As ruas dos EUA queimam contra o racismo

Protestos massivos que tomam as cidades americanas escancaram seu racismo secular e o desespero de uma democracia cheia de falhas

Em plena pandemia do coronavírus os Estados Unidos têm tido protestos massivos que se espalham por todo o país, depois que mais um negro foi morto a sangue frio pela polícia, agora na cidade de Minneapolis, em Minnesota. George Floyd, mesmo desarmado, teve seu pescoço pressionado conta o chão por um policial branco, enquanto suplicava por sua vida. “Por favor, eu não consigo respirar”, disse várias vezes antes de morrer.

O despreocupado semblante do policial escancarou o estado de espírito de um país que foi construído ao longo de toda sua história em cima da ideia da supremacia e do privilégio branco. Que tem pesadelos com a latinização de seu território por imigrantes de países vizinhos. Um país que teve um regime declarado de segregação racial e que desde o fim da escravidão encarcerou massivamente negros, para que esses continuassem sendo uma peça na linha de produção da economia americana.

Como numa releitura dos protestos e do caos que tomou Los Angeles em 1992, depois que policiais brancos espancaram o negro Rodney King e foram absolvidos, levando a segunda maior cidade americana a quase uma guerra civil, vemos o ódio acumulado pelo racismo secular da terra da liberdade explodir por várias cidades. O que levou o presidente Donald Trump a convocar a Polícia Militar dos EUA, o que seria o equivalente a nossa Polícia do Exército, para conter os atos.

Neste domingo, Trump declarou que grupos antifascistas são terroristas. Claro, não é de se estranhar essa atitude, afinal, os grupos antifascistas têm dado não só suporte aos protestos dos afro-americanos, como têm, muitas vezes, se colocado na linha de frente do confronto, fazendo uma barreira humana para proteger seus irmãos. Ao fazer isso, Trump desumaniza as pessoas que estão nas ruas, porque o terrorismo está enraizado no imaginário popular americano como a maior ameaça que possa existir aos EUA. Então do outro lado deixam de existir pessoas dotadas de sentimentos. Dotadas de humanidade. E muito menos dotada de razão. Existiria só uma turba enraivecida e que precisaria ser detida… ou eliminada.

Mas o pior é que ao fazer isso, Trump também ganha liberdade para enquadrar como antifascistas, logo terroristas, os grupos de negros que vão às ruas protestar, negando um direito constitucional dos EUA, mais uma vez, aos afro-americanos. Só que, por outro lado, quando ele declara que grupos antifascistas são terroristas, ele automaticamente se declara fascista, declara que os EUA tem um governo fascista e, por tanto, agirá para defender o caráter fascista dessas instituições. Então a “maior democracia” do mundo não seria uma democracia de fato?

Ao longo de sua história, os EUA estiveram envolvidos em eventos que contestam fortemente essa autodeclaração. Como quando nos anos de 1960 desenvolveu seu Programa de Contrainteligência (Contelinpro) perseguiu nas sombras o movimento pelos direitos civis dos negros – atribuindo-lhes o caráter de terroristas e comunistas -, prendeu e executou extrajudicialmente membros dos Panteras Negras e de movimentos indígenas, tentou influenciar o suicídio de Martin Luther King ao espiona-lo e ao expor um caso amoroso que ele tinha fora do casamento. Era um duplo assassinato. O assassinato da sua moral e a imposição do seu suicídio. Mas ele se manteve firme.

O que acontece hoje nas ruas americanas não é espanto. É a falha de em modelo de integração racial que nunca existiu nos EUA, um país que é diverso etnicamente, mas que continua tentando manter os privilégios de uma população branca que vai diminuindo ao longo das décadas. Um ponto interessante é que o poder do homem branco como maioria, no imaginário americano é tão grande, que membros de grupos que antes não eram considerados brancos, como os italianos, pelos descendentes anglo-saxões, germânicos e escandinavos, passaram a ser considerados brancos lá atrás. E hoje, muitos latinos já são considerados brancos, também.

O que acontece hoje é o desespero de um modelo de país que está fadado ao fracasso. Um dia será extinto, assim como o conceito de superioridade racial dois séculos atrás. Mas até lá, as ruas precisam pegar fogo!

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