Entre a chuva e a Internacional
Primeiro dia de ManiFiesta, a Festa da Solidariedade em Bruxelas, reuniu militância, delegações internacionais e cultura, com comício de Raoul Hedebouw e o canto coletivo da Internacional
Publicado 15/09/2025 15:57 | Editado 17/09/2025 09:29
Desde as primeiras horas da manhã já era perceptível a movimentação do público e das delegações internacionais, que se organizavam em filas na frente do Hipódromo Wellington. Pontualmente às 10h, os portões foram abertos, marcando o início oficial do primeiro dia de atividades. O clima de expectativa se somava à animação dos presentes, que viam naquele encontro um espaço de celebração, de luta política e de troca cultural.
A manhã trouxe consigo chuva e frio persistentes, que se estenderam até o final da tarde. No entanto, a meteorologia adversa não foi capaz de abalar o ânimo dos participantes. Com capas, casacos impermeáveis e muita disposição, cada um se manteve ativo, participando das atividades e explorando os espaços. O contraste entre o frio ambiente e o calor humano da militância foi um dos elementos mais marcantes do dia.
Em todo o espaço, a diversidade de barracas das várias organizações ligadas ao PTB chamava atenção. Juventude, mulheres, trabalhadores e até mesmo os Pioneiros, representados por crianças engajadas, ocupavam seus espaços com propostas, materiais e atividades. Esse mosaico reforçava o caráter plural do evento, onde cada segmento encontrava seu lugar e contribuía para o conjunto.
As delegações internacionais foram recebidas com destaque no espaço internacional, coordenado pelos dirigentes do PTB. Cada delegação dispunha de uma banquinha para apresentar seus panfletos, livros, adesivos e opiniões políticas, promovendo intercâmbio de ideias e experiências. As bandeiras palestinas sobressaíram por serem carregadas por todas as delegações. Foi nesse espaço que conhecemos duas deputadas de origem latino-americana, uma chilena e uma equatoriana, que hoje ocupam cadeiras nos parlamentos regionais belgas. Sua presença demonstra a multiplicidade da sociedade belga, formada por diferentes trajetórias e vozes que se encontram na vida política do país.

Oficinas, debates, rodas de conversa e apresentações culturais se multiplicaram ao longo do dia, dando dinamismo ao espaço. Em virtude da chuva, os locais fechados foram os mais procurados, o que resultou em debates lotados e em uma feira de livros particularmente fervilhante, transformada em ponto de encontro de militantes e curiosos. O frio do lado de fora não se reproduzia no ambiente dos encontros, que era aquecido pela participação coletiva, pelas intensas conversas, pela cerveja belga e também pelos copos de Cuba Libre e mojitos que circulavam e aqueciam a militância.
No meio da tarde ocorreu o ponto alto do dia, o aguardado comício conduzido pelo presidente do PTB, Raoul Hedebouw. Diferente das formalidades comumente vistas em atividades políticas, seu discurso se destacou pela leveza, criatividade e pela capacidade de diálogo direto com a plateia. Em diversos momentos, o dirigente interrompia sua fala para fazer perguntas ao público, provocando respostas coletivas e chamando palavras de ordem que inflamaram ainda mais a militância. O público acompanhou com entusiasmo as mensagens de solidariedade transmitidas também em vídeo, inclusive de uma integrante da Flotilha da Liberdade que se dirige à Gaza, reforçando a dimensão internacionalista do encontro.
No comício, Raoul Hedebouw trouxe à tona o combate à reforma da previdência na Bélgica, ressaltando-a como exemplo da luta dos trabalhadores frente às tentativas de retirada de direitos. De maneira enfática, defendeu o socialismo como único caminho possível para garantir justiça social e dignidade. Sua condução primorosa reforçou a confiança e a esperança da militância presente.
O momento de maior emoção ocorreu no encerramento do comício, quando os presentes entoaram em uníssono o Hino da Internacional em francês. O canto coletivo, carregado de simbolismo e tradição, ecoou pelo espaço, reafirmando a unidade da luta e a dimensão histórica daquele encontro. Criado em 1871, após a Comuna de Paris, o hino tem letra escrita pelo operário francês Eugène Pottier e música composta em 1888 por Pierre Degeyter, também operário. Desde então, tornou-se o canto universal do movimento socialista e comunista, atravessando gerações como símbolo de resistência e esperança. Sua entoação, naquela tarde chuvosa, ligava a luta dos presentes a uma longa tradição de combate internacional dos trabalhadores.
Ao cair da noite, a programação seguiu com um show vibrante do rapper congolês Youssoupha. A apresentação foi intensa e politicamente carregada, lembrando as tragédias da colonização belga no Congo e transformando a dor histórica em arte e resistência. Música, ritmo e memória se entrelaçam em um espetáculo que encerrou o dia em alto nível, equilibrando política e cultura. O primeiro dia, vivido entre chuva, luta e celebração, deixava a certeza de que o segundo dia prometia sol e luta.