Terá vacina o ódio contra si mesmo?

Se não consegui ser o homem bem sucedido que me disseram para ser, a culpa é do “outro”, esse ser que pode mudar de identidade, mas sempre terá o mesmo papel: o de bode expiatório de uma frustração difícil demais de carregar sozinho.

A concorrência e a competição são os grandes valores estimulados na atualidade. A vida é um jogo e é cada um por si e Deus, caso exista, parece estar contra todos, como cantavam os Titãs já nos anos 1980. Finalmente o capitalismo venceu a guerra contra o socialismo soviético e conseguiu impor na sociedade a sua lógica, transformando cada indivíduo numa empresa que disputa com outras pessoas-empresas, numa selvageria ensinada nos realities shows da televisão, na enxurrada de filmes distópicos em que os mocinhos precisam matar para não morrer. É o fim da história? O que poderia dar errado?

A concorrência e a competição são os grandes valores estimulados na atualidade. A vida é um jogo e é cada um por si e Deus, caso exista, parece estar contra todos, como cantavam os Titãs já nos anos oitenta. Finalmente o capitalismo venceu a guerra contra o socialismo soviético e conseguiu impor na sociedade a sua lógica, transformando cada indivíduo numa empresa que disputa com outras pessoas-empresas. A selvageria das relações é ensinada nos realitys shows da televisão, na enxurrada de filmes distópicos em que os mocinhos precisam matar para não morrer. É o fim da história? O que poderia dar errado?

A euforia do centro financeiro do mundo começou a virar lá em setembro de 2001 quando aviões atingiram as torres gêmeas no coração de Wall Street. Lá pode ter iniciado uma nova fase do capitalismo. Lá, com George Bush e seus atos patrióticos contra o terrorismo, o capital foi fechando as portas da democracia. Prisões e torturas já são admitidas para combater o mal do terrorismo. 

O problema de combater o mal é que quanto mais você o combate, mais ele se multiplica. A próxima explosão que se fez sentir foi o estouro da bolha do capital financeiro nos EUA em 2008. O capitalismo oficialmente entra numa grave crise. Analistas se apressavam em decretar o seu fim. Mas o defunto anunciado parece agir como os mortos-vivos dos filmes distópicos mencionados acima. Caminha insepulto, com uma capacidade infinita de espalhar a morte-vida. 

Aquela concorrência que parecia uma boa ideia foi ativando outra bomba prestes a explodir. A bomba do ódio dos derrotados e humilhados. Sim, quando você joga uns contra os outros numa sociedade, haverá perdedores. E serão muitos, talvez todos. A bolha financeira que estourou, gerou milhões de perdedores. Perdedores de empregos, de dinheiro, de casa, de dignidade. A euforia virou raiva, ansiedade, depressão, abandono. 

Nos EUA, na Europa ocidental, no leste europeu, instabilidade e recessão econômica, desindustrialização, austeridade, corte de direitos sociais. O grande sonho do Estado de bem estar social europeu foi atacado por uma contrarrevolução neoliberal. A necessidade de adequar os governos à grande concorrência global foi deixando quase impossível a efetiva participação da cidadania no processo de tomada de decisões. A democracia representativa perde crédito e confiabilidade. As pessoas sentem-se abandonadas pelo sistema político vigente nas democracias liberais mundo a fora. 

A revolta toma as ruas de maneira difusa, incompreensível. Espontâneo ou controlado? Grécia, Espanha, Arábia Saudita, Brasil. Uma revolta contra a política, dos indignados às jornadas de junho, tem dificuldade de ser expressada pelos partidos vigentes. Novos partidos surgem e com eles um fenômeno totalmente recente: o surgimento de uma extrema direita com apoio popular. 

