Líderes partidários defendem Glenn Greenwald

Parlamentares e líderes de diversos partidos condenaram a ação contra a liberdade de expressão.

Foto: Mídia NINJA

A notícia de que o Ministério Público Federal (MPF) havia apresentado denúncia contra o cofundador do site The Intercept Brasil, Glenn Greenwald, pegou congressistas de surpresa nesta terça-feira (21). Mesmo ser investigado, o MPF alegou a suposta ligação do jornalista com hackers que invadiram o celulares de diversas autoridades, entre elas o ministro da Justiça, Sérgio Moro. Em pouco tempo, as redes foram inundadas por comentários sobre o assunto.

“Essa denúncia do MPF em Brasília não atinge só o Glenn Greenwald. Agride frontalmente a liberdade de imprensa. Um absurdo a mais nesse enredo de abusos autoritários. Nosso repúdio!”, declarou o vice-líder do PCdoB, deputado federal, Márcio Jerry (MA).

Manuela d’Ávila (PCdoB), candidata a vice na chapa com Fernando Haddad (PT) nas eleições de 2018, cujo nome chegou a ser envolvido no escândalo que culminou na prisão dos supostos hackers, aproveitou as redes sociais para externar seu apoio. “Minha total solidariedade ao jornalista Gleen Greenwald diante da denúncia do MPF. A Polícia Federal, após longa investigação, declarou que Glenn não cometeu nenhum crime e que agiu com muita cautela. Estamos diante de um forte ataque à liberdade de imprensa!”

Também em solidariedade ao jornalismo americano, o presidente nacional do PSOL, Juliano Medeiros, chegou a afirmar que a acusação feria os preceitos básicos da profissão. “A denúncia contra Glenn Greenwald é um atentado à liberdade de expressão e ao direito ao sigilo da fonte. A Justiça deveria se preocupar com um juiz que cometeu crimes ao investigar adversários políticos, não em perseguir jornalistas. Nossa solidariedade a Glenn Greenwald”.

Presidenciável, Ciro Gomes (PDT) considerou estapafúrdia a decisão do MPF e reforçou a importância do jornalismo para garantir a democracia. “Sem pé nem cabeça esta denúncia contra o jornalista Glenn Greenwald. O jornalismo é tarefa essencial à democracia e às liberdades individuais e públicas. O que Glenn fez foi o mais genuíno jornalismo”, defendeu.

Deputada federal eleita pelo PT-DF, Érika Kokay disse que o caso é uma clara perseguição ao trabalho desenvolvido pelo Intercept. “Em ato de perseguição, MPF denuncia Glenn Greenwald e mais seis por ‘invasão de celulares de autoridades’. Trata-se de uma absurda tentativa de intimidação do trabalho jornalístico do The Intercept Brasil, que revelou ao Brasil e ao mundo os crimes da Lava Jato!”, comentou.

Também petista, deputado Rogério Correia (MG) mencionou a proximidade entre o promotor responsável pela denuncia Glenn Greenwald e Sérgio Moro. “Wellington Divino, o procurador que assina a denúncia, é aliado de Moro, persegue o ex-presidente Lula há anos e, ultimamente, também o presidente da OAB, Felipe Santa Cruz”.

Provocações

Enquanto isso, o alvo de queixa-crime por seus flertes com a ditadura, Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), escreveu mensagens para atacar seus opositores. “Glenn Greenwald sempre disse que adorava o Brasil e queria conhecer o país a fundo. Quem sabe agora vai conhecer até a cadeia… talvez jogar futebol com o Freixo…”, provocou.

Aliada do atual governo, Bia Kicis (PSL-DF) aproveitou o momento para atacar. “ Glenn Greenwald foi denunciado juntamente com mais seis pessoas pelo crime de invasão de privacidade a autoridades brasileiras .Tentaram comprometer Sérgio Moro e outros e agora se dão mal!”

Denúncia

A denúncia acontece um dia após a participação do ministro Sérgio Moro no programa Roda Viva. Durante a semana, o programa foi duramente criticado por não incluir entre os convidados da bancada representantes do Intercept.

As mensagens privadas via Telegram das autoridades recebidas por Greenwald originaram uma série de reportagens feitas pelo The Intercept, Folha de S.Paulo, El País, Bandnews FM, Veja, BuzzFeed News, Agência Pública e UOL, revelando a proximidade entre Moro, então juiz da Lava Jato, e os procuradores da operação. As revelações puseram em xeque a imparcialidade da operação e foram consideradas um divisor de água para entender os rumos políticos do país nos últimos anos.

Desde o início dos vazamentos, o jornalista sempre rejeitou ter auxiliado de qualquer forma os vazamentos, citando o direito constitucional de sigilo de fonte. Nesta terça (21), em nota enviada à Folha de S. Paulo, declarou: “Há menos de dois meses, a Polícia Federal, examinando todas as mesmas evidências citadas pelo Ministério Público, declarou explicitamente que não apenas nunca cometi nenhum crime, mas também exerci extrema cautela como jornalista, nem cheguei de qualquer participação. Até a Polícia Federal, sob o comando do ministro Moro, disse o que está claro para qualquer pessoa: eu não fiz nada além do meu trabalho como jornalista – eticamente e dentro da lei. O Governo Bolsonaro e o movimento que o apoia deixaram repetidamente claro que não acreditam em liberdade de imprensa”, disse.

Segundo o El Pais, os advogados de Greenwald afirmaram que vão tomar as medidas cabíveis e que pretendem acionar a Associação Brasileira de Imprensa.

Nathália Bignon é jornalista.

Fonte: DCM