Como o negacionismo científico sofreu sequestro político

Líderes autoritários utilizam negação da ciência para angariar apoio popular, diz Pilati, da Sociedade Brasileira de Psicologia

As redes sociais nos últimos anos e a pandemia de Covid-19 nos últimos meses levaram o negacionismo científico a um novo patamar. Se antes era possível acompanhar com algum humor a defesa de que a Terra é plana, a recusa de parte da população em acreditar no poder letal do novo coronavírus pode contribuir para elevar os números de infectados e mortos.

“Existe um perfil de pessoas que têm uma probabilidade maior de endossar e acreditar em argumentos como esses”, diz, em entrevista ao Valor Econômico, o doutor em psicologia Ronaldo Pilati, professor de Psicologia Social da Universidade de Brasília (UnB) e autor do livro Ciência e Pseudociência: Por Que Acreditamos Apenas Naquilo em que Queremos Acreditar, publicado em 2018 pela Editora Contexto. Segundo ele, o próprio negacionismo científico sofreu um “sequestro político” recentemente, sobretudo de regimes e líderes autoritários, para angariar apoio popular – mas também porque alguns desses líderes realmente acreditam em pelo menos parte dessas teorias.

“Quando você tem visões efetivamente autoritárias e os dados e as evidências empíricas são inconvenientes, você vai construir um discurso de negação das evidências”, diz Pilati, que também preside a Sociedade Brasileira de Psicologia. “Uma pandemia é uma coisa muito desagradável para acabar com a economia para um líder político que tem um projeto de anos de poder, que é caso do nosso atual presidente.”

Leia trechos da entrevista.

Valor: Há uma banalização das mortes por Covid-19 com a divulgação diária de números tão altos?

Ronaldo Pilati: Não diria banalização, mas um mecanismo psicológico que é o quanto aquela informação é atraente e útil. Boa parte das pessoas consegue lidar com aquilo – mas há coisas muito mais impactantes, como as informações que ela consome de primeira pessoa, na maior parte das vezes associadas a casos, seja porque conheceu alguém que teve Covid, ou porque alguém próximo foi hospitalizado. Esses fatores tendem a ser, para a nossa cognição, muito mais impactantes do que números.

Valor: Qual a explicação para pessoas lotarem as praias ou fazerem fila para entrar no shopping sem a pandemia estar controlada?

Pilati: Numa pesquisa com 2.100 pessoas no fim de março, pela internet, com uma aluna de doutorado, tentamos entender a adesão às medidas. Pessoas que lidam pior com a incerteza apresentaram indícios de que romperiam mais o distanciamento social. É um dado correlacional, não de causa e efeito. Também foi significativo o número de pessoas dizendo que romperiam o distanciamento por questões econômicas. Outro fator é a observação do comportamento dos demais, um pouco o que os economistas chamam de efeito manada, a influência do comportamento pelo comportamento do outro, o comportamento normativo. Na medida em que os brasileiros em geral começam a observar afrouxamento do sistema, várias coisas abrindo, 100% do transporte na rua, tem mais gente se movimentando. Isso motiva pessoas a se movimentarem mais.

Valor: O negacionismo científico está em alta?

Pilati: Defensores da Terra plana existem há mais de 2 mil anos. O que se intensificou muito nos últimos anos é que essas pessoas se encontraram virtualmente, nas redes sociais, e esse pacote de expressão de opiniões fez com que uma crença como essa encontrasse uma expressão social, popular e cultural mais evidente. E as pessoas estão se encontrando. Houve dois eventos de terraplanistas no Brasil no ano passado. Além disso, ficar usando recorrentemente esse tema como exemplo, como estamos fazendo agora, acaba trazendo o assunto mais à tona, porque é um exemplo interessante, de tão absurdo, mas tem gente que acredita.

Valor: Não acreditar que existe uma pandemia é um caso de negacionismo científico?

Pilati: Sim, acho que estamos falando do mesmo tipo de argumento que as pessoas usam para negar fatos científicos. Há uma tendência, entre as pessoas que têm essas crenças, de endossar mais de uma delas ao mesmo tempo. Existe uma correlação entre pessoas que negam a teoria da evolução humana e as que acham que os vapores de condensação das turbinas dos aviões pulverizam uma substância para deixar os habitantes da Terra mais estúpidos (a teoria das “chemtrails”, ou rastros químicos).

Valor: Como a política influencia esses processos?