Esse fenômeno pode ser o que Gramsci se referia como o monstro que irrompe quando o velho agoniza e o novo tarda a aparecer. Na agonia e na crise do capitalismo neoliberal, sem, contudo, surgir uma alternativa a esse neoliberalismo agonizante, vão surgindo formas mais autoritárias de pensamento. O ódio por ser abandonado, por ter perdas decorrentes da crise do capitalismo não gera um ódio contra o capitalismo, e sim contra o “outro”, que pode ser o imigrante, que pode ser a mulher, o negro, o pobre, a China comunista, o PT… 

Ao se desfiliar de uma ideia de política aos moldes da democracia, uma massa cada vez mais crescente de revoltados passa a dar vazão a paixões racistas, misóginas, xenófobas. O ódio destilado àquele que parecem roubar a farinha, quando o momento é de “farinha pouca, meu pirão primeiro”. No fundo, este é um ódio contra si mesmo. O ódio pela derrota, por não atingir uma expectativa de sucesso vendida como o destino de cada indivíduo. Se não consegui ser o homem bem sucedido que me disseram para ser, a culpa é do “outro”, esse ser que pode mudar de identidade, mas sempre terá o mesmo papel: o de bode expiatório de uma frustração difícil demais de carregar sozinho.

O capitalismo aumenta sua violência e seu autoritarismo. Há uma boa notícia? O aumento de instrumentos de força para fazer valer sua agenda revela justamente a crise e, portanto, sua fragilidade. É verdade que o capitalismo financeiro, neoliberal, hegemonizado desde os EUA, está velho e agoniza. Mas as catástrofes anunciadas pela dinâmica de seu funcionamento, que para produzir precisa destruir vidas humanas e naturais, não permite mais que tenhamos a crença inabalável na emancipação como o único destino da humanidade e do planeta. Sim, há a possibilidade que trilhemos a via da barbárie, a via mesmo do fim da vida como nós conhecemos. Mas há também a possibilidade da construção de uma outra sociedade, emancipada do capitalismo. 

Uma sociedade em que o peso do sucesso ou do fracasso não recaia sobre os ombros dos indivíduos isoladamente, mas que possa esse peso ser carregado coletivamente, em um ambiente de solidária cooperação. Uma sociedade em que o “outro” não seja visto como uma ameaça ou como algo  a ser usado. Uma sociedade em que possamos viver em harmonia, desenvolvendo em comunidade a verdadeira potência de sermos quem verdadeiramente somos, sem termos que competir com ninguém. Uma sociedade assim parece inatingível, mas é uma possibilidade se ao invés de enxergarmos o “outro” como ameaça, nos unamos em prol da cooperação e do progresso da vida. 

P.S.: Acabamos de receber a notícia que o Instituto Butantã em cooperação com uma farmacêutica chinesa Sinovac, finalizou os testes e chegou a 78% de eficácia contra o Coronavírus. Vitória da cooperação entre cientistas brasileiros e chineses. Será o fortalecimento dos laços entre países, instituições e pessoas em nível global o caminho para aconstrução de um mundo que supere a disruptiva racionalidade neoliberal.

Seriam altas doses de cooperação entre as pessoas a vacina contra o ódio a si mesmo?

A concorrência e a competição são os grandes valores estimulados na atualidade. A vida é um jogo e é cada um por si e Deus, caso exista, parece estar contra todos, como cantavam os Titãs já nos anos 1980. Finalmente o capitalismo venceu a guerra contra o socialismo soviético e conseguiu impor na sociedade a sua lógica, transformando cada indivíduo numa empresa que disputa com outras pessoas-empresas, numa selvageria ensinada nos realities shows da televisão, na enxurrada de filmes distópicos em que os mocinhos precisam matar para não morrer. É o fim da história? O que poderia dar errado?

A euforia do centro financeiro do mundo começou a virar lá em setembro de 2001 quando aviões atingiram as torres gêmeas no coração de Wall Street. Lá pode ter iniciado uma nova fase do capitalismo. Lá, com George Bush e seus atos patrióticos contra o terrorismo, o capital foi fechando as portas da democracia. Prisões e torturas já são admitidas para combater o mal do terrorismo. 

O problema de combater o mal é que quanto mais você o combate, mais ele se multiplica. A próxima explosão que se fez sentir foi o estouro da bolha do capital financeiro nos EUA em 2008. O capitalismo oficialmente entra numa grave crise. Analistas se apressavam em decretar o seu fim. Mas o defunto anunciado parece agir como os mortos-vivos dos filmes distópicos mencionados acima. Caminha insepulto, com uma capacidade infinita de espalhar a morte-vida. 

