, encerrada em 11 de janeiro de 1996, editou cerca de 6 mil livros. A Editora Civilização Brasileira, em dificuldades econômicas, acabou sendo comprada por Alfredo Machado, da Editora Record, que continua lançando novas edições de O Capital.

*Carlos Pompe é colunista do Vermelho