Desemprego entre os jovens aponta mercado de trabalho desafiador

Revolução 4.0 afeta muito o trabalhador jovem pela redução da mão de obra humana pelas máquinas, assim como jovens qualificados que são substituídos pela inteligência artificial.

Jovens são afetados pelo desemprego no Brasil, tanto pela substituição da mão de obra física por máquinas quanto pela substituição de mão de obra qualificada por inteligência artificial – Arte de Lívia Magalhães sobre foto de Pixabay

Os jovens formam um dos grupos mais afetados pelo desemprego no Brasil. Dos quase 14 milhões de desempregados no quarto trimestre de 2020, cerca de 70% eram pessoas na faixa-etária entre 14 e 24 anos de idade, segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD), realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Com a inserção das novas tecnologias, esse grupo encontra um mercado de trabalho cada vez mais exigente e consequentemente com mais dificuldades para garantir novas oportunidades.  

A especialista em Psicologia do Trabalho, Adriana Cristina Ferreira Caldana, professora da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade de Ribeirão Preto (FEA-RP) da USP, conta que, diferentemente de 20 a 50 anos atrás, essa geração está diante de um cenário de redução “não só de mão de obra física, pelas máquinas”, como também da mão de obra qualificada, que “pode ser e já está sendo substituída pela inteligência artificial”. Para ela, essa classe se depara com mais barreiras, pois “o mercado de trabalho que temos hoje é um mercado de trabalho bastante dinâmico”.

Tem sido assim para a jovem Vitória Eduarda dos Santos, de 21 anos, que está em busca do seu primeiro emprego. Ela não concluiu o ensino fundamental devido a motivos de saúde e, embora não tenha experiência profissional, conta que não esperava que a trajetória para entrar no mercado de trabalho seria tão difícil. “Eu imaginava que seria mais fácil. Muitos dos lugares pedem experiência, eles não dão oportunidade para quem não tem.”

Cerca de 70% dos desempregados brasileiros estão na faixa etária de 14 até 24 anos – Foto: Pedro Ventura/Fotos Públicas

As dificuldades para entrar no mercado, além dos índices de desemprego aliados à crise econômica que se instalou no Brasil, somados à pandemia, fazem com que jovens como Vitória se sintam desanimados. Apesar de aconselhada a concluir os estudos, a jovem acredita que, diante do atual cenário, isso pode não fazer diferença. “Está difícil para todos nós, até para quem já tem faculdade”, desabafa, “os estudos são importantes sim, mas neste momento, vendo o mercado de trabalho, acredito que não está fazendo diferença”. Apesar de não encontrar oportunidades, Vitória entende a necessidade da profissionalização. Diz que sua expectativa é conseguir emprego para investir em cursos de especialização e um dia ter seu próprio negócio. 

Mercado requer especialização

Já para Reginelma Siqueira Ferreira Alves, 41 anos, concluir os estudos foi uma necessidade. Ela entrou no mercado de trabalho apenas com o ensino fundamental, mas conta que precisou voltar para a escola para continuar empregada. “Há uns dez anos eu trabalhava em uma firma que nessa época exigiu que os funcionários tivessem até a 8ª série, pois se não tivessem eles iriam dispensar.” 

Reginelma voltou a estudar e decidiu concluir toda a educação básica e, após terminar o ensino médio, resolveu realizar um sonho antigo: cursar o técnico em Enfermagem. Hoje, formada, reconhece a importância da qualificação para conseguir se inserir no mercado. “Hoje em dia o desemprego está muito grande mesmo e há dificuldade de encontrar pessoas especializadas em várias áreas. As empresas procuram qualificação. A pessoa precisa estudar e se qualificar para conseguir se encaixar nas vagas de emprego que têm”, afirma.

Para a professora Adriana, estudar é a porta de entrada para o mercado de trabalho, mas aconselha os jovens a não se apoiarem apenas no diploma do ensino superior e na qualificação profissional. Afirma que eles devem estar abertos a “aprender capacidades para além do que um curso de graduação pode oferecer”. E diz que o ensino superior deve ser um ambiente para “formação de opinião, de base e de discernimento”, para que os jovens aprendam a “distinguir informações relevantes de informações falsas ou irrelevantes”. E que, para o primeiro emprego, “é preciso flexibilidade e saber buscar oportunidades dentro e fora dos muros da universidade”. 

Tecnologias também podem abrir portas

Apesar de o caminho para chegar à ascensão social por meio do trabalho ser difícil, a professora Adriana afirma que, por outro lado, a tecnologia também pode abrir portas para novas possibilidades. “Alguns jovens que se colocam em startups e empresas ligadas à tecnologia conseguem, às vezes, um ganho muito expressivo até precocemente”, conta.

Segundo Adriana, o que o mundo corporativo espera dos jovens é que, além do conhecimento das novas tecnologias, eles estejam atentos às tendências de sustentabilidade, diversidade e a promover mudanças que causem impacto positivo para a sociedade. A professora também conta que, com o dinamismo do mercado atual e das relações de trabalho no mundo contemporâneo, hoje os jovens podem, com maior facilidade, desenvolver mais de uma carreira profissional ao longo da vida. “As gerações novas ficam muito menos tempo no emprego e também desejam muito menos relações de emprego em relação ao que era projetado para as carreiras de 20 a 50 anos atrás”, afirma. 

Para a especialista, a sociedade e os governos também podem ser uma  peça fundamental para que esses jovens encontrem novas oportunidades. Diz que é preciso promover “mais desoneração” para a oportunidade do primeiro emprego e afirma que “as empresas precisam construir a mentalidade de mentoria” para instrução dos jovens que estão ingressando no mercado de trabalho. Nesse sentido, diz Adriana, “as organizações da sociedade civil também podem se articular para fazer esse movimento de atuação”, diante do desemprego entre jovens.

Do Jornal da USP