Aquela concorrência que parecia uma boa ideia foi ativando outra bomba prestes a explodir. A bomba do ódio dos derrotados e humilhados. Sim, quando você joga uns contra os outros numa sociedade, haverá perdedores. E serão muitos. A bolha financeira que estourou, gerou milhões de perdedores. Perdedores de empregos, de dinheiro, de casa, de dignidade. A euforia virou raiva, ansiedade, depressão, abandono. 

Nos EUA, na Europa Ocidental, no Leste Europeu, instabilidade e recessão econômica, desindustrialização, austeridade, corte de direitos sociais. O grande sonho do Estado de bem estar social europeu foi atacado por uma contrarrevolução neoliberal. A necessidade de adequar os governos à grande concorrência global foi deixando quase impossível a efetiva participação da cidadania no processo de tomada de decisões. A democracia representativa perde crédito e confiabilidade. As pessoas sentem-se abandonadas pelo sistema político vigente nas democracias liberais mundo a fora. 

A revolta toma as ruas de maneira difusa, incompreensível. Espontâneo ou controlado? Grécia, Espanha, Arábia Saudita, Brasil. Uma revolta contra a política, dos indignados às jornadas de junho, tem dificuldade de ser expressada pelos partidos vigentes. Novos partidos surgem e com eles um fenômeno totalmente recente: o surgimento de uma extrema direita com apoio popular. 

Esse fenômeno pode ser o que Gramsci se referia como o monstro que irrompe quando o velho agoniza e o novo tarda a aparecer. Na agonia e na crise do capitalismo neoliberal, sem, contudo, surgir uma alternativa a esse neoliberalismo agonizante, vão surgindo formas mais autoritárias de pensamento. O ódio por ser abandonado, por ter perdas decorrentes da crise do capitalismo não gera um ódio contra o capitalismo, e sim contra o “outro”, que pode ser o imigrante, que pode ser a mulher, o negro, o pobre, a China comunista, o PT… 

Ao se desfiliar de uma ideia de política aos moldes da democracia, uma massa cada vez mais crescente de revoltados passa a dar vazão a paixões racistas, misóginas, xenófobas. É no fundo um ódio contra si mesmo. O ódio pela derrota, por não atingir uma expectativa de sucesso vendida como o destino de cada indivíduo. Se não consegui ser o homem bem sucedido que me disseram para ser, a culpa é do “outro”, esse ser que pode mudar de identidade, mas sempre terá o mesmo papel: o de bode expiatório de uma frustração difícil demais de carregar sozinho.

O capitalismo aumenta sua violência e seu autoritarismo. Há uma boa notícia? O aumento de instrumentos de força para fazer valer sua agenda revela justamente a crise e, portanto, sua fragilidade. É verdade que o capitalismo financeiro, neoliberal, hegemonizado desde os EUA, está velho e agoniza. Mas as catástrofes anunciadas pela dinâmica de seu funcionamento, que para produzir precisa destruir vidas humanas e naturais, não permite mais que tenhamos a crença inabalável na emancipação como o único destino da humanidade e do planeta. Sim, há a possibilidade que trilhemos a via da barbárie, a via mesmo do fim da vida como nós conhecemos. Mas há também a possibilidade da construção de uma outra sociedade, emancipada do capitalismo. 

Uma sociedade em que o peso do sucesso ou do fracasso não recaia sobre os ombros dos indivíduos isoladamente, mas que possa esse peso ser carregado coletivamente, em um ambiente de solidária cooperação. Uma sociedade em que o “outro” não seja visto como uma ameaça ou como alguém a ser usado. Uma sociedade em que possamos viver em harmonia, desenvolvendo em comunidade a verdadeira potência de sermos quem verdadeiramente somos, sem termos que competir com ninguém. Uma sociedade assim parece inatingível, mas é uma possibilidade se ao invés de enxergarmos o “outro” como ameaça, nos unamos em prol da cooperação e do progresso da vida. 

P.S.: Acabamos de receber a notícia que o Instituto Butantã em cooperação com uma farmacêutica chinesa Sinovac, finalizou os testes e chegou a 78% de eficácia contra o Coronavírus. Vitória da cooperação entre cientistas brasileiros e chineses. Será o fortalecimento dos laços entre países, instituições e pessoas em nível global o caminho para a construção de um mundo que supere a destrutiva racionalidade neoliberal.

Autor

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *