Guerra comercial: China olha o longo prazo e avança sem confrontação

Governo de Xi Jinping não passou recibo em nenhum momento para o governo Donald Trump

Na guerra comercial entre Estados Unidos e China, os norte-americanos agem como se jogassem xadrez e buscassem o xeque-mate. Já os chineses encaram a disputa como um weiqi (go), jogam para acumular espaços e tentam encurralar sem pressa o adversário. Colunista da Folha de S.Paulo, Tatiana Prazeres evoca nesta sexta-feira (30) a metáfora dos jogos de tabuleiros – já usada por Henry Kissinger no livro Sobre a China  para situar o maior conflito econômico desta geração, em especial a resposta chinesa.

“Pequim evitou confrontação direta, respondeu de maneira relativamente moderada à sequência de medidas americanas”, explica Tatiana. “Diante de barreiras tarifárias por parte dos EUA, os chineses retrucaram com tarifas, mas sempre num tom menor que o dos americanos. Não restringiram investimentos dos EUA na China. Seguiram abrindo o mercado a conta-gotas, mas permitiram acesso, por exemplo, ao seu cobiçado setor financeiro por parte de gigantes como Mastercard e JPMorgan.”

Segundo a colunista – que morou em Pequim e foi conselheira sênior do diretor-geral da OMC (Organização Mundial do Comércio) –, o governo de Xi Jinping não passou recibo em nenhum momento para o governo Donald Trump. Sequer se importou quando, em janeiro de 2019, o “presidente-candidato” alardeava a conquista do acordo fase 1 – um “proto-acordo anunciado com fanfarra, mas de resultados duvidosos”.

Enquanto “administrava as tensões” e ganhava “vantagem relativa e a longo prazo”, a China concebia o plano quinquenal 2021-2026, que está em debate na reunião anual do Partido Comunista Chinês. Escreve a colunista: “O plano quinquenal não é uma resposta aos EUA ou à guerra comercial, mas é uma peça que ajuda a explicar como o partido vê o jogo nos próximos anos. Sob o novo plano, a expressão críptica ‘estratégia da circulação dual’ vira palavra de ordem. Trata-se de ênfase na autossuficiência, no consumo doméstico e nos investimentos em tecnologia e inovação”.

Tudo para tornar a China “menos dependente do exterior —incluindo do humor de autoridades estrangeiras e de países mais resistentes a produtos, investimentos e influência chineses”. A diretriz fora antecipada recentemente por Xi Jinping, ao declarar que o país tem de “elevar a autossuficiência a um outro patamar” e se tornar cada vez menos vulnerável.

“Com a guerra comercial, os americanos fizeram mal a si mesmos —empresas, consumidores e contribuintes—, mas também atingiram os chineses”, diz Tatiana. Ao reagir, “a China evita confrontação direta com os EUA. Responde à sua maneira para mitigar os riscos de um ambiente externo desfavorável. Busca aproveitar as vantagens do seu mercado doméstico e investe em tecnologia para tornar-se mais competitiva que seus oponentes”. Em suma: “Pequim joga com as peças que tem, no tabuleiro em que sabe jogar”.

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