O Brasil perdeu Carlos Lessa, o Professor

“A melhor maneira de aprender é ensinando”.

Hoje pela manhã o Brasil perdeu o professor aposentado da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ, Carlos Lessa, graduado em Ciências Econômicas na UFRJ em 1959. Mestre em Análise Econômica pelo Conselho Nacional de Economia, doutorou-se em Ciências Humanas, em 1980, pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Exilado no Chile após o golpe militar de 1964 retornou pouco antes do AI-5 e ajudou a fundar o Instituto de Economia da Unicamp. Entrou por concurso público para a UFRJ em 1978, junto com a professora Maria da Conceição Tavares.  Foi de diversas instituições:: Ministério das Relações Exteriores, Centro Econômico para América Latina (Cepal/ONU), Superintendência de Desenvolvimento Econômico (Sudene), Instituto Latino-americano e do Caribe de Planificação Econômica e Social (Ilpes/ONU), Banco Interamericano de Desenvolvimento (Intal/BID/Argentina), Centro Interamericano de Capacitação em Administração Pública (Cicap/Venezuela), Universidade do Chile, Fundação Getúlio Vargas (FGV), BNDES, Fundação para o Desenvolvimento da Administração Pública (Fundap), Unicamp, Conselho Superior de Previdência Social (CSPS). Foi Decano do Centro de Ciências Jurídicas e Econômicas. Foi Reitor da UFRJ em 2002, cargo do qual se licenciou para assumir a presidência do Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) a convite do Presidente Lula, em 2003, onde ficou até o fim de 2004.

Um lutador da democracia e da soberania nacional

No início dos anos 1980, em paralelo com suas aulas na graduação e pós-graduação na UFRJ, Carlos Lessa integrou intensamente os movimentos de redemocratização do país. Assessorou o então Presidente Nacional do PMDB  Ulysses Guimarães e fez  inúmeras conferências por todo o país,  mostrando os limites que a ditadura militar oferecia para o crescimento do Brasil. Essas conferências tinham como objeto predominante a questão social resultante do arrocho salarial e do desemprego. 

Lessa foi um dos autores, em 1982, do programa do PMDB chamado de Esperança e mudança, que sintetizava os anseios daqueles então conhecidos como “os economistas da oposição”. Quando caiu a ditadura militar, em 1985, ocupou uma diretoria do BNDES durante o governo de José Sarney que era voltada para financiamento de programas para beneficiamento do lixo, saneamento básico, eletrificação rural e aleitamento materno.  Foi um crítico severo das políticas neoliberais dos governos Collor de Melo e Fernando Henrique Cardoso das políticas econômicas e sociais que aumentavam as desigualdades no país.  Nesse período escreveu dois grandes clássicos para aqueles que estudam o Rio de Janeiro: Século XIX, o Rio de todos os Brasis e a Enciclopédia da Brasilidade.  Ele analisa que o Rio de Janeiro. Para Lessa o Rio de Janeiro naquele período era uma cidade que deixou de ser maravilhosa após a transferência da capital para Brasília, mas que tinha como característica ela ser um símbolo nacional, um verdadeiro objeto de desejo em todo o mundo, mas que acabou sendo engolida pela crise econômica continua.  Ela era testemunha dos desequilíbrios e distâncias socioeconômicos nacionais e no paradigma de má qualidade da vida urbana”. 

Ele acreditava no povão. No seu livro Enciclopédia da Brasilidade escreveu sobre a importância da recuperação da autoestima nacional, destruída ao longo do processo de redemocratização do país. Dizia que “o país passou por uma transformação cultural na rejeição ao autoritarismo, que implicou uma crítica destrutiva, que eliminou tudo o que de bom herdamos do estado desenvolvimentista e da visão positiva que tínhamos da nação e da identidade dos brasileiros” Um tema bastante atual.  Questionava as afirmações que o brasileiro não era violento, depois de um festival de truculência e torturas. Era rigoroso em relação aos que diziam que tínhamos uma ausência de preconceitos e mostrava com dados que os afro-brasileiros formavam em massa um dos segmentos mais pauperizados do País. 

Em 2000, estava terminando o mandato do reitor interventor nomeado por Fernando Henrique Cardoso. Durante o seu mandato, Carlos Lessa como Decano do CCJE usava o Conselho Universitário para denunciar aquela situação e protestar contra o autoritarismo daquele que ali estava como reitor da UFRJ sem ser eleito pela Comunidade da UFRJ.  Os colegiados superiores não funcionavam, os recursos orçamentários do MEC estavam nos piores níveis do histórico da instituição. Nenhum concurso de técnico administrativo era realizado e pouquíssimas vagas para o corpo docente. Isso geral o que Carlos Lessa chamava de “tecido social esgarçado e orçamento no osso”

Quem iria nomear o próximo Reitor ainda era FHC, e a o nome de Carlos Lessa apareceu como o nome que unificava toda a Comunidade da UFRJ e tinha uma grande respeitabilidade no mundo político, acadêmico e científico do país. Isso blindava a UFRJ de outra intervenção e Carlos Lessa foi vitorioso nas urnas por mais de 85% de votos em cada segmento.

No dia da sua posse em Brasília apresentou ao então ministro Paulo Renato de Souza (que foi seu colega na Unicamp) um Plano Emergencial para a UFRJ, com propostas de ações imediatas para eliminar perigos diretos à integridade física da comunidade universitária – como incêndios, doenças etc. – e recuperar instalações elétricas, sanitárias, telefônicas etc.  Na semana seguinte em sua posse festiva perante a Comunidade da UFRJ declarou que estava agradecendo “a todas aquelas instituições e representações políticas que, prontamente, validaram nossa consulta, percebendo-a como essencial à preservação e restauração de nossa Universidade e à restauração de nossa dignidade. E que “O Rio sabe que a UFRJ, com mais de 3.500 professores, quase 10 mil funcionários técnico-administrativos e 40 mil estudantes, é uma “cidade do espírito” inscrita na essência da vida metropolitana. A construção de futuros é a principal missão da Universidade. Profissionais, intelectuais, críticos, quadros dirigentes, experimentados e amadurecidos, são egressos da Universidade e temperados pela vida. São os futuros imprescindíveis. Da Universidade emana o desenvolvimento científico que alimenta as tecnologias do futuro.”

Em 15 de agosto de 2008, recebeu das mãos do Reitor Aloísio Teixeira, o título de Professor Emérito da UFRJ em uma sessão nobre do Conselho Universitário. No seu discurso como Professor Emérito, disse parafraseando a declaração de Maria da Conceição Tavares, quando foi presa durante a ditadura: “Eu sou um professor”.  Para ele existem três características importantes para atuar no magistério: “é preciso ser ator e um Don Juan, para convencer e seduzir o outro a acreditar no que pensa o professor; e a melhor maneira de aprender é ensinando”.  Mais adiante afirmou que “O Brasil precisa voltar a ser tema de discussão nas escolas e universidades”.

Seu filho, Ricardo Lessa anunciou hoje nas redes sociais:   “Meu amado pai foi hoje as 5 horas da manhã descansar. A tristeza é enorme. Seu último ano de vida foi de muito sofrimento e provação. O legado que ele deixou não foi pequeno. Foi um exemplo de amor incondicional pelo Brasil, coerência e honestidade intelectual, espírito público, um professor como poucos e uma alma generosa que sempre ajudou a todos que podia quando estava a seu alcance, um grande amigo. Que descanse em paz”

Saudades do Professor

Autor

Um comentario para "O Brasil perdeu Carlos Lessa, o Professor"

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *