João Bosco: A vida ou a carteira?

Em nome de uma pretensa necessidade de manutenção da capacidade de geração de lucro – de alguns poucos –, gestores preconizam, irresponsavelmente, o fim do isolamento social

Imagine você, caro leitor, enfrentando uma situação não tão incomum, atualmente. Andando pela rua, você é abordado por um assaltante que, de arma na mão, lhe diz: “A vida ou a carteira?”. Com certeza, você entregará a carteira e preservará a sua vida. Vivo, você terá a chance de, com seu trabalho, recuperar o dinheiro perdido.

Digo isso porque, por mais óbvio que seja, ainda tem gente que acha mais importante os bens materiais do que a vida do próximo. E não estou falando de pessoas de baixo nível educacional – mas, sim, de pessoas responsáveis pela chefia do Poder Executivo. E que, por conta disso, deveriam ser portadoras de elevado grau de civilidade.

Para ser mais específico, me refiro ao senhor presidente da República, Jair Bolsonaro, e ao senhor prefeito de São José dos Campos, em final de mandato, Felício Ramuth. Grotescas figuras, desdenham dos efeitos trágicos da Covid-19, que tantos males tem causado ao povo brasileiro, em particular aos brasileiros de São José dos Campos.

Em nome de uma pretensa necessidade de manutenção da capacidade de geração de lucro – de alguns poucos –, ambos preconizam, irresponsavelmente, o fim do isolamento social.  Ao incentivar, como fazem, o funcionamento normal de estabelecimentos que exercem atividades não essenciais, esses dois senhores das trevas estimulam as aglomerações nesta delicada fase de crescimento da curva epidemiológica

Tudo o que não deve ser feito, conforme orientam as comunidades científicas e médicas especializadas no assunto, do Brasil e do mundo.

Em todo o País, o novo coronavírus já infectou mais de 1,7 milhão de pessoas e matou quase 70 mil. Em São José, já são mais de 4 mil casos confirmados e 118 mortes por Covid-19 até esta quinta-feira (9). É uma verdadeira calamidade, uma catástrofe humanitária sem precedentes.

Nossa querida cidade de São José dos Campos, bem como seu povo, vem sofrendo muito com os efeitos sociais e econômicos da pandemia. Os joseenses estão tendo perdas significativas de renda e salário – e estão muito inseguros quanto ao tempo de duração deste tormento sanitário. Todos temem o risco da própria contaminação e de seus entes queridos. E, também, estão inseguros sobre qual será a realidade que há de vir, quando tudo isto passar.

Todos esperam das autoridades e dos Poderes Públicos – seja do governo federal, do governo do estado ou da administração municipal – imediatas e urgentes providências visando minorar os sofrimentos e angústias a que estão submetidos. Do Planalto, a ajuda que pode vir é muito pouca e não atende a todas as necessidades.

Para os bancos, Bolsonaro liberou R$ 1,2 trilhão em 24 horas. Mas, para os brasileiros necessitados, ele levou 15 dias só para assinar a lei aprovada pelo Congresso Nacional, que concede o auxílio emergencial de R$ 600 por três meses – e muitas pessoas ainda não receberam sequer a primeira parcela.

Como se vê, o presidente mais atrapalha do que ajuda. Não faz o que precisa ser feito e ainda minimiza os efeitos da pandemia, vai contra a ciência e as orientações da OMS (Organização Mundial da Saúde). Bolsonaro, criminosamente, estimula as aglomerações públicas e o fim do isolamento social, colocando em risco a saúde e a vida das pessoas. Indica até o uso de medicamento não apropriado.

Não bastasse isso, ele ainda cria uma crise política permanente com os demais Poderes (Congresso e Judiciário), ataca prefeitos e governadores que não seguem a cartilha da sua ignorância e flerta com a possibilidade de um golpe contra a nossa democracia. Tudo para tentar assegurar a impunidade aos malfeitos e possíveis crimes da sua família e de seus amigos milicianos. Na economia, nada faz o governo federal que mereça ser comemorado.

O descaso é tamanho que, em plena pandemia, já foram substituídos dois ministros da Saúde, a ponto de, hoje, essa importante pasta ainda não ter um ministro titular. Até hoje, o presidente não veio a público para manifestar qualquer solidariedade às famílias dos mortos, enquanto o Congresso Nacional e o STF já decretaram e cumpriram luto de três dias em memória e respeito aos brasileiros vítimas da Covid-19.

Infelizmente, o prefeito de nossa cidade vem adotando as mesmas atitudes irresponsáveis do presidente em face da pandemia e de seus efeitos devastadores na saúde das pessoas e na economia do município. Sequer o seu governo acompanha algumas das medidas corretas que vem sendo adotadas pelo governador João Dória, que é do seu mesmo partido e que tem adotado medidas, na maioria das vezes, muito mais razoáveis do que o presidente e o prefeito no enfrentamento da crise sanitária.

Ao permitir a reabertura parcial do comércio e de outras atividades não essenciais neste momento de crescimento da curva epidemiológica, o prefeito estimula criminosamente a aglomeração social, pondo em risco a saúde e vida das pessoas. A vida é um bem precioso – e não tem preço!

Antes de promover qualquer flexibilização, o prefeito tem de criar todas as condições para que as pessoas possam se proteger e enfrentar a pandemia em condições dignas de sobrevivência. O prefeito poderia muito bem conceder um auxílio emergencial municipal, no valor de R$ 600, a vigorar até o final do corrente ano, para os joseenses que não recebem o auxílio federal e que se enquadrem nestas categorias e condições: desempregados, autônomos, ambulantes, os que vivem de bicos, faxineiras, domésticas e mães chefes-de-família que foram afastadas ou perderam o emprego, moradores de rua, profissionais da noite, artesãos, artistas e profissionais da cultura, atletas de alto rendimento, motoristas de transporte escolar.

Poderia, também, estimular a manutenção e a recuperação das atividades econômicas e a preservação dos empregos nas micro e pequenas empresas do comércio, da indústria e da prestação de serviços, tais como: bares, restaurantes, lanchonetes, padarias, lojas, salões de beleza, barbearias, academias, clínicas, consultórios, imobiliárias, micro empreendedores individuais, oficinas, sapatarias, pet shops, feirantes, produtores rurais e outros pequenos negócios, profissionais liberais, prestadores de serviço. Como? Mediante a concessão de auxílio financeiro e benefícios fiscais, de caráter emergencial, destinados a ajudar essas empresas e empreendedores a cumprir e a honrar os seus compromissos durante a pandemia.

Afinal, o prefeito em final de mandato foi eleito para governar a cidade e, portanto, é dele a obrigação de tomar as decisões, coordenar os esforços da sociedade e adotar toda e qualquer iniciativa que vise, em primeiro lugar, a preservação da saúde e da vida dos joseenses – sem se descuidar, evidentemente, da preservação da vitalidade da economia local.

Um mundo novo e uma cidade democrática são possíveis, meu caro leitor e minha cara leitora. Sou da opinião de que, desta terrível situação em que estamos vivendo, sairemos todos muito melhores. Teremos um mundo mais humano e fraterno, antirracista, sem Bolsonaro na Presidência, sem Felício na prefeitura e com uma vacina contra a Covid-19.

E você já sabe: enquanto perdurar esta pandemia, tome todas as precauções: fique em casa. Se tiver de sair, evite aglomerações, use máscara, lave sempre as mãos com água e sabão e use álcool em gel. Ah, sim, se você for assaltado na rua, preserve a sua vida, entregue a carteira, mas exija do bandido o necessário distanciamento social.

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