A Bruzundanga de Bolsonaro

É livre um povo, que em meio a uma pandemia, não tem sequer o direito à vida respeitado e garantido pelo presidente da República e seu ministério?

Hoje, 13 de maio, data que marca (legalmente) o final da escravidão de africanos no Brasil, o escritor Lima Barreto, neto de escravizados, completaria 139 anos de idade. No dia dos seus 7 anos, assistiu em companhia do pai, os festejos alusivos à assinatura da Lei Áurea, deles guardou recordações expressas em crônica de 1911 intitulada Maio. Nela narra que “com aquele feitio mental de criança”, só uma coisa ficara, a ideia de que era livre!  Todavia o tempo e a maturidade lhe ensinaram que aquela liberdade era uma quimera, “como ainda estamos longe de ser livres! Como nos enleamos nas teias dos preceitos, das regras, e das leis”, escreveu à guisa de conclusão.

A liberdade, valor caro ao escritor, que consiste na “maior, senão a única ventura” nunca foi plenamente exercida pelo povo brasileiro, principalmente por aquele suburbano e periférico, que através de seus escritos entrou na Literatura Brasileira. Ao longo da nossa história republicana a liberdade sempre foi e continua sendo limitada, amesquinhada, apequenada, e concedida ao gosto das elites econômicas e políticas. É livre um povo, que em meio a uma pandemia, não tem sequer o direito à vida respeitado e garantido pelo presidente da República e seu ministério?

Lima Barreto é autor de romances, crônicas, artigos e contos, entre eles notabilizaram-se os romances Triste fim de Policarpo Quaresma, Recordações do escrivão Isaías Caminha, o conto O homem que sabia javanês, e a obra satírica Os bruzundangas, na qual o escritor traçou caricaturas sobre um país inexistente no Mapa Mundi, mas muito assemelhado ao Brasil, sendo impiedoso na descrição caricatural de homens e costumes da nossa República Velha, assaz presentes no Brasil de 2020, ou como escreveu o também escritor e jornalista João Antonio, “de Afonso Henriques de Lima Barreto está tudo aí, vivo, pulando nas ruas, se mexendo, incrivelmente sem solução. ” 

Publicado postumamente Os Bruzundangas é frequentemente evocado por intelectuais, políticos e jornalistas quando desejam se referir às nossas eternas mazelas de forma irônica e até debochada. Na República das Bruzundangas, o seu presidente, que se destaca pela mais completa mediocridade é chamado de Mandachuva, o do Brasil   atual de Mito, e a semelhança com aquele não é só mera coincidência. Os políticos da República dos Estados Unidos da Bruzundanga, principalmente os que ocupam altas posições, se creem diferentes da maioria do povo, se supõem de “carne e sangue diferente”, e no poder tratam “não de atender as necessidades da população, não de lhes resolver os problemas vitais, mas de enriquecerem e firmarem a situação dos seus descendentes e colaterais”. Não por acaso, ontem, 12 de maio, tomamos conhecimento que o presidente do Brasil vinculou a troca de comando da Polícia Federal à perseguição (sic) aos seus parentes na cidade do Rio de Janeiro. Naquele país os políticos e seus aliados também têm o hábito de empregar parentes nos órgãos públicos, “não há lá homem influente que não tenha, pelo menos, trinta parentes ocupando cargos do Estado”. No ano passado soubemos pela mídia que o atual mandatário brasileiro e 3 dos seus filhos, também políticos, nomearam ao longo de 28 anos, 286 pessoas em seus gabinetes, que receberam um montante de R$105, 1 milhões em salários, e que 62% desse valor foi para as mãos de pessoas de 32 famílias ligadas a Bolsonaro e seus filhos.