Pilati: Há um processo grande de sequestro político dessas teorias, com um interesse por trás, para amalgamar apoio popular. Especialmente a pandemia da Covid tem um aspecto muito grande de politização do discurso, para fomentar determinados grupos de apoio. Quando as evidências são inconvenientes, esse processo de usar argumentos conspiratórios para tentar desconstruí-las, e assim convencer parte da opinião pública, é recorrente em vários regimes políticos diferentes, principalmente se eles têm um viés mais autoritário. Uma pandemia é uma coisa muito desagradável para acabar com a economia para um líder político que tem um projeto de anos de poder, que é caso do nosso atual presidente.

Valor: Regimes autoritários têm mais afinidade com o negacionismo?

Pilati: A ciência é uma forma de encarar a realidade tanto para entender o mundo como para criar soluções para a gente viver nesse mundo, que podem produzir coisas boas e ruins. O que ela usa como princípio é o confronto das ideias com a realidade empírica. O pensamento científico é de desconstrução. Eu não trabalho como cientista para produzir confirmações daquilo que meus orientadores me ensinaram, mas para tornar isso falso, eventualmente encontrar uma explicação diferente, mais precisa. Esse princípio, por si só, não se atrela a ideias – e qualquer regime autoritário, no qual o pensamento científico vai de encontro a esse aspecto, vai ser questionado. Quando verdades inconvenientes são apresentadas, os regimes mais autoritários vão tender a construir argumentos para tentar desqualificá-las.

Valor: Como a cloroquina entra nessa discussão?

Pilati: O argumento conspiratório em relação à indústria farmacêutica é muito recorrente, como no caso da “pílula do câncer” em 2016, e está servindo para a cloroquina agora, de que é uma substância eficiente e os laboratórios não têm interesse nela porque é muito barata e não vai dar dinheiro, o que faz parte da ideia conspiratória no mundo dos medicamentos.

Valor: O que leva uma pessoa a efetivamente acreditar nessas teorias?

Pilati: Na psicologia, estudamos o endosso às “crenças em bobagens pseudoprofundas”, coisas que têm a aparência de raciocínio profundo, intelectual, mas não são, porque estão alicerçadas numa ideia conspiratória do tipo “a Nasa fez Photoshop dessa foto aí para botar a Terra redonda, mas ela não é”. Existe um perfil de pessoas que têm uma probabilidade maior de endossar e acreditar em argumentos como esses. Não quer dizer que vão acreditar em qualquer teoria conspiratória. Depende do assunto, de outras informações e outros processos de formação.

Valor: Do nível de escolaridade?

Pilati: Não é necessariamente o nível educacional das pessoas que explica o fato de elas endossarem ou não essas crenças estranhas. Às vezes, o nível educacional faz com que a pessoa consiga construir mais elementos argumentativos para se convencer de uma ideia conspiratória para negar um fato científico. Nos congressos de Terra plana tem muita gente de nível superior e pessoas pós-graduadas. Você dar possibilidade de conhecer informação em nível educacional vai aumentar as chances de pessoa colocar em crítica as próprias crenças. É uma condição necessária, mas não suficiente para explicar o fenômeno.

Valor: Olhando para o noticiário recente e a força das redes sociais, o negacionismo parece se espalhar para áreas menos tradicionalmente associadas à ciência. Dizer que não existe racismo no Brasil é uma dessas formas?

Pilati: Essa onda negacionista está em diferentes dimensões. A ideia de você negar o racismo é um negacionismo científico também, que nega evidências e fatos. Usar uma revisão histórica para negar a escravidão, por exemplo, vai contra tudo que se sabe no sentido de pesquisa historiográfica, antropologia e biologia evolutiva – você vai construir um discurso para tentar desfazer essa evidência de alguma maneira. Não é muito diferente da forma que o terraplanista vai usar para dizer que a foto do planeta não é evidência, porque foi manipulada e alguém por trás está querendo me convencer de uma coisa errada.

Valor: O revisionismo histórico é outra forma de negacionismo científico?

Pilati: Com dados históricos, em que você não tem uma evidência física tão explícita quanto uma foto do globo terrestre, você tem discursos e estratégias para negar essa evidência que são até mais persuasivos. É mais difícil convencer as pessoas no caso da Terra, de que uma centena de fotos é fruto de manipulação, do que no caso de uma revisão como a de que não existiu escravidão, de que não existe desigualdade ou que não houve ditadura. São importantes para o discurso político essas revisões históricas também, elas entram no pacote mais amplo do que a gente entende como negacionismo científico. Os mecanismos de convencimento, com negação das evidências e teorias conspiratórias, são necessários em toda corrente negacionista.

Com informações do Valor Econômico

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