Israel intercepta flotilha rumo a Gaza e prende mais de 400 ativistas

Itamaraty condena operação militar, países pedem libertação imediata e protestos tomam capitais após ação israelense em águas internacionais

Reprodução de vídeo mostra ativistas a bordo do barco Alma, um dos que compõem a flotilha para Gaza, em imagem divulgada durante aproximação da Marinha de Israel. Foto: Global Sumud Flotilla

A Marinha de Israel interceptou, em águas internacionais do Mediterrâneo, a Flotilha Global Sumud (GSF), composta por mais de 40 embarcações e cerca de 500 ativistas de 44 países, que transportavam alimentos, água, medicamentos, próteses, brinquedos e fórmulas infantis para a Faixa de Gaza. 

Entre os passageiros estavam a ativista sueca Greta Thunberg e ao menos 15 brasileiros, incluindo a deputada federal Luizianne Lins (PT-CE) e a vereadora Mariana Conti (PSOL-Campinas).

Israel afirma que os barcos seriam levados ao porto de Ashdod, onde os passageiros passariam por autoridades de imigração antes de serem deportados. 

Em reação imediata, governos de diferentes regiões divulgaram comunicados em defesa dos ativistas e contra a operação militar. 

A Autoridade Palestina afirmou que a Flotilha Sumud tinha direito de livre passagem em águas internacionais e pediu proteção urgente da comunidade internacional. 

Colômbia, Venezuela, Bolívia, Cuba, México, Chile, África do Sul, França, Bélgica e Irlanda condenaram a interceptação e responsabilizaram Israel pela segurança dos detidos. 

Turquia, Irã e Catar classificaram a ação como ato de terrorismo e exigiram a libertação imediata dos participantes, enquanto a ONU e a Anistia Internacional denunciaram o bloqueio a Gaza como ilegal e pediram o fim da obstrução à ajuda humanitária.

O ministério das Relações Exteriores israelense declarou que “todos estão seguros e em bom estado de saúde”, mas chamou a iniciativa de “iate de provocação” e alegou que a flotilha tentava violar um “bloqueio naval legal”.

A interceptação ocorreu a cerca de 70 milhas náuticas da costa de Gaza, em águas internacionais. Imagens transmitidas ao vivo mostraram soldados armados com capacetes e óculos de visão noturna abordando os barcos, enquanto passageiros, de colete salva-vidas, permaneciam sentados com as mãos erguidas.

A GSF denunciou que Israel bloqueou propositalmente os sinais de comunicação e cortou transmissões ao vivo para impedir pedidos de emergência. O movimento afirma ainda que a interceptação foi “um ato ilegal de desespero” para manter Gaza sob fome e isolamento.

Relatos dos participantes descrevem o uso de canhões de água, drones lançando explosivos, bombas de efeito moral e substâncias irritantes, além de ataques cibernéticos que desativaram sistemas de navegação. 

O ativista Thiago Ávila disse tratar-se de uma “tática de guerra psicológica”. Do barco Mikeno, o coordenador da delegação brasileira, João Aguiar, relatou que a Marinha israelense fazia manobras de alta velocidade para formar ondas e atingia os passageiros com jatos de água. 

“Estamos todos molhados e tremendo de frio”, disse.

Em vídeo pré-gravado, divulgado após sua detenção, Greta Thunberg denunciou a intervenção israelense. 

“Se você está assistindo a este vídeo, é porque fui sequestrada e levada contra a minha vontade por forças israelenses. Nossa missão humanitária era não violenta e em conformidade com o direito internacional”, disse.

A vereadora Mariana Conti também publicou mensagem nas redes sociais: “Fomos sequestrados por Israel em águas internacionais por tentar levar comida e remédio para Gaza.”

