De dar inveja ao nazismo

“O Brasil é hoje o palco dos maiores horrores vistos no planeta.”

Ilustração: Carlos Latuff/@carloslatuff

Teoria da conspiração, quem nunca? Da área 51 ao vírus criado em laboratório (possível, mas por Trump), cada um e cada uma de nós já ouviu alguma estória tendendo ao surreal, algo fantasioso. E aí veio a pandemia, e o que se mostrava surreal confirma-se como premeditação: a política brasileira de enfrentamento ao Covid voltada à a morte, não à saúde.

Até há pouco, Bolsonaro era um inexpressivo e obtuso deputado do baixo clero, com quase nenhuma expressão. Veio o golpe e o deputado de má figura e péssimo discurso tornou-se presidente. Um ano depois de um governo desastroso, veio a pandemia. E o que já se mostrara catastrófico piorou. O Brasil é hoje o palco dos maiores horrores vistos no planeta.

O governo brasileiro respondeu à pandemia de forma cruel. Escarneceu das vítimas, desqualificou profissionais, negou recursos e foi totalmente avesso a medidas capazes de minimizar os danos. Em nome da economia e de uma “macheza” grotesca impeliu seus seguidores a negar as mais básicas providências, como máscaras e distância. Em nome da economia recusou quaisquer medidas de isolamento, demitiu dois ministros da saúde que, minimamente, reconheceram a letalidade da pandemia.

Aí notamos uma das marcas mais expressivas da necropolítica que o governo impôs ao povo. Neoliberais notórios entraram em choque com o governo, destacando-se apenas por fazer parte do que lhes cabe enquanto gestores. Não fosse o tucano Dória a vacinação não teria começado ainda no Brasil.

Podemos pensar em incompetência? Em ignorância? Em desprezo para com o povo do Brasil?

Categoricamente respondo – NÃO!

O Brasil tem perto de 215 milhões de habitantes. Cerca de 30 milhões são aposentados, recebendo em média 1,5 SM. Abaixo da linha da pobreza, perto de 52 milhões, sendo que destes 13 milhões em extrema pobreza. Um milhão de indígenas e outro tanto de quilombolas.

Para o neoliberalismo do século XXI parte destas parcelas acima são excedentes. Não são consumidores, representam gastos com saúde e assistência social, superlotam presídios e não são aproveitáveis sequer para ocupar os postos mais desqualificados do mercado de trabalho. São excedentes. Um dos setores que antes ocupava muitos braços, a agricultura, hoje conta com maquinário potente e capaz de realizar tarefas de cem homens por apenas um. Já não existem mais as grandes linhas de produção com centenas de operários, a mecanização de lavouras e indústrias promoveu parte deste contingente de desempregados e informais. A uberização e as reformas trabalhista e previdenciárias completam o quadro de pauperização dominante no Brasil. A política reversa e constritiva atinge em cheio a indústria nacional visando trazer o país de volta ao papel de produtor primário, despreza o valor agregado. A especulação financeira e seus lucros gigantescos desestimulam investimentos no setor produtivo. Para completar o quadro o governo restringe a níveis mínimos investimentos em pesquisa e ciência.

E a pandemia caiu como luva para diminuir este contingente de improdutivos não-consumidores. Engana-se quem pensa que a Covid atinge da mesma forma ricos e pobres, brancos e negros. A pobreza no Brasil tem cor, e quem mais morre na pandemia são indígenas, negros e miseráveis. Sem água tratada, sem saneamento básico, sem a imunidade fornecida pela boa alimentação, utilizando transporte público superlotado, sem máscaras, luvas, álcool em gel. E sem acesso à vacina.

O extermínio é política de governo. Mais de duzentas e vinte mil mortes por Covid não é fatalidade, é meta. O caos na região amazônica, aliada à destruição da floresta é meta, mais terras para o agronegócio. Privatizar a vacina preserva a vida das parcelas capazes de trabalhar e consumir.

Não, não é teoria da conspiração. É intencional. O governo brasileiro está fazendo sua parte na preservação do capital, de forma descarada e homicida. E cada vez mais se municia de garantias capazes de garantir seu projeto. Uma necropolítica de dar inveja ao nazismo.

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