A senhora Chesf

A Companhia Hidroelétrica do São Francisco (Chesf) comemorou ontem (15/03) seus 72 anos, em uma realidade de ameaças de privatização e crise da soberania nacional.

No mesmo dia ocorreram, em todo território nacional, manifestações em defesa do atual governo e contra instituições democráticas, como o Congresso e o Supremo Tribunal Federal (STF), com a presença, inclusive, do presidente. Os dois acontecimentos deste dia nos fazem lembrar da década de 40, quando durante o Estado Novo, a Chesf foi criada, pelo presidente Getúlio Vargas, através do Decreto de Lei nº 8.031 de 1945 e instituída, dois anos depois, em 1948.

Na época, vivíamos o mesmo cenário de acalorada polarização política. De um lado, as forças políticas dominantes, formadas pelos integralistas, com uma visão centralista e de restrição das liberdades constitucionais, assemelhando-se aos partidos aliados do atual governo. Do outro, a Aliança Libertadora Nacional (ALN), defendendo as reformas de base, a reforma agrária, a igualdade social e o combate aos domínios imperialistas, tal como os partidos progressistas atuais.

Ainda nesta dicotomia, tínhamos de um lado o economista Eugênio Gondim, junto a outros “especialistas”, contra a criação da Chesf, e do outro Apolônio Sales defendendo a criação da Companhia. O primeiro defendia abertamente a não construção da empresa para favorecer empreendimentos na região sudeste. Apolônio Sales se pautava na necessidade do uso da energia elétrica para irrigação de áreas do sertão atingidas pela seca, o que viabilizaria a produção de alimentos, fortalecimento do comércio e indústria no Nordeste.

Ao lado de Gondim, estavam empresas dos países centrais, com interesses particulares, visando o lucro com a venda de geradores elétricos movidos a petróleo para prefeituras e estados, em detrimento do desenvolvimento social e econômico nacionais. E ao lado de Apolônio? O Getulismo e as perspectivas de um país forte, soberano e com justiça social.

Para entender melhor a relação da criação da Chesf com os países centrais podemos recorrer a alguns cálculos.  Por exemplo, um gerador da Usina hidroelétrica de Xingó, com capacidade de 500.000 KVA, sozinho corresponde a 1.000 geradores diesel de 500kVA, os mesmos que eram usados pelos municípios para atender as demandas de iluminação pública e outros fins.

Antes da Chesf, o sistema elétrico nordestino não atendia demandas da população, que vivia a luz do candeeiro. Até então existia uma potência instalada de apenas 100 MVA, em sistemas isolados, atendendo demandas específicas de empresas. A chegada da Companhia propiciou o desenvolvimento da indústria, do comércio e do turismo, além de atender as necessidades da população e garantir uma cidade com iluminação e segurança públicas. Outras instituições, como a Sudene e o Banco do Nordeste, somaram forças e consolidaram o desenvolvimento econômico e social nordestino.

Hoje, a empresa possui mais de 10.000 MVA de potência instalada própria e mais de 5.000 MVA em parceria com outros sócios, multiplicando em mais de 150 vezes a potência instalada da região. Para além da questão elétrica, a empresa contribui cientificamente para formação acadêmica de diversos doutores, mestres, especialistas, engenheiros e técnicos através do Projetos de Pesquisa e Desenvolvimento, de ações educacionais e estágios, e conta com a publicação de inúmeros artigos científicos, teses, relatórios e livros.

Não é difícil enxergar o tamanho da Chesf para o Nordeste e para a garantia da qualidade de vida do seu povo. Mas, o atual governo, com uma agenda de liquidação do Estado Brasileiro, tem ignorado sua importância. Com um plano de privatizações, querem exterminar com as empresas surgidas durante o Estado Novo. As “senhoras” charmosas, bonitas e lucrativas e com recebíveis de mais de R$ 36 bilhões pela renovação das onerosa das concessões quando somados aos de Furnas e Eletronorte, que, na ótica do governo, devem ser entregues à iniciativa privada, para que o lucro seja destinado a um determinado grupo de espertalhões. O povo, por sua vez, fica à mingua, na amargura de seguir dando lucro aos imperialistas e sem nenhum retorno que garanta sua integridade social.

Essas são as reflexões que trago aos nobres leitores quanto da passagem dos 72 anos de uma das maiores empresas de geração de energia elétrica do país, a Senhora Chesf.

Fonte: Sindicato dos Engenheiros de Pernambuco

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