Brasileiros detidos

Entre os detidos confirmados estão Luizianne Lins, Mariana Conti, Thiago Ávila, Gabi Tolotti (PSOL-RS), Nicolas Calabrese (Rede Emancipa, argentino residente no Brasil), Bruno Gilga (USP, CSP-Conlutas), Lisiane Proença (comunicadora popular), Magno Costa (SINTUSP), Ariadne Telles (advogada popular), Mansur Peixoto (História Islâmica), Mohamad El Kadri (Fórum Latino Palestino) e Lucas Gusmão (internacionalista).

No total, a delegação brasileira tinha 17 integrantes. A GSF estimou em 443 o número de pessoas detidas.

O Itamaraty condenou oficialmente a operação, destacando “preocupação com a presença de cidadãs e cidadãos brasileiros, incluindo parlamentares”. 

Em nota, o ministério afirmou: “O governo brasileiro deplora a ação militar israelense, que viola direitos e coloca em risco a integridade física de manifestantes em uma ação pacífica. Passa a ser de responsabilidade de Israel a segurança das pessoas detidas.”

A embaixada do Brasil em Tel Aviv disse estar prestando assistência consular. Em São Paulo, amigos e familiares organizaram vigília no espaço cultural Al Janiah, exigindo apoio do governo e o rompimento das relações comerciais com Israel.

Condenações internacionais

A operação desencadeou forte repercussão diplomática. A Colômbia, além de exigir a libertação de dois de seus cidadãos detidos, expulsou diplomatas israelenses e encerrou o acordo de livre comércio com Israel, vigente desde 2020. O presidente Gustavo Petro classificou a ação como “crime internacional de Netanyahu”.

A África do Sul pediu a libertação imediata dos participantes, incluindo Nkosi Mandela, neto de Nelson Mandela, e defendeu que a carga humanitária chegue a Gaza. O presidente Cyril Ramaphosa afirmou que a flotilha representava “solidariedade com Gaza, não confronto com Israel”.

A Autoridade Palestina declarou que a GSF tinha direito de livre passagem em águas internacionais e pediu proteção internacional. Irã, Catar e Turquia classificaram a ação como “ato de terrorismo”. 

O presidente turco Recep Tayyip Erdogan disse que a interceptação provava que o governo Netanyahu “não tem intenção de permitir que a paz floresça”.

Venezuela, Bolívia, Cuba, México e Chile também condenaram a operação. O presidente boliviano Luis Arce falou em “violência inaceitável” e acusou Netanyahu de “terrorismo de Estado”. Já o presidente cubano Miguel Díaz-Canel disse que os eventos confirmam a “essência genocida de Israel”.

Na Europa, a França exigiu garantias de segurança e retorno dos ativistas, enquanto a Bélgica pediu respeito ao direito internacional. O Reino Unido declarou-se “muito preocupado” e defendeu a entrega da ajuda via ONGs, e o presidente da Irlanda, Michael D. Higgins, afirmou que a segurança dos ativistas é “preocupação de todas as nações”.

O Alto Comissário da ONU para Direitos Humanos, Volker Türk, pediu que Israel “levante urgentemente o bloqueio de Gaza e permita a entrada de suprimentos vitais sem impedimentos”. A secretária-geral da Anistia Internacional, Agnès Callamard, afirmou que o bloqueio israelense é “ilegal” e que a “impunidade de décadas deve terminar”.

Protestos e mobilizações

As interceptações motivaram protestos em várias capitais. Em Roma, cerca de 10 mil pessoas se reuniram no Palácio Chigi; manifestações ocorreram também em Barcelona, Berlim, Bruxelas, Nápoles, Milão, Turim, Istambul e Montevidéu.

Centrais sindicais italianas (CGIL e USB) convocaram greve geral para esta sexta-feira (3), e associações estudantis ocuparam universidades em cidades como Pádua e Roma, pedindo o fim dos acordos acadêmicos com instituições israelenses. O lema “Não é guerra, é genocídio” ecoou em atos no Uruguai e em outras mobilizações internacionais.

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