Conhecer a terra para produzir alimentos saudáveis e com rentabilidade

 A farta liberação de agrotóxicos promovida pelo presidente Jair Bolsonaro alarma a sociedade e causa transtornos para a exportação dos produtos agropecuários do Brasil. Junto com as recentes queimadas promovidas na Amazônia trouxeram à tona um importante debate sobre a produção agropecuária sustentável.

Por Marcos Aurélio Ruy*

Somente até o mês de julho, Bolsonaro liberou 290 novos agrotóxicos, grande parte deles proibidos nos países do Primeiro Mundo. Aliadas a isso, os 40 mil focos de queimadas na Amazônia entre os meses de janeiro e agosto, mostram um pouco co descaso do governo brasileiro com a política ambiental, em que perdem os agricultores familiares, a natureza e a sociedade em geral, essencialmente os mais pobres ao consumirem alimentos contaminados.

Para Rosmari Malheiros, secretária de Meio Ambiente da Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura e da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB), o governo federal põe a vida das pessoas em risco com sua política ambiental feita “para atender os interesses do capital internacional e assim incentiva a atividade econômica predadora, além de extinguir programas e políticas públicas fundamentais para o desenvolvimento rural sustentável”.

Ela diz ainda que Bolsonaro “corta recursos para as pesquisas científicas nos biomas existentes no país e reduz o cumprimento das leis ambientais”, assim “as queimadas e o uso desenfreado dos agrotóxicos destruirão não só a natureza, mas a vida como um todo”.

Qualidade de vida

Como mostra levantamento da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO, na sigla em inglês), o Brasil é o terceiro maior exportador agrícola do mundo, com uma fatia de 5,7% do mercado global. Em 2016, Só perdia para os Estados Unidos, com 11%, e União Europeia, com 41%. Mas as trapalhadas do governo vem provocando inúmeras perdas aos produtores brasileiros.

Para evitar um desastre na produção agrícola do país, Sérgio de Miranda, secretário de Finanças da CTB e agricultor familiar, defende que “é possível produzir e ter qualidade de vida respeitando o meio ambiente. A agricultura familiar é um exemplo de produção e preservação. É evidente que algumas regiões preservam mais e outras menos, dependendo de vários fatores, porém cada vez mais o agricultor familiar tem consciência da importância de produzir cuidando das riquezas naturais”.

Vânia Marques Pinto, secretária-geral da Federação dos Trabalhadores Rurais Agricultores e Agricultoras Familiares do Estado da Bahia (Fetag-BA) e secretária de Políticas Sociais da CTB concorda. “A agricultura familiar é o melhor caminho para se ter uma agricultura sustentável, viável e com rentabilidade”. Ela explica ainda que “existem vários sistemas produtivos que garantem retorno financeiro aos produtores sem agredir o meio ambiente e a sociedade, como a permacultura, agroecologia, agroflorestais”.

Outro dado importante sobre a política de submissão ao capital internacional do governo federal é que apenas 26% dos produtos ativos usados na agricultura brasileira são produzidos no país, segundo o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), tão desprezado pelo presidente Bolsonaro.

Agricultura familiar

“A agricultura familiar produz uma quantidade significativa de alimentos, inclusive para exportação. Mas é preciso que o governo invista na agricultura, com políticas públicas que garantam acesso ao crédito, assistência técnica, tecnologias sociais, incentivo para a organização da produção e política de comercialização justa. Além disso garantir a terra e água para produção”, afirma Vânia sobre a possibilidade de uma produção agrícola sem queimadas e sem a utilização de agrotóxico com rentabilidade.

“A agricultura precisa ter renda, porém não é apenas o lucro que interessa para o agricultor, especialmente quando falamos de agricultura familiar, responsável por 70% da produção de alimentos, por isso a busca constante para produzir com qualidade, procurando sempre colocar produtos saudáveis na mesa do consumidor ”, reforça Miranda.

Já Rosmari acentua a necessidade de aprovação imediata do projeto de lei 6.670/2016, que institui a Política Nacional de Redução de Agrotóxicos (Pnara) e a implantação efetiva do Programa Nacional de Redução do Uso de Agrotóxicos (Pronara). Miranda concorda e emenda que “as instituições de pesquisa e as universidades precisam avançar muito no sentido de disponibilizar para o agricultor produtos alternativos que possibilitem produzir quantidade com qualidade”.

Sobre as queimadas Rosmari afirma que é necessário um amplo trabalho de conscientização, principalmente dos grandes produtores sobre a necessidade de preservação ambiental. “Quando ocorrem tanto as queimadas, quando há o uso de venenos, o meio ambiente sofre um desequilíbrio e esse desequilíbrio que pode causar desastres incalculáveis para a vida, de modo geral, sobretudo à espécie humana”.

Sem queimadas

Na agricultura familiar, segundo Miranda, “as queimadas foram praticamente eliminadas, o que estamos vendo de queimadas no bioma da Amazônia, são grandes proprietários, que de maneira gananciosa estão destruindo a floresta para aumentar suas áreas e consequentemente os seus lucros, infelizmente a fiscalização não tem conseguido coibir a devastação das nossas reservas naturais tão importantes para o meio ambiente e para a vida”.

Vânia explica que “as queimadas em pequenas escalas foram muito utilizadas historicamente por uma crença popular sobre a limpeza e preparação da terra para o novo plantio”, mas “estudos já comprovam que existem técnicas efetivas que dispensam as queimadas. Em grande escala elas só servem para devastar o ambiente e introduzir pasto para a pecuária principalmente”.

Vida e morte

O Ibama revela que a comercialização de agrotóxicos no Brasil era de 495,7 mil toneladas de pesticidas, em 2013 e passou para 539,9 mil toneladas, quatro anos depois. Mas para Vânia, os agrotóxicos não são necessários. “Seu uso foi intensificando após a revolução verde com o objetivo de ampliar lucros com a produção em larga escala principalmente pela monocultura. Com o uso das tecnologias sociais adequadas e com conhecimento é possível controlar pragas e melhorar a produção com produtos naturais e orgânicos”.

De acordo com a Organização Mundial da Saúde, todos os anos, pelo menos 600 milhões de pessoas no mundo adoecem e 420 mil morrem por ingerirem alimento contaminado. No Brasil, “as trabalhadoras e os trabalhadores, tanto do campo quanto da cidade, estão adoecendo e muitos dos casos nem são registrados, porque o sistema de saúde no nosso país ainda não está preparado para diagnosticar todos os casos de doenças por contaminações provocadas pelos agrotóxicos”.

E com esse adoecimento, a população “perde suas tradições e passa a pensar numa lógica de produção contrária ao que os princípios da agricultura familiar prega, sem desmatamentos desnecessários e sem contaminação do solo e dos rios para não colocamos em risco o equilíbrio da natureza e da sociedade”, sinaliza Vânia. “Sem dúvida o nosso grande desafio é lutar para que um dia esse sonho se torne realidade”, complementa Miranda.

Como diz a música Cio da Terra, de Chico Buarque e Milton Nascimento, é preciso ter a posse da terra saber semear, plantar, colher e levar à mesa dos brasileiros alimentos sem veneno. “Afagar a terra/Conhecer os desejos da terra/Cio da terra, a propícia estação/E fecundar o chão”, dizem os consagrados compositores brasileiros.