Imagens eloquentes: descaso na volta às aulas presenciais

Professores de escola estadual em São Paulo voltam à jornada presencial sem condições mínimas de trabalho. Retorno de estudantes aumenta a preocupação.

Ilustração na EE Caetano de Campo, em SP | Foto: Monica Severo

Uma escola no bairro de Aclimação, no centro da capital paulista, dá uma amostra dos desafios para a volta às aulas presenciais. A aplicação das regras e segurança no espaço físico ficam por conta do esforço descomunal de funcionários sobrecarregados da Escola Estadual Caetano de Campos, nomeada em homenagem ao médico e educador Antonio Caetano de Campos.

No dia em que os professores foram convocados a cumprir novamente jornada presencial, em 2 de fevereiro, os docentes se surpreenderam com o estado insalubre em que a escola se encontrava. No local, muita sujeira, janelas emperradas, infiltrações, fiações expostas, lixo, pisos e paredes rachadas. Na prática, nenhuma segurança para os profissionais que trabalham no local nem para os estudantes que deveriam chegar 6 dias após o retorno dos professores.

Além do completo descaso com a estrutura física, a logística de limpeza é dispendiosa e não condiz com a realidade financeira e de pessoal da escola. As regras estabelecidas pelo protocolo da Seduc, que faz parte do Plano São Paulo e pode ser consultado no FAQ-Volta-às-aulas-2021, são impraticáveis com os recursos disponíveis.

A EE Caetano de Campos possui 26 salas de aula, sala de professores, sala de recursos multifuncionais para Atendimento Educacional Especializado (AEE), sala de leitura, sala de secretaria, sala de diretoria, laboratório de ciências, laboratório de informática, quadra de esportes coberta, quadra descoberta, banheiros, cozinha, refeitório, despensa, almoxarifado, pátio coberto, pátio descoberto e área verde. Tudo isso em 7 mil m² para aproximadamente 1,5 mil estudantes.

Antes da pandemia, eram quatro funcionários responsáveis pela limpeza. Em 2020 a equipe foi reduzida e, no dia 20 de janeiro deste ano, foram dispensados. O serviço agora é terceirizado, com a contratação de uma empresa do ramo no dia 1° de fevereiro. Nos primeiros dias, foram dois funcionários durante a manhã e outros dois à tarde.

Na mobilização estudantil de 2015, que ocupou 213 escolas no estado de São Paulo segundo a Apeoesp, a limpeza foi uma das exigências dos manifestantes. Os alunos queriam a ampliação das equipes de limpeza, uma reivindicação acatada pela dirigente regional de ensino em assembleia no próprio EE Caetano de Campos. A pandemia chegou antes da realização do compromisso.

A professora de filosofia Monica Fonseca Wexell Severo reuniu em um documento as informações e as fotos denunciando as condições do colégio. A respeito do cumprimento das regras sanitárias, Severo isenta os trabalhadores terceirizados e critica a solução adotada pelo governo.

“Com o tamanho da equipe contratada pelos tucanos, num daqueles esquemas terceirizados que precarizam ao máximo o trabalho, pareceria piada se não fosse de matar. Matar esses trabalhadores de exaustão e os demais de outras patologias. Assim é impossível que a nossa escola seja toda limpa”, afirma Monica Severo.

Uma das medidas essenciais é a higienização de banheiros, lavatórios e vestiários antes da abertura e após o fechamento da escola, além da periodicidade de 3 horas. Por enquanto, não há nenhum trabalhador de limpeza antes da abertura e após o fechamento para efetuar o trabalho de limpeza.

E os banheiros não são o único ponto crítico de proliferação do vírus. Os bebedouros no pátio e as lixeiras também precisam ser higienizados com frequência, visto que o contato com a superfície é maior nesses locais. Pela regra, até maçanetas, carteiras, mesas de refeitórios e corrimões deveriam ser higienizados antes do início das aulas em cada turno.

Quanto ao material para ajudar na higienização, a EE Caetano de Campos recebeu um higienizador de mãos com pedal para colocar na entrada e mais cinco unidades sem o pedal que foram fixados nos corredores da escola. No pátio, não há nenhum equipamento para higienizar as mãos.

As rachaduras, infiltrações e fiação exposta poderiam ser resolvidas com o recurso do Programa Dinheiro Direto na Escola de SP, que se destina para manutenção e conservação das unidades para a volta segura das aulas presenciais. No caso da EE Caetano de Campos, a direção pressiona a Fundação para o Desenvolvimento da Educação (FDE) para que as obras sejam aprovadas e realizadas.

“Na pandemia, fizemos pressão para que as reformas ocorressem. Parece que foi licitado, após quase um ano. Nem previsão de início dos trabalhos. A água da chuva desce pelas caixas de luz. Assim era, assim permaneceu, assim está.”, afirma Monica Severo no documento.

Banheiros na sala dos professores: infiltração, sujeira e lixo como balde.

Sem funcionários para monitorar a circulação em áreas comuns, medir temperatura na entrada, regular ingresso ao banheiro, os professores retornam à jornada presencial. A internet para professores e alunos, outro serviço essencial, também não foi providenciada.

Diante de todos os riscos e desconsideração pelos profissionais e estudantes, Monica Severo desabafa e anuncia o posicionamento dos docentes da EE Caetano de Campos.

“Nestas condições não retornaremos. Sem vacina, sem encontro presencial em nossas escolas sucateadas. Nas demais, retorno também significará o fomento da doença e mais mortes, como já vimos no Brasil e no mundo. Mas nós não somos genocidas. Por isso lutamos: em defesa da vida.”

Veja mais imagens registradas pelos professores aqui.

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