A costela de Adão

A desigualdade de gênero começou nos primórdios da civilização patriarcal judaica-cristã, com aquela estorinha de que Eva foi criada da costela de Adão e, portanto, não passaríamos de um “puxadinho” do Homem, ser supremo.

 Respaldados pela Bíblia, integralmente escrita por homens, com o intuito subliminar de reforçar a narrativa da mulher submissa às vontades do marido, para agradar a Deus e garantir seu lugar no Reino dos Céus.

 Esses valores misóginos foram repassados por séculos e uma geração antes da minha, poucos ousavam questioná-los. Minha mãe nunca trabalhou. Era “Rainha do Lar” com orgulho e mérito. Cuidava do marido e de cinco filhos. Modelo irretocável da “bela, recatada e do lar” ambicionado pelas suas contemporâneas.

 Nessa época, a mulher tinha sua identidade mutilada. Nascia filha de Dr. Fulano de Tal e se fosse “bem-comportada”, seria promovida a esposa de Dr. Sicrano de Tal.

 Com uma cidadania usurpada e a sua sexualidade patrulhada exaustivamente, era obrigada a casar virgem ou seria devolvida como “objeto com avaria” para a desonrada família de origem. Daí para a prostituição era um passo, porque a família também a rejeitava. Ninguém arriscava romper o hímen ou a tradição.

 Mero “depósito de esperma”, sem direito a orgasmos, em relações sexuais restritas ao orifício tombado pelo matrimônio, usado de preferência, para a finalidade reprodutiva.  Afinal, uma esposa estéril era “inútil” do ponto de vista religioso e social. Para uma mulher escolher voluntariamente não ter filhos era impensável, corria o risco de ser confinada em manicômio como desajustada e imprópria para consumo.

 O Estado se autoproclamava dono de seu útero.  A Igreja, proprietária de sua alma e responsável por doutriná-la para reprimir ostensivamente desejos malignos que a conduzissem ao pecado e, consequentemente, a condenassem ao fogo do inferno.

 A garota crescia ouvindo: “feche as pernas”; “não use roupa curta”; “não fale palavrão”; “fale baixo”; “não dê gargalhada alta”; “não chame atenção”; “nada de decote”; “não dance sensualmente”; “não fique bêbada”; “não saia sozinha”; “não seja promíscua”; em resumo não seja livre ou libertina como uma maldita Geni a envergonhar toda a família.

Não me surpreende nesse contexto que a garota cresça acreditando que a culpa por qualquer violência sexual que sofre, será sempre dela. Porque isso foi massificado em cada frase repressora que ouviu ao longo da vida. A culpabilização da vítima de estupro no Brasil é um dos crimes mais hediondos e cruéis que uma sociedade pode permitir, e uma gravíssima violação de direitos humanos.

Vejo, estarrecida e indignada, nas redes sociais vítimas de feminicídios sofrendo linchamento moral e tendo seu “currículo sexual” exposto de forma obscena para justificar a impunidade do agressor. Detalhe: parte significativa desses comentários asquerosos são feitos por mulheres de todas as faixas etárias. Empatia e sororidade são princípios raros na atualidade.

 Quando escrevi em 1995 um artigo na revista Veja, intitulado “Ex-mulher virou profissão”, não o fiz para defender macho escroto e pai irresponsável que não paga pensão, mas para dizer à mulher que ela é capaz e não precisa de macho para financiar seu sonho da maternidade.

 Nesses quase 35 anos como jornalista escrevendo e atuando em jornais, revistas, rádio e televisão, nas aulas que dei como professora de Comunicação Social na UFMA e, principalmente, como militante aguerrida do feminismo sempre bati na tecla da educação da nova geração com novos paradigmas.

 A fórmula surrada que vem sendo ressuscitada pela ministra fascista Damares não deu certo. Menina não pode crescer acreditando que é uma princesa e que somente um “príncipe” poderá completa=á-la e legitimá-la socialmente.

 Essa máxima de “menino veste azul” e menina hoje, além de vestir, compulsoriamente, tem que ter a “xoxota rosa” é doentia. O Brasil é o país onde mais se faz cirurgia plástica no mundo e a cirurgia de rejuvenescimento vaginal é uma das mais procuradas na atualidade.

 A necessidade de aceitação e de se enquadrar em um padrão irreal têm levado milhares de adolescentes a desenvolver bulimia, anorexia, ansiedade, depressão e todo tipo de transtorno mental, gerando um grave problema de saúde pública.

 O suicídio já é a segunda causa de morte de jovens. O jogo é bruto. O mundo está hostil. Machista. Misógino. Intolerante. Ou nos humanizamos ou vamos condenar eternamente nossas mulheres a morrer e nossos machos a matar. Não por sua índole ruim, mas pelo condicionamento cultural de reagirem com violência quando são contrariados.

O macho é adestrado pelo pai a dar porrada e a nunca demonstrar fragilidade. Para não passar recibo de “viado” vale tudo. Parece até o antipetismo atual. O “anti-viado” desumaniza e brutaliza os meninos, os transforma em machos agressores e numa real ameaça às companheiras e à sociedade.

 Sei que não posso criar meu filho numa bolha onde os meus princípios permaneçam irretocados e sem influência nociva da sociedade que o cerca. Mas tenho esperanças de que meus netos Franscisco e Maria possam dar o start a uma geração mais humana e menos hipócrita. Essa esperança se renova todos os dias em atitudes simples.

 Minha filha Ludmilla bota Maria para dormir cantando a música da banda Francisco El Hombre, intitulada “Triste, louca ou má” cujo refrão diz “um homem não te define, tua carne não te define, tua casa não te define, você é seu próprio lar” e prossegue num hino feminista: “ela desatinou, desatou nós, vai viver só”. A música resume minha biografia e ensina Maricotinha que ela é livre, digna e não precisa de homem para ser visibilizada, respeitada ou empoderada.

 Por um Brasil com mais Ludmillas, onde Marias sejam criadas com autoestima, amor e respeito, é o que desejo a todas nós neste 8 de março de 2020.

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2 comentários para "A costela de Adão"

  1. Por ter havido uma citação ao livro do Gênesis, sinto-me levado a fazer um breve comentário ao texto em que concordo e defendo plenamente as argumentações. O Livro do Gênesis foi escrito por vários grupos, uns sacerdotais, outros patriarcais. Interessante notar que antes da passagem da costela de Adão, já se havia citado da criação do homem e da mulher. Os primeiros a escreve este livro colocaram ambos ao mesmo tempo na criação. Isto significa, que a luta pelos direitos das mulheres eram já naquele tempo, objeto de discussão, que refletiu-se nesta dupla caracterização da criação.

  2. Wendel disse:

    Concordo em.parte.mas.esta.gierra não leva a nada.
    O que se tem.que fazer é se respeitar mutuamente independente de.genero.
    Mas uma.verdade.nao pode ficar omissa.
    A desconstrução da.masculinidade pelas mídias tem.sido exagerada e qto.a.isto tem.que se.fazer uma.reflexao.
    Hoje principalmente.é o DIA INTERNACIONAL DO HOMEM e nada, nada.foi comentado pelas mídias.
    Uma.total.omissão.

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