Robert Parry: Chega ao fim a rede “Current TV” de Al Gore 

A história da rede e canal Current TV, de Al Gore, que agoniza, deve ser estudada detalhadamente como caso exemplar, por todos os progressistas interessados em aprender o que não fazer na criação e gestão de um veículo de imprensa comercial.

Por Robert Parry*


A empreitada foi fracasso em praticamente todos os aspectos. A única contribuição que deixa aos pósteros parece ser o fato de que será comprada pela rede Al Jazeera – com o que essa importante voz do mundo islâmico conseguirá, como se espera, pôr, afinal, um pé nos EUA.

O principal erro que Al Gore e seu sócio, Joel Hyatt, cometeram aconteceu logo na fundação do canal Current, em 2004-05, quando o canal deliberadamente fugiu da disputa que, então, era a mais acirrada luta subterrânea pelo futuro dos EUA; e o canal optou por não se contrapor à estratégia do presidente George W. Bush, para construir uma maioria Republicana permanente no Congresso.

Gore, especificamente, esqueceu qualquer inclinação democrática que o novo canal e rede pudessem ter, prometendo que seria “voz independente” focada em jovens adultos de 18-34 anos, para dar-lhes “uma voz que eles próprios reconhecessem e um ponto de vista que reconhecessem como seu”. O plano era criar uma MTV, com um pouco de consciência social.

Gore e Hyatt cuidaram de instalar a base do novo canal e rede em San Francisco, cidade agradável para morar, mas, francamente, péssima opção para base de rede de televisão, distante 3.000 milhas – e com três horas de atraso – em relação aos centros de notícias de New York e Washington. Ao instalar a sede na Bay Area, o canal e rede Current TV seguiram a tendência dos veículos progressistas, de escolher endereços simpáticos na retaguarda, em vez de tentar disputar cada palmo de terreno nas trincheiras já superlotadas da chamada “mídia dominante”.

Naquele momento, o povo dos EUA enfrentávamos uma das mais ferozes ameaças que jamais houve contra nosso futuro político – estratégia ousada concebida por Karl Rove e outros agentes operadores dos Republicanos para assumir controle total sobre a opinião nos EUA e empurrar o país para uma direção violenta, cruel, de direita, pode-se dizer, doentia. E o ex-vice-presidente e porta-estandarte dos Democratas de 2000 – conscientemente impediu que seu novo canal de TV e sua rede se envolvessem naquela disputa.

Ter evitado a disputa poderia ser boa estratégia negocial – se tivesse gerado bons negócios – mas nem isso se viu. E foi, isso sim, ato bem visível de covardia política. Em 2005, quando o canal e rede de televisão Current afinal foram ao ar, o povo norte-americano desesperadamente precisava de alguma voz de coragem que se opusesse aos desmandos de Bush e aos abusos do poder; de alguém que, inclusive, se opusesse à campanha midiática pró-guerra do Iraque e às violências que o governo Bush cometia contra as proteções constitucionais fundamentais, como o direito de habeas corpus e a proibição contra a tortura, da qual se falava sob a fórmula “punição cruel e não usual”. Tortura, é claro.

Bush e a Direita também pouca atenção davam ao aquecimento global e outras ameaças bem conhecidas.

A rede de televisão de Gore poderia ter-se engajado ativa e agressivamente nesses fronts de batalhas políticas; poderia ter oferecido informação histórica relevante; poderia ter revelado à opinião pública abusos muito mais amplos do poder político por Republicanos, de fato, desde os dias do senador Joe McCarthy, passando pelo presidente Richard Nixon, pelos crimes de Ronald Reagan e de George H. W. Bush; dentre outros crimes, por exemplo, a tolerância com os traficantes de cocaína que constituíam as gangues de “rebeldes” dos Contra, na Nicarágua.

Gore poderia ter mostrado efetiva e significativa independência de opinião, se noticiasse que também os Democratas muito contribuíram para a prática de crimes assemelhados aos dos Republicanos, durante os anos imediatamente posteriores à 2ª Guerra Mundial – crimes por comissão e por omissão.

Público audiente e telespectador mais jovem talvez apreciasse conhecer fatos e provas que jamais foram objeto de notícias nos EUA; mais adequadamente bem informados, os mais jovens talvez encontrassem meios e modos eficazes para pôr a política dos EUA em rota mais segura. Com certeza o tal “público-alvo entre 18-34 anos” teria noção mais clara e mais bem informada sobre verdadeira batalha que se trava à volta deles, contra uma estrutura de poder que absolutamente não será modificada – sequer cosmeticamente, que fosse! – só porque algum sujeito “midiático” põe-se a exibir filminhos documentários sobre “cuidar do planeta”.

Bush, o Todo-Poderoso

Soa estranho, quase inacreditável, hoje – quando o presidente George W. Bush é tratado como rematado fracassado, político que não foi convidado, sequer, para a Convenção Nacional dos Republicanos! Mas há oito anos, Bush estava no comando de uma nave-monstro de guerra completamente ensandecida, que apavorava o mundo; e que calou muita gente. Calou, sobretudo, muitos políticos e jornalistas e analistas e “especialistas” que preferiram o silêncio cúmplice e covarde, a perder uma tal pressuposta “credibilidade”, que a mídia dominante lhes dava, ou negava.

