Onde estão os educadores?

Mais do que reabrir as escolas é preciso dizer o que irá se encontrar nelas quando reabertas

Ninguém melhor que os educadores para afirmar que é preciso retornar às escolas. O retorno às aulas presenciais deve ser preocupação diária dos educadores. Esses profissionais sabem o quanto é importante para a aprendizagem as relações estabelecidas dentro do ambiente escolar, as interações, a convivência e a afetividade com o outro auxiliam no processo cognitivo, sem essas interações a aprendizagem não acontece plenamente. Por isso, na educação básica o ano letivo não pode ser garantido contabilizando as horas de atividades remotas.

Retornar as escolas, é uma das ações importantes para garantir o direito à uma educação plena e integral, porém, se não for acompanhada de outras ações, como rediscussão de currículo e o planejamento pedagógico, teremos um retorno desastroso. Sem ações pedagógicas efetivas, conteúdos e aprendizagens não serão de fato recuperados. Como já mencionado em outro artigo, não se deve retomar do ponto de onde parou. Educadores precisam tomar pra si essa questão, precisam assumir esse debate e fazê-lo de forma responsável e comprometida.

O ano letivo de 2020 contou com apenas dois meses de aulas presenciais e estar por completar seis meses de atividades remotas. Mesmo retornando agora, não é viável considerar o ano letivo como concluído em dezembro de 2020 ou fevereiro de 2021. Isso representaria o aligeiramento da formação, preocupada em formar apenas mão de obra rápida, sem o compromisso em oportunizar espaços e tempos para que a formação ocorra de forma plena, ofertando ao mesmo tempo instrução e conhecimento.

Ser contrários a conclusão do ano letivo ainda em 2020 ou fevereiro de 2021, não significa dizer que o ano letivo deva ser cancelado ou que é um ano perdido. Ele pode ser recuperado, os conteúdos podem ser replanejados dentro de um novo calendário, com novas estratégias pedagógicas. Todos são capazes de aprender e todos devem ter garantido o direito ao ensino e a aprendizagem. A falta de uma condução séria da crise e um debate superficial sobre a retomada das aulas está deixando em segundo plano questões pedagógicas fundamentais.

A ideia de um “novo normal” traz consigo concepções conservadoras de adaptação, passividade e até conformismo. Educadores não podem aceitar a ideia de que basta adaptar as estruturas físicas de escola e reinventar a profissão para seguir em frente.

A crise não é somente sanitária, é econômica e política, revela os projetos em disputa. No que diz respeito a educação o que está em jogo é se seguirá em curso a implementação de uma educação cada vez mais voltada ao mercado, sem a preocupação com formação do cidadão pleno ou se resistiremos, impondo a demanda dos interesses dos filhos da classe trabalhadora.

A resistência deve ocorrer alertando que não é viável contemplar o ano letivo de 2020 com atividades remotas e poucos meses de aulas presencias. Projetos de recuperação, atividades em contra turno, são ações que visam aligeirar o processo, passando pra frente quem de maneira duvidosa teve algum contato com o ambiente remoto e de outro lado estigmatizando aqueles que por diversas razões não conseguiram esse contato. Mais uma vez, milhares de crianças e jovens seriam excluídos da educação dentro da própria escola.

Se faz urgente a elaboração de um novo calendário letivo que entenda os próximos anos como um ciclo de aprendizagem, dentro destes ciclos encaixar um novo currículo (emergencial). Fazer isso implica também ter uma política séria de avaliação, não as avaliações censitárias para rankear escolas e estados, será preciso avaliações diagnosticas dentro de cada território para subsidiar a gestão democrática das escolas e a construção de seus Projetos Políticos Pedagógicos. Pensar ações de acolhimento que não se limitem a uma semana de conversas com profissionais da saúde.

É preciso construir um diálogo intersetorial para que a saúde possa dar suporte durante um longo período. Além de tudo isso, exigir políticas públicas que permitam trazer de volta à escola crianças e jovens que durante a pandemia se viram obrigados a executar diversas tarefas para sobreviver, que não estudar. Enfim, a conjuntura nos mostra que se ações pedagógicas não forem pensadas e implementadas agora, os danos serão gigantescos.

Mais do que reabrir as escolas é preciso dizer o que irá se encontrar nelas quando reabertas. Serão escolas seletivas, reprodutoras de conhecimentos técnicos, atendendo aos anseios do mercado que apelará a crise para justificar tais ações; ou escolas que planejaram suas ações a luz de um currículo, espaços e tempos para atender a todos sem distinção?

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