Lídice da Mata quer as provas contra “gabinete do ódio” de Bolsonaro

Em entrevista exclusiva ao Vermelho, a relatora da CPMI das Fake News, Lídice da Mata, diz que a comissão entrou numa fase decisiva para obtenção de provas.

(Foto: Jane de Araújo/Agência Senado)

A relatora da CPMI das Fake News, deputada Lídice da Mata (PSB-BA), diz que o colegiado chegou a um ponto crucial para desvendar um esquema de disseminação em massa de notícias falsas que podem ter vínculo com o chamado “gabinete do ódio”, localizado no terceiro andar do Palácio do Planalto, a poucos metros de onde despacha Bolsonaro.

Segundo ela, os indícios são fortes e a situação muito grave. O momento agora é de quebrar sigilos para encontrar as provas.

“O que nós estamos buscando é ter elemento de comprovação disso”, diz a relatora ao Vermelho, logo após a sessão que aprovou os primeiros requerimentos para obter os dados.

Lídice da Mata falou ainda sobre as expectativas da comissão, o atual momento da política e até sobre seu gosto musical, especialmente o rock.

“É importante que a gente consiga responsabilização material, que vem com a quebra de sigilo e num trabalho menos exposto no âmbito do debate da CPMI, mas num trabalho de investigação de bastidores”, explicou.

A comissão tem o prazo para apresentar o relatório até abril, mas deve ser prorrogado para julho a fim de possibilitar o exame minucioso dos documentos. A maior dificuldade é a falta de funcionários especializados no assunto e um apoio maior de instituições como a Polícia Federal (PF) e o Ministério Público.

Gabinete do ódio

Sobre o chamado “gabinete do ódio”, a deputada lembrou que as denúncias foram feitas pela revista Crusoé, que não é de esquerda, e corroborada pelos depoimentos dos deputados Alexandre Frota (PSDB-SP) e Joice Hasselmann (PSL-SP), ex-aliados de Bolsonaro nas eleições de 2018.

A revista acusa Tercio Arnaud Tomaz, José Matheus Sales Gomes e Mateus Matos Diniz, que trabalham a serviço do presidente, de divulgarem notícias falsas e de contribuir para a radicalização política no país.

Os dois primeiros são ex-funcionários do gabinete do vereador Carlos Bolsonaro (PSC-RJ). Eles estão lotados na Secretaria de Comunicação (Secom) ganhando entre R$ 10 mil a R$ 13 mil.

“Os depoimentos dos deputados Alexandre Frota e Joice Hasselmann são as mais organizadas denúncias. E até o próprio depoimento do general Santos Cruz (Carlos Alberto, ex-ministro-chefe da Secretaria de Governo da Presidência) indica a existência de um grupo muito influente junto ao presidente da República que interfere na disseminação de informações na sociedade brasileira. Isso é muito grave!”, disse a parlamentar.

Alexandre Frota, por exemplo, acusou o governo Bolsonaro de espalhar notícias falsas e afirmou que dentro do Palácio do Planalto tem um gabinete especializado em ações desse tipo.

Joice Hasselmann revelou que o esquema envolve milhares de apoiadores de Bolsonaro e assessores pagos com dinheiro público. “Eles têm uma tabela para que cada dia, um assessor produza um conteúdo para destruir uma reputação”, disse a deputada no depoimento.

A relatora revela que tem muitas evidências e denúncias que precisam ser comprovadas. “É o passo que nós vamos dar agora. Hoje já aprovamos a quebra de sigilo de alguns números (…) Depois do dia 15 nova sessão administrativa para que a gente possa vir a quebra outros sigilos”, revela.

A deputada afirmou que faz parte desse processo a análise de documentos sigilosos que chegaram a comissão e de novas denúncias que foram feitas por especialistas.

“Pesquisas estão indicando um caminho necessário para quebrarmos dados, quebramos sigilos para termos acesso a dados que podem nos levar a conclusão de pessoas e empresas”, diz.

Fake News na saúde

Lídice da Mata explica que ao tratar das notícias falsas na área de saúde o cidadão tem a verdadeira dimensão da importância de combater esse tipo de crime no país. Para se ter ideia, 50% dos cartões de registro de vacina em criança de baixa renda não estão totalmente preenchidos.

“Há uma campanha contra vacinação no Brasil feitas através da desinformação na rede, dizendo que você não deve vacinar a criança porque se não a criança terá aquela doença Então são desinformações graves que são praticadas com objetivo de causar prejuízo à sociedade”, protestou.

Chegou ao conhecimento dela que 50 mil pessoas no Brasil já tinham visualizado uma mensagem de desinformação na rede que dizia que o coronavírus não existia.

“Então você faz desde a criação de um clima de terror na sociedade com as desinformações falsas e exageradas sobre epidemia até a negação da própria epidemia. Isso claro que causa um ambiente de caos”, reclama.

Segundo ela, trata-se de um ambiente onde as pessoas perdem a confiança nas fontes regulares de informação e passam a desacreditar em tudo.

“É um ambiente social muito propício a surgimento de comportamento político fora da linha da negociação política, tendo como resultado o pensamento atrasado, extremamente autoritário, ditatorial em alguns sentidos e que busca criar a sua verdade para impor ao conjunto da sociedade, o que é um pouco do que estamos vivendo no Brasil”.

Regulamentação

Além de expor os problemas e pedir indiciamentos, a CPMI das Fake News deve apresentar um conjunto de propostas que possam ajudar na regulamentação do setor, embora seja um tema polêmico devido a defesa da liberdade de expressão nas redes sociais.

“Há também um debate na sociedade, num ambiente democrático da rede que nós não queremos afastar da CPMI. Então estamos pensando em criar algumas plenárias com pessoas militantes da rede social, de ongs que atuam na defesa da democracia, na defesa rede saudável e que nos ajude com sugestões para o relatório”.

Perspectivas

Quantos aos resultados dos trabalhos da CPMI, Lídice diz que o colegiado já deu certo. “Acho que já está dando certo. Temos um espaço onde foram feitas denúncias muito importantes”, explica.

Ela diz que há críticas sobre o baixo nível dos debates, mas lembra que o parlamento é uma Casa política. O confronto é natural. Em todas as CPIs no parlamento existiram confronto de ideias”.

A relatora elenca como positivo a participação especialistas em comunicação, em tecnologia da informação e empresas especializada em verificar os fatos. Além disso, o assunto foi debatido com especialistas do direito criminal.

Agressividade no parlamento

A economista Lídice da Mata, que começou sua vida política no PCdoB, foi eleita a primeira mulher presidente do Diretório Central dos Estudantes (DCE) da Universidade Federal da Bahia (UFBA), primeira prefeita de Salvador e primeira senadora do estado.

Eleita deputada constituinte, ela lembra com saudade da condução dos trabalhos na Casa sob a coordenação de Ulisses Guimarães.

“Ele conduzia o plenário de maneira tal em que você sentia a coordenação e o que passava do tom era algo absorvido e posto de lado. Aqui é quase impossível”, diz ao reclamar do alto grau de agressividade na sua volta à Câmara.

“O nível de agressividade é alto entre os parlamentares com ataques pessoais e frontais. Isso é uma coisa a meu ver nova na política brasileira e acho lamentável. A política no passado tinha um certo rito, de atacar o pensamento oposto, mas não pessoalmente”, reclama.

Preferência pelo rock

Para desanuviar, a parlamentar diz que sempre que pode nos finais de semana procurar ficar com os dois netos, um casal, que lhe acompanha nos jogos do Bahia, cinema, show e para ouvir música, um dos entretenimentos preferidos dela.

“Gosto muito de música, de todos os gêneros, mas gostos muito de rock e de música popular brasileira. São as músicas formadoras da minha geração, principalmente uma geração contestadora de costumes, de um posicionamento político existente naquele momento de repressão, autoritarismo e ditadura. Então eu tenho essa visão de uma música que fala da vida da sociedade”, finalizou.

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