Por isso, a tarefa de explicar à opinião pública a estrutura política dos EUA deixou de ser função da imprensa-empresa comercial dominante. E passou a caber, como missão e dever a uma meia dúzia de blogs e páginas internet, entre os quais esse nosso Consortiumnews.com, que sobrevive de doações de cidadãos e sempre enfrentando dificuldades financeiras, o trabalho de desmentir, de desmascarar a opinião-feita, a “opinião-geral-da-imprensa-e-dos-intelectuais-midiáticos”. Passou a caber-lhes o trabalho de argumentar contra a opinião convencional sobre a guerra do Iraque; produzir e distribuir informação indispensável sobre o contexto histórico – único meio pelo qual os EUA teriam meios para entender o próprio descaminho.

Naqueles anos cruciais, a televisão de Gore, Current TV, captou muitos milhões de dólares dos poucos que há para financiar jornalismo que não seja o “jornalismo-empresa-das-empresas-comerciais-de-mídia”, mas, correspondentemente, produziu muito pouco que pudesse, de fato, fazer alguma diferença na luta pelo futuro político dos EUA.

Ironicamente, o primeiro fruto do caminho de abertura jornalística que Gore desperdiçou foi gerado por um ramo “midiático” da General Electric, membro fundador do Complexo-Militar-Industrial nos EUA.

A rede MSNBC, outra rede de televisão a cabo, tentou, por algum tempo, disputar espaço contra a direita ocupada pela rede Fox News. Mas em 2003, na preparação para a guerra do Iraque, a rede MSNBC demitiu o popular Phil Donahue, que se atrevera a entrevistar alguns militantes antiguerra em seu programa. Em seguida, durante a invasão, a rede MSNBC já produzia os mais deslavados vídeos de propaganda, em que se viam soldados dos EUA “libertando” o Iraque, exatamente o que a Fox também fazia.

A rede MSNBC, como vários outros veículos da “grande” imprensa, censurou cuidadosamente imagens de civis iraquianos mortos e de criança feridas nos hospitais superlotados, para não abalar a histeria jingoísta generalizada que rapidamente se convertia em picos de audiência e, daí, em ouro, em caixa. Mas os executivos perceberam rapidamente que a Fox já cercara completamente o mercado do público mais conservador; e os super-quase-patriotas da rede MSNBC foram obrigados a tentar outra estratégia.

Essa estratégia emergiu pela voz singular de Keith Olbermann, ex-comentarista de esportes que transformou seu programa “Countdown”, transmitido pela MSNBC, que chegou ao topo de audiência ao mesmo tempo em que crescia a guerra no Iraque, em programa imperdível para os norte-americanos preocupados com o rumo que Bush estava impondo ao país.

Homem de temperamento forte, Olbermann várias vezes deu provas de coragem, desafiando abertamente o governo Bush e a rede Fox News – e provou que seu estilo combativo, embora erudito, podia penetrar também as casamatas do conformismo político que predominava, de meados até o final da década. Todas as noites, Olbermann atacava a falsa versão da “Missão Cumprida” de Bush, contando, dia a dia, o tempo de duração da guerra, mesmo depois daquela declaração ensandecida.

Os índices de audiência, que comprovavam o sucesso crescente do trabalho de Olbermann, convenceram os executivos da rede NBC Universal a aumentar o número de programas progressistas na grade da programação diária, o que converteu a MSNBC em contraponto do noticiário da rede Fox News e expôs, como ocos e irrelevantes, os esforços da CNN para parecer “isenta” e “equilibrada”.

Mas discussões e discordâncias cada vez mais frequentes entre Olbermann e a direção da rede MSNBC levaram Olbermann a demitir-se em janeiro de 2011, mas seu legado permaneceu, duradouro e profundo. Naquele momento, Bush já era universalmente considerado um dos piores presidentes de toda a história dos EUA; e guerra do Iraque já estava definida como trágico fracasso, e a rede MSNBC recebia milhões de preferências dos telespectadores, cansados da escandalosa propaganda da direita, pelo canal Fox; e do ridículo falso “equilíbrio” da rede CNN.

Só depois que Olbermann deixou a rede MSNBC – e depois de a escandalosa máquina de promover guerra de Bush-Rove-Fox já estar em boa parte desmoralizada – é que Gore e o canal Current TV decidiram abandonar o formato “MTV-com-alguma-consciência-social” e optar por programação política mais adulta e densa. O canal Current contratou Olbermann para dirigir o setor de jornalismo e noticiário e para dar continuidade ao seu programa, mas rapidamente a proposta esvaziou-se, por causa da produção pobre e dos valores políticos capengas de toda a rede; em março de 2012, Olbermann deixou a rede Current.

A dura e inescapável verdade sobre o canal de televisão que Gore criou, Current TV, é que deixou passar o momento histórico e, assim, perdeu a oportunidade de oferecer comunicação comercial e de massa que realmente operasse a favor de melhor futuro político para os EUA. Gore e sua rede supuseram que estariam fazendo algum bem à sociedade por não atacar empenhadamente as forças que atuavam então exclusivamente para esmagar qualquer pensamento político progressista e o próprio espírito democrático nos EUA.

A ideia foi que a rede se afastaria da “sujeira” do mundo político, tanto em termos políticos quanto em termos geográficos, instalando-se o mais longe possível de Washington, dando destaque ao belo e ao positivo, não ao feio e ao negativo.

Difícil imaginar erro mais grosseiro, de planejamento e de cálculo; ou fracasso político mais completo; ou mais total manifestação de covardia política; ou manifestação mais indiscutível de incapacidade de conceber negócio decente e lucrativo no campo da comunicação de massa. A rede Current TV está sumindo da paisagem midiática nos EUA, sem ter feito coisa alguma do que se propôs a fazer. Poucos, de fato, sabem do fim da empresa; e poucos lamentam.

*Robert Parry é jornalista investigativo.

*8Traduzido pelo Vila Vudu

Fonte: Consortium News