A simbólica morte de Miguel

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Ilustração: Nando Motta

Esse horror que é a morte do menino Miguel é a história com mais símbolos de que eu tenho lembrança:

A empregada que trabalha durante a pandemia;

A empregada que não tem com quem deixar o filho;

A empregada é negra;

A patroa é loura;

A patroa é casada com um prefeito;

O prefeito tem uma residência em outro município, que não é o que governa;

A patroa tem um cachorro, mas não leva ele pra passear, delega;

A patroa está fazendo as unhas em plena pandemia, expondo outra trabalhadora;

A patroa despacha sem remorso o menino no elevador;

O menino se chama Miguel, nome de anjo;

O sobrenome da patroa é Corte Real;

A empregada pegou Covid com o patrão;

A empregada consta como funcionária da Prefeitura de Tamandaré;

Tudo isso acontece nas torres gêmeas, ícone do processo e verticalização desenfreada, especulação imobiliária e segregação da cidade do Recife;

Tudo isso acontece em meio aos protestos Vidas Negras Importam;

Tudo isso acontece no dia em que se completaram cinco anos da sanção da lei que regulamentou o trabalho doméstico no Brasil;

É muita coisa, muito símbolo.

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