O curioso país das Bruzundangas não possui Força Armada, no entanto tem “cento e setenta e cinco generais e 87 almirantes. Além disto, há quatro ou cinco milheiros de oficiais, tanto de terra como de mar, que se ocupam em fazer ofícios nas repartições.” Ao assumir a presidência do Brasil o capitão reformado Jair Bolsonaro, cujo colega de chapa é um general da reserva, levou para o governo uma chusma de militares, eles controlam 9 dos 22 ministérios, ocupam inclusive a Casa Civil, fato que não acontecia desde o último dos governos militares, o do general João Baptista Figueiredo.  E eles se espalham pelo segundo e terceiro escalões do governo, e muitos mais que se ocupar de redigir ofícios, tratam de assegurar a permanência no poder do indomável capitão, de defender seus interesses corporativos e de impedir a construção e implementação de políticas públicas demandadas pelos movimentos sociais que atenderiam interesses populares. E o que dizer dos ministros daquela República de nome tão peculiar, a tal da Bruzundanga? Chico Caiana, da agricultura, fora feito ministro pelo Mandachuva para honrar a palavra empenhada com o Tupinambá, governador da “província das canas”, por onde se elegera senador. O tal sujeito, que era dono de usinas de açúcar, delas nada entendia, outro as dirigia. Ao tomar posse no ministério se espantou com a papelada e perguntou: “Onde está aqui agricultura? …Estes papéis… Isto não é prático! …. Quero cousas práticas! … Canaviais … Engenhos…Qual! Isto não é prático! Vou fazer uma reforma!”

No seu congênere, Brasil de 2020, vimos um médico, que parece ter saído de uma tumba, ser nomeado ministro da Saúde, que desconhece completamente o Sistema Único de Saúde (SUS) que atende a maioria da população brasileira, e é responsável pela linha de frente do atendimento aos infectados pelo coronavírus. Deve ser pelo seu desconhecimento das necessidades do sistema público de saúde, que mais de   R$ 2 bilhões provenientes de emendas parlamentares de bancadas estaduais, destinados aos estados e municípios para exclusivo enfrentamento da pandemia, estão parados no Ministério da Saúde há mais de um mês. O que dizer do ministro da Educação que insiste em manter o calendário de realização do Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) em meio à pandemia, com milhares de jovens pobres e estudantes de escolas públicas, que mesmo em condições normais de aulas, já estão em desvantagens em relação aos seus colegas das classes médias e altas que estudam nas melhores escolas particulares, agora tendo aulas a distância, sem acesso de qualidade à internet e condições de moradia e alimentação dignas? E aquela senhora ministra que proclamou de forma solene, quase como uma verdade científica que “meninos vestem azul e meninas vestem rosa”, de que planeta caiu? Ou será veio do país das Bruzundangas?  E não podemos esquecer do ministro das  Relações Exteriores que entre as pérolas proferidas comparou a necessidade de isolamento social, uma das formas utilizadas em todo o mundo de combate à pandemia do coronavírus, aos campos de concentração nazistas, e que vem sistematicamente destruindo toda a tradição da política externa brasileira, e se submetendo totalmente aos EUA. Mas a equipe ministerial não seria tão brilhante se não tivéssemos o “super” ministro da economia, o “Posto Ipiranga” de Jair Bolsonaro, que juntamente com seu chefe queria para pagar R$200,00 de auxílio emergencial, ao invés de R$600,00, aos trabalhadores informais e às pessoa que não possuem renda, para que possam minimamente se alimentar e se cuidar e assim correrem menos riscos de contaminação pelo coronavírus, mas que não hesitou em liberar R$1, 2 trilhões para os bancos para manter a liquidez no mercado durante a pandemia. E por fim, tivemos aquele ministro da Justiça, recentemente demissionário, que ascendeu ao posto por ter prendido, sem provas concretas, o principal concorrente de Bolsonaro nas eleições de 2018. Tal e qual o Chico Caiana ganhou o cargo pelo serviço prestado. Como podemos ver há muitas semelhanças entre o modus operandi da política brasileira e o da República das Bruzundangas, entre nós ele tem um apelido popular, o conhecido “toma lá, dá cá”.

Lima Barreto citando Jacques Bossuet, afirmou que “o verdadeiro fim da política era fazer os povos felizes; o verdadeiro fim da política dos políticos da Bruzundanga é fazer os povos infelizes”. O que diria o nosso grande escritor diante da política genocida do Governo Bolsonaro nesse momento tão ardido da nossa História?  Certamente estaria na trincheira ao lado dos despossuídos, dos movimentos democráticos e populares reafirmando que “a política tem por fim fazer a felicidade dos povos e a vida cômoda”, e dizendo: Fora Bolsonaro!

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