Funcionários pressionam ONU a tratar guerra em Gaza como genocídio

Mais de 500 assinaturas pedem que Alto Comissariado assuma posição clara; Israel rejeita acusações e fala em direito à autodefesa

São Paulo SP 28/08/2025 Jornalistas SJSP - FENAJ - Ato de apoio aos profissionais da imprensa palestinos, vítimas de assassinatos perpetrados pelo Estado de Israel. Av. Paulista, São Paulo SP. 28 de agosto de 2025. Foto: Roberto Parizotti

Centenas de funcionários do Escritório do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos (ACNUDH) pediram ao chefe da agência, Volker Turk, que descreva explicitamente a guerra em Gaza como um genocídio.

A carta, enviada nesta quarta-feira (28) e vista pela agência Reuters, foi assinada por um comitê que representa mais de 500 empregados em todo o mundo — cerca de um quarto da força de trabalho global da entidade. No texto, os signatários afirmam que os critérios legais para caracterizar genocídio já foram cumpridos, citando a escala, o alcance e a natureza das violações documentadas em quase dois anos de conflito entre Israel e o Hamas.

“O ACNUDH tem uma forte responsabilidade legal e moral de denunciar atos de genocídio”, diz a carta. Para os funcionários, deixar de usar o termo minaria a credibilidade não apenas do Alto Comissariado, mas de todo o sistema internacional de direitos humanos. O documento menciona ainda o fracasso moral da ONU diante do genocídio de Ruanda em 1994, quando mais de 1 milhão de pessoas foram mortas.

Reações e tensões

O Ministério das Relações Exteriores de Israel rejeitou o conteúdo da carta, afirmando que não responde a “cartas internas de funcionários da ONU, mesmo que sejam falsas, infundadas e cegas de ódio obsessivo contra Israel”. O governo israelense já havia negado anteriormente acusações de genocídio, sustentando que sua atuação em Gaza se insere no direito à autodefesa após os ataques do Hamas em 7 de outubro de 2023, que deixaram 1.200 mortos e resultaram em 251 reféns.

Desde então, a ofensiva militar israelense já causou quase 63 mil mortes, segundo o Ministério da Saúde de Gaza. Além disso, monitoramentos da ONU alertam para a fome e a desnutrição severa em partes do território.

Debate jurídico e político

Embora organizações como a Anistia Internacional e especialistas independentes da ONU, como a relatora especial Francesca Albanese, já utilizem o termo genocídio para descrever a guerra, a própria ONU ainda não o faz. Autoridades do sistema multilateral defendem que a classificação formal cabe a tribunais internacionais.

Em 2023, a África do Sul apresentou um processo contra Israel na Corte Internacional de Justiça, acusando o país de genocídio em Gaza. O caso ainda não foi julgado em seu mérito, e a tramitação pode levar anos.

Divisão interna

O episódio expõe também as tensões dentro da própria ONU. Em resposta à carta, Turk reconheceu o sentimento de “indignação moral” de seus funcionários e a frustração com a incapacidade da comunidade internacional de pôr fim ao conflito. Ele pediu, porém, que a equipe mantenha a unidade do Escritório “diante de tamanha adversidade”.

A porta-voz do ACNUDH, Ravina Shamdasani, confirmou que o tema vem sendo discutido internamente e admitiu que a situação em Gaza “abalou profundamente” a organização, que tenta documentar fatos e soar o alarme diante da escalada da violência.

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