Rússia reforça apoio à Venezuela e amplia influência na América Latina

Visita a Caracas de chanceler russo deixa claro que Moscou quer expandir sua influência

Num momento em que os Estados Unidos buscam fórmulas para aumentar a pressão diplomática sobre a Venezuela e debatem novas sanções, a Rússia volta a demonstrar seu apoio ao presidente legítimo Nicolás Maduro. Com sua visita a Caracas nesta semana, o chanceler russo Serguei Lavrov, um dos membros do Executivo russo mais próximos de Vladimir Putin, deixou claro que Moscou continua por lá e quer expandir sua influência.

A Rússia é atualmente o principal apoio externo do governo Maduro. Nos últimos anos, o país ajudou o regime bolivariano com bilhões de dólares em acordos comerciais e linhas de crédito. E isso fez dele seu segundo maior parceiro empresarial e credor, atrás apenas da China. Caracas deve cerca de US$ 6,5 bilhões (R$ 28 bilhões) à russa Rosneft, quantia que está pagando pouco a pouco com petróleo.

Acordos desse tipo garantiram a Moscou o acesso às interessantes reservas venezuelanas, ao mesmo tempo em que representam um oxigênio do governo Maduro para evitar e contornar as sanções, especialmente as ligadas ao petróleo bruto, impostas tanto pelos Estados Unidos quanto pela União Europeia.

A Venezuela – que também compra produtos agrícolas e sanitários da Rússia – é um dos mercados mais importantes para a indústria bélica russa. Moscou enviou pilotos de treinamento e “assessores militares” a Caracas. Nesta semana, Lavrov anunciou que os acordos seriam ampliados. “É importante desenvolver nossa cooperação militar técnica para aumentar a capacidade de defesa de nossos amigos contra ameaças externas”, afirmou o ministro russo.

Já o Kremlin enxerga o vínculo com Caracas não apenas como uma questão comercial – mas, sobretudo, como um movimento estratégico e geopolítico. Embora cultive outros relacionamentos, como visto na viagem de Lavrov – que passou por Cuba e México –, a Venezuela é sua principal base para influenciar a região.

“A Rússia usa a América Latina como forma de neutralizar a presença norte-americana no quintal da Rússia. Não se trata de se preparar para uma guerra mundial ou uma corrida armamentista, mas, sim, de ganhar armas e contratos de exportação. E está avançando ”, diz Victor Jeifets, diretor do Centro de Estudos Ibero-Americanos da Universidade de São Petersburgo. A visita de Lavrov seguiu-se à visita do secretário de Estado dos EUA, Mike Pompeo, à Ucrânia, Belarus, Cazaquistão e Uzbequistão, numa região que Moscou vê como seu quintal.

A aparição de Juan Guaidó, há um ano, também aprofundou a batalha geopolítica entre Washington e Moscou. Na medida em que Donald Trump fez da crise venezuelana a bandeira de sua política externa para a América Latina, o governo de Putin cerrou fileiras com Maduro. “A Venezuela se tornou uma ficha para a Rússia, que pode ser usada como alavanca em outros lugares, como a Ucrânia”, diz David Smilde, professor de Sociologia da Universidade Tulane e pesquisador do Escritório em Washington para Assuntos Latino-Americanos (WOLA, na sigla em inglês).

Com as sanções impostas à Rússia em 2014 – depois de anexar a península ucraniana da Crimeia –, Moscou não apenas fortaleceu seus laços com aliados históricos, como Venezuela e Cuba, como também está procurando novos, como mostram sua guinada para a Ásia e sua busca por alianças e influência na África.

Mas seu papel em Caracas tenta ir além. Busca se posicionar como mediador, algo semelhante a seu papel no Oriente Médio. Moscou defende que a solução para o país sul-americano deveria partir de um acordo entre venezuelanos e aposta no diálogo.

Atualmente, a crise na Venezuela chegou a tal ponto, e há tantos atores globais envolvidos, que poucos duvidam de que, para haver qualquer acordo, é necessário pelo menos o aval dos Estados Unidos e da Rússia. Isso torna ainda mais complexa qualquer negociação, como a tentada recentemente em Barbados.

“Ambas as partes, por enquanto, têm uma alternativa melhor a um acordo negociado”, opina Smilde. “A oposição tem o apoio dos Estados Unidos, e Maduro tem o dos russos. Certamente você precisa de um pacto que inclua a União Europeia e a China ”, acrescenta esse especialista em Venezuela.

Novos aliados

Com esse posicionamento da “grande Rússia” influente, como definem muitos analistas, parece que a Rússia deseja que o México se torne um de seus principais parceiros na região. Por um quarto de século, este foi o grande ausente na política de Moscou para a América Latina, especialmente por sua participação na Associação de Livre-Comércio com os EUA.

Mas a chegada de Andrés Manuel López Obrador à presidência mudou um pouco as coisas, segundo Jeifets. Nesse sentido, a posição do México para a Venezuela, buscando também um caminho de diálogo, tem sido fundamental. E, embora pouco tenha sido divulgado sobre o conteúdo da reunião, a crise venezuelana foi justamente um dos assuntos que Lavrov discutiu com seu colega mexicano, Marcelo Ebrard.

“Concordamos que qualquer tentativa de ressuscitar doutrinas neocoloniais como a Doutrina Monroe e repetir cenários das infames revoluções de cores pode levar a uma escalada perigosa”, disse Lavrov após a reunião, segundo a agência estatal russa Tass. “A Rússia e o México pedem para resolver os problemas da Venezuela exclusivamente por meios pacíficos, através do diálogo entre todas as forças políticas”, acrescentou o ministro russo, que se comprometeu a aprofundar a cooperação e os laços com o México.

Um compromisso, após anos de impasse, que não é banal, na medida em que acena com investimentos e cooperação na segunda maior economia da América Latina, no mais populoso país de língua espanhola, e no vizinho sul do seu arquirrival. Embora López Obrador tenha insistido que não pretende cultivar um relacionamento ruim com os Estados Unidos, a chancelaria mexicana tem consciência de que uma maior proximidade com a Rússia pode gerar receios por parte dos Estados Unidos e, portanto, seria uma maneira de amenizar a pressão.

“A Rússia considera a América Latina como um dos pilares do chamado mundo multipolar, onde tem uma voz própria que não coincide necessariamente com a russa. Está buscando vários contrapesos no mundo. Não se trata de o México se tornar parte da chamada ‘guinada à esquerda’, não acho que o México seja uma referência para os países bolivarianos. Mas Lavrov quer ver onde é possível encontrar um idioma comum”, diz o diretor do Centro de Estudos Latino-Americanos da Universidade de São Petersburgo.

Com informações do El País

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