Netanyahu depõe sobre corrupção enquanto enfrenta protestos e crise

É a 21ª vez que o premiê vai ao tribunal por corrupção. Escândalo do Qatargate, tentativa de aparelhamento e massacre em Gaza ampliam pressão política e social

Netanyahu durante audiência no Tribunal Distrital de Tel Aviv, onde responde por corrupção no Caso 4000; é a 21ª vez que o premiê comparece como réu. Foto: Reprodução

O primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, presta nesta quarta (2) seu 21º depoimento à Justiça no processo conhecido como Caso 4000, em que é acusado de suborno, fraude e quebra de confiança. O julgamento, que tramita desde 2020, ocorre no momento em que o líder israelense enfrenta denúncias de crimes de guerra, protestos em massa e o aprofundamento de investigações envolvendo aliados próximos.

Segundo a acusação, ele concedeu vantagens regulatórias à empresa de telecomunicações Bezeq, controladora do portal de notícias Walla!, em troca de cobertura favorável à sua imagem e à de sua esposa, Sara Netanyahu. A Promotoria estima que os favores prestados tenham somado o equivalente a US$ 500 milhões. Durante o depoimento, Netanyahu voltou a negar que tenha usado sua posição para favorecer interesses empresariais em troca de benefícios políticos.

O Caso 4000 é considerado o mais grave entre os três processos criminais que envolvem o premiê. No Caso 1000, ele é acusado de receber presentes de luxo, como champanhe e charutos, de empresários como Arnon Milchan e James Packer, em troca de favorecimento político.

Já no Caso 2000, teria negociado cobertura favorável com o dono do jornal Yedioth Ahronoth, oferecendo em contrapartida o apoio a uma lei que enfraqueceria seu principal concorrente.

Embora a legislação israelense não obrigue a renúncia de um premiê durante um processo judicial, os escândalos vêm agravando uma crise institucional e política que se estende há anos. O julgamento chegou a ser suspenso por algumas vezes devido à pandemia e, mais recentemente, pela guerra iniciada após os ataques do Hamas em 7 de outubro de 2023.

Aliados próximos presos por atuação ilegal em favor do Catar
Dois dias antes do depoimento, a crise se agravou com o avanço do escândalo conhecido como Qatargate, que levou à prisão de dois assessores próximos de Netanyahu: Yonatan Urich e Eli Feldstein. Ambos são investigados por supostamente atuar em nome do governo do Catar para influenciar a cobertura da imprensa israelense, minimizando o papel do Egito nas negociações por um cessar-fogo com o Hamas.

Segundo documentos da Justiça israelense, os dois teriam recebido propina e coordenado campanhas de relações públicas em veículos nacionais, promovendo uma imagem positiva do emirado árabe. A denúncia envolve ainda a tentativa de interferência na política externa israelense e na percepção pública sobre os esforços de mediação entre Tel Aviv e Gaza.

Netanyahu também prestou depoimento no caso nesta segunda (31), mas nega qualquer envolvimento. Em vídeo divulgado em seu canal do Telegram, classificou a investigação como uma “caça política”. A defesa sustenta que o inquérito visa impedir que o premiê concretize a demissão do chefe do serviço de inteligência interna (Shin Bet), Ronen Bar, que conduz a apuração.

A possível obstrução da investigação pela cúpula do governo gerou reações dentro e fora de Israel. Em comunicado à imprensa, o Fórum das Famílias de Reféns afirmou que os escândalos reforçam a suspeita de que Netanyahu está prolongando a guerra para manter-se no poder e evitar a prisão.

Tentativa de demitir chefe do Shin Bet expõe aparelhamento do Estado

A tentativa de demissão do chefe do Shin Bet, Ronen Bar, foi suspensa pela Suprema Corte de Israel, que marcou para 8 de abril a análise da legalidade da medida. Bar havia responsabilizado o governo Netanyahu pela falha que permitiu os ataques do Hamas em outubro e, posteriormente, passou a liderar a investigação sobre o Qatargate.

Em meio à disputa, Netanyahu anunciou a nomeação do vice-almirante Eli Sharvit como novo chefe do serviço. No entanto, voltou atrás após pressões externas, sobretudo do senador republicano Lindsey Graham, aliado de Donald Trump. Graham alegou que declarações de Sharvit contra a política energética de Trump gerariam tensões com Washington.

A tentativa de aparelhamento do serviço de inteligência, somada à interferência estrangeira na nomeação de seus chefes, agravou a instabilidade institucional no país. Segundo a imprensa israelense, o governo também cogita remover a procuradora-geral Gali Baharav-Miara, que atua em investigações contra o premiê.

Analistas avaliam que a interferência nos órgãos de controle e segurança representa uma tentativa de Netanyahu de blindar-se contra os escândalos e neutralizar investigações independentes, num movimento que tem gerado protestos dentro e fora do país.

ONU acusa Israel de executar socorristas palestinos em Rafah
No plano militar, a retomada dos ataques em Gaza após o fim da trégua em 18 de março resultou no assassinato de 15 trabalhadores humanitários, entre eles um funcionário da ONU, na cidade de Rafah, sul da Faixa de Gaza. A denúncia partiu da própria Organização das Nações Unidas, que acusou o Exército israelense de ter executado as vítimas uma a uma e enterrado seus corpos em vala comum, junto a ambulâncias destruídas.

Segundo o Crescente Vermelho Palestino, as equipes estavam em missão de resgate e haviam solicitado passagem segura. A ONU afirmou que os veículos estavam claramente identificados. O exército israelense, por sua vez, alega que os alvos “avançavam de forma suspeita” e que entre os mortos estariam militantes do Hamas — sem apresentar provas.

A morte dos socorristas ocorre num contexto em que mais de 50 mil palestinos já foram mortos desde o início da guerra, segundo autoridades de Gaza. A ONU contabiliza 1.060 profissionais da saúde assassinados desde outubro.

O episódio elevou a pressão internacional sobre Israel e pode fortalecer a atuação do Tribunal Penal Internacional, que já emitiu mandados de prisão contra Netanyahu e o ex-ministro da Defesa Yoav Gallant, por crimes de guerra.

Protestos crescem dentro de Israel por acordo e fim da guerra
A crise interna também se intensifica. Mais de 100 mil pessoas saíram às ruas de Israel no último sábado (29), exigindo a libertação dos reféns ainda em Gaza, o fim da guerra e a interrupção das reformas judiciais propostas pelo governo. O movimento foi liderado por familiares de reféns e por ex-militares, com apoio de setores diversos da sociedade.

Segundo pesquisa do canal Channel 12, 69% da população apoia um cessar-fogo em troca da libertação dos reféns, incluindo 54% dos eleitores da coalizão de governo. As manifestações também criticaram as tentativas de Netanyahu de demitir autoridades-chave e de prolongar o conflito para proteger seus interesses políticos.

Desde que o Hamas capturou 251 reféns em 7 de outubro, 59 seguem detidos — e pelo menos 35 estão mortos, segundo o governo israelense. A pressão por um acordo cresce à medida que as negociações fracassam e a popularidade do premiê despenca.

A soma dos escândalos judiciais, das violações humanitárias e da repressão política aponta para um governo em crise profunda — isolado internacionalmente, contestado nas ruas e contestado nos tribunais.